omelete no ar

Pequenos orgulhos

Nunca fiz algo grandioso na vida. Não comandei exércitos, não assinei tratados de paz. Não ocupei altos cargos, nem descobri a cura de nada. Não construí pontes, não fundei cidades nem igrejas. Nunca escrevi um livro de sucesso. Jamais tive músicas no hit parade. Fugi de todas as oportunidades de heroísmo. Não tenho títulos, nunca ganhei prêmios ou honrarias. Sequer recebi uma caneta quando me aposentei.

Mas há coisas das quais me orgulho. Coisas pequenas, cabem numa caixa de sapatos e podem ser espalhadas num pedaço de tapete. Dobrar lençóis elásticos, por exemplo. Ou apontar lápis com estilete, virar omeletes no ar, empilhar montanhas de louça no escorredor. Também sei usar crases e manejo razoavelmente as vírgulas. Fora isso, conheço um punhado de passarinhos, entendo a linguagem dos cachorros e sou bom no estilingue.

Claro, tenho algumas frustrações, mas até elas são pequenas: não saber logaritmos, não assobiar com o dedo na boca, ser um péssimo dançarino e um fracasso como marceneiro. Não realizei alguns poucos desejos mais elevados, como virar fazendeiro e ler Shakespeare no original, mas isso não me deixou sequelas: sou jardineiro de apartamento, e sempre encontro boas traduções de Hamlet em sebos ou na casa de amigos.

Existem, enfim, coisas que às vezes me dão orgulho, às vezes frustração. Uma delas é ter a cabeça fantasiosa, imaginar possibilidades, viajar na maionese sem qualquer aditivo químico. Isso já me rendeu muitos elogios (“Oh! como ele é criativo!”, “como é espirituoso!”) e muitas críticas também (“vive com a cabeça na lua!”, “não presta pra nada!”). Outra coisa difícil de classificar se é boa ou ruim: a indignação. Em certas horas o indignado desperta admiração e respeito; em outras, somente compaixão e desprezo – como o sonhador. Indignação e sonho são as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda de fantasia, sem nenhum valor no mercado do mundo real.

Houve um tempo em que eu media a distância entre o que sou e o que poderia ter sido. Os números eram sempre quilométricos, e os caminhos se bifurcavam em inúmeros “se”. Ah, se naquela noite tivesse dito sim ao invés de não. Ou não ao invés de sim. Se tivesse escrito aquela carta. Se tivesse ficado, em vez de ir embora. Quantas noites e dias gastei tentando corrigir algumas dessas decisões, mas depois desencanei, porque todo novo caminho levava a outras bifurcações, e me via novamente diante de outros inevitáveis “se”.

Atualmente, em vez de tentar alterar o muito que poderia ter sido, procuro melhorar o pouco que sou. Não, não pretendo aprender logaritmos, nem descobrir a importância deles pro mundo. Mas ainda vou ficar craque em assobios, e quem sabe, dançar um tango feito Al Pacino. Por força do hábito, também continuo a indignar-me e a sonhar – essas coisas que já me causaram muito orgulho, e hoje mantenho na pequena caixa de sapatos, misturadas aos lápis apontados, às crases corretas e aos omeletes virados no ar.

1 responder
  1. Jary Mércio
    Jary Mércio says:

    Pra variar, muito bom, Bergantini! Você traçou um dos aspectos do seu multifacetado perfil, mas ao falar de você, falou – e você sabe disso – de uma legião de anônimos, da qual, orgulhosamente, faço parte. Celebremos nossos pequenos feitos, e até mesmo nossos defeitos, porque ressaltam alguma qualidade que haveremos de ter, e se não a tivermos, não terá sido por falta de vontade – talvez tenha havido pouco empenho, mas isso é da natureza de cada um, rs.

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