cigarro boca cheia

Que droga!

Independência ou morte! Não, leitor, você não pegou por engano o jornal de 7 de setembro passado. Esse brado – meio rouco mas um brado – é meu mesmo. Estou tentando me libertar da dependência de uma droga mortal, com poder viciante maior do que o álcool, crack, cocaína ou LSD, segundo o Dr. Drauzio Varella.

O mais gozado é que o barato dessa superdroga não é dos maiores. Ninguém diz que viajou nela. No máximo, viajou com ela. Com o tempo a gente nem percebe mais o efeito. Estica o braço, toma mais uma dose, e parece que tudo continua normal. Comparada com outras drogas “perigosas”, seu efeito é bem borocochô. A tal ponto que ninguém nunca fez uma música ou escreveu um livro sobre ela, como é o caso do álcool milenar (“Marvada Pinga”: Ochelsis Laureano), da sedutora cocaína (“Cocaine”: Eric Clapton), da brava heroína (“Junkie”: William Burroughs), da familiar maconha (“Haxixe”: Baudelaire, Walter Benjamin), do velho ópio (“Confissões de um comedor de ópio”: Thomas de Quincey), do alucinante LSD (“As portas da percepção”: Aldous Huxley), e tantos outros exemplos de gente ilustre e obras não menos ilustres.

Entretanto, mesmo sem ter uma história musical ou literária, ela foi – e ainda é – uma estrela de cinema. Hollywood a transformou no símbolo da elegância, do charme, da inteligência, da sensualidade e do poder. Tanto masculinos quanto femininos. No apogeu ela virou um complemento divino, um acessório de mitos. Foi assim que muita gente embarcou no vício. Eu, inclusive, e talvez você, leitor. Só recentemente começaram a surgir filmes desmitificando o glamour e revelando a verdadeira face dessa droga diabólica e sua poderosíssima indústria. Mais do que nunca, o velho ditado “onde tem fumaça tem fogo” mostrou a força de sua sabedoria.

Sim, você já sacou, é do tabaco que estou falando. Ou melhor, escrevendo, porque falar muito me faz tossir. Respirar fundo, levantar de manhã, rir, gritar, olhar para as estrelas, tudo isso me provoca tosse. Com mais de 40 anos de tabagismo, nunca senti vontade de parar. Nada relativo ao tabaco me sensibilizava. Nem as horríveis fotos nos maços de cigarro, nem os números genocídicos (5 milhões de mortos por ano, 10 mil por dia). Em vez de ficar assustado com as estatísticas (quase metade da população masculina do planeta se droga com tabaco diariamente), eu me divertia com algumas curiosidades. Por exemplo: saber que a droga vem avançando na população feminina, ou que as mulheres de países ricos fumam três vezes mais que as de países pobres – o que mostra como o cigarro ainda está associado à idéia de emancipação, liberdade e sucesso.

Atualmente, os principais alvos da indústria tabagista são as mulheres e os jovens, que formam a legião de dependentes consumidores do futuro. Viciados velhos como eu não precisam de estímulo publicitário para se drogar. Nunca vamos dormir sem fumar mais um e sem estar seguros que o de amanhã cedo está garantido e à mão.

Por que estou tentando me livrar desse vício? Porque descobri que meus pulmões são frágeis. E também que é ruim, muito ruim ter dificuldade pra respirar. Fiz essas descobertas graças a uma abençoada pneumonia. Mas não está sendo brincadeira. Os primeiros dias são um inferno. Você só conhece a força de uma droga quando tenta se livrar dela. É como querer desfazer um pacto com o diabo, ou tentar encerrar o cartão de crédito. Ah!, como tudo seria mais fácil, se eu fosse dependente de crack ou heroína.

Apesar da dificuldade, algo me diz que conseguirei sair dessa. Estou usando todos os auxílios disponíveis, e pensando em recorrer até aos Fumantes Anônimos. Assim aproveito e dou uma geral também no caráter e na personalidade. Morro de medo de virar um daqueles ex-fumantes chatos, que fazem discurso no churrasco da firma, abordam pessoas em praça pública, ou sentam ao lado da vítima e ficam dando tossidinhas. Se isso acontecer, juro que eu conto aqui. Mas não volto a fumar.

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