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Páscoa da socialização

Gastei um bom tempo procurando coisas boas prá dizer neste domingo de Páscoa, algo que fizesse renascer nas pessoas alguns fiapos de esperança, aproveitando o embalo do renascimento de Cristo. Está difícil a vida do otimista. A leitura dos jornalões e revistinhas não deixa dúvidas: o mundo está acabando no Brasil. Mas esgueirando-me no muro do bom senso, fugi da saraivada de coisas ruins e encontrei três ovos de chocolate escondidos. Deguste-os comigo.

O primeiro ovo, como no princípio, é um verbo: compartilhar. Nunca compartilhamos tanto, com tantos. Compartilhamos o que estamos pensando, o que estamos lendo, o que estamos fazendo, nossas finanças, nossas doenças, nosso tudo. Compartilhar virou uma febre, uma pandemia. O número de fotos pessoais postadas nas redes sociais é astronômico. Mas também – e principalmente – estamos compartilhando idéias, ferramentas, criações, além de trabalho.

Compartilhando, chegamos ao segundo ovo, a cooperação coletiva, um nível superior de engajamento comunitário. É o mesmo impulso do mutirão prá fazer um puxadinho, só que numa escala planetária. O software Linux Fedora, por exemplo, é uma colaboração de 60 mil anos/homem de trabalho. Estima-se que atualmente cerca de 500 mil pessoas ao redor do mundo estejam trabalhando em mais de 400 mil projetos de código aberto diferentes, como a Wikipedia. É quase o dobro do quadro da General Motors, mas sem nenhum chefe. São colaboradores que moram em países distantes, falam línguas diferentes e nunca se encontrarão para um churrasquinho com cerveja na laje, ao terminarem o projeto. Hoje estamos construindo colaborativamente enciclopédias, agências de notícias, videotecas e softwares em grupos intercontinentais. Nada impede que usemos o mesmo método para construir pontes, universidades, plataformas espaciais.

O ovo número três está no final da trilha da cooperação: o coletivismo. Já existem sites colaborativos que permitem o uso de suas criações de forma comunitária, quase comunista. Posso fazer da sua foto a minha foto, posso alterar seu vídeo como quiser e usá-lo como bem entender. Para os jovens de hoje, o sentido de propriedade intelectual ou artística faz cada vez menos sentido. A grande curtida é alguém pegar minha criação e acrescentar algo nela. Na cabeça da molecada, o coletivo é muito melhor. Intuitivamente eles sabem que no coletivismo tanto o indivíduo quanto o grupo saem ganhando. Como sabem as abelhas e as formigas. E sabiam os homens, nas tribos e comunidades antigas.

Estudiosos avaliam que nos próximos 20 anos as forças socializantes da tecnologia – compartilhamento, cooperação, coletivizacão – serão o evento mais marcante em nossa cultura e comportamento. A natureza nos fez animais sociais. De grupo em grupo, de tribo em tribo, de cidade em cidade, de país em país, chegamos até aqui. Agora, estamos no limiar de uma tribo planetária. Talvez seja esta uma grande, nova e verdadeira páscoa, em qualquer dos seus três significados: a época da fecundação e germinação, a passagem para a terra prometida, o renascimento do homem e do seu espírito.

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