Fé_que_vem_de_deus

Questão de fé

Se eu pudesse reclamar de algum defeito de fabricação com o Criador, diria a Ele que seria bom ter nascido com um pouco mais de fé. Seria bom acreditar que alguém invisível e infalível me protege, quando tantos perigos visíveis me ameaçam; acreditar que alguém me ama do jeito que eu sou, e não do jeito que eu deveria ser. Seria infinitamente bom acreditar que alguém super poderoso está sempre ao meu lado, em todos os lugares, mesmo nas horas mais silenciosas e escuras.

Sinto inveja daquelas pessoas que perdem a hora e o vôo, e depois, quando o avião em que deveriam estar cai e mata centenas, dizem que foram salvas pelos céus. Ou então, ex-garotas de programa que entram em coma por infecção de silicone, e depois voltam aos holofotes convertidas em pregadoras e escritoras, dizendo que foram ressuscitadas pelo Salvador. Às vezes me esforço, mas não consigo acreditar que Deus gaste seus dias e suas noites ocupado em escolher o náufrago que será resgatado, a casa onde a bomba não cairá, a moça que depois de abandonada no altar voltará a casar, o pai que verá o filho sair ileso dos escombros, qual pedestre será atropelado mas conseguirá chegar em casa com o pão do jantar debaixo do braço.

O dia-a-dia do mundo é o contrário dessa ordem universal e pré-determinada. Todo santo dia, gente que nem deveria ter nascido consegue chegar aos 100 anos, enquanto outros, que mereciam viver eternamente, mal chegam aos 30. Não estou rogando praga, nem sendo intolerante. Estou dizendo que não há lógica na vida, nem na morte. Muito menos justiça. Recompensa por bom comportamento, então, é uma piada – geralmente de mal gosto.

Veja o caso de Pedro de Lima Mendes, tenente-aviador com 95 missões de combate na Segunda Guerra, duas medalhas por bravura e audácia diante do inimigo. Aos 26 anos ele já era herói, e sua fama cresceu ainda mais quando desenhou uma nova nacele para os aviões T6 – aqueles da Esquadrilha da Fumaça – e enviou-a para a fabricante North American Aviation, que implantou o modelo em todo o mundo, melhorando a segurança de milhares de pilotos. Na manhã do dia 30 de julho de 1946, desfrutando sua glória numa exibição aérea para celebridades, o jovem tenente Lima Mendes acidentou-se numa manobra, não conseguiu ejetar a nacele que ele mesmo criara, e explodiu no solo junto com seu T6.

Apesar das evidências em contrário, os crentes insistem em acreditar no inacreditável. Atualmente, por exemplo, muitos acreditam que basta trocar de presidente para o Brasil entrar nos eixos. Isto é, literalmente, acreditar que existe um salvador da pátria. Prefiro acreditar em duendes, pelo menos não tentam salvar pátria alguma, nem colocar nada nos eixos. Ou em fadas, que resolvem os problemas com uma varinha de condão, e não com golpes de estado.

Confesso que às vezes, quando as coisas correm bem, quando o sol brilha, o dente não dói e as flores derramam seu perfume no ar, chego a pensar que pode existir um plano divino regendo tudo e todos. O universo é tão engenhoso, penso eu, embriagado pelo espetáculo da vida; impossível não haver uma grande mente no comando da operação. Mas em seguida volto à minha crença habitual de não acreditar, porque, mesmo que exista um plano feito por uma mente divina, ele terá que ser executado por mãos humanas. Esse é o perigo. Sempre foi.

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