Encruzilhada

Questão de lado, os dois lados da questão

Vejo muita gente bem informada dizendo que não existe mais essa coisa de esquerda e direita. Que esse papo é furado, que o comunismo acabou, que sobrou apenas o capitalismo, que também nem é mais capitalismo porque não tem mais luta de classes. A mais-valia (que ia acabar, seu Edgar) já morreu. Agora só existe luta nas classes – das escolas públicas.

Infelizmente – ou felizmente – a velha dupla destra e sinistra, como se diz na Itália, está bem viva. É de direita o movimento neonazista. É de esquerda o movimento zapatista do México. É de direita o deputado Jair Bolsonaro. É de esquerda o senador Eduardo Suplicy. É de direita a revista Veja. É de esquerda o jornal “Caros Amigos”. Os exemplos da vitalidade dessa díade são inúmeros. Recentemente, um filósofo de jornal disse que os homens de esquerda pegam mais mulheres que os de direita. A lábia dos esquerdistas teria mais poder de fogo. Não sou filósofo, mas sempre soube que numa festinha Che Guevara seduz mais do que Milton Friedman. E não acho que pegar fêmeas seja um critério confiável para separar machos de esquerda e de direita. Aliás, acho que macho e fêmea não são mais critério para nada.

Mas qual é a diferença entre esquerda e direita? Para o italiano Norberto Bobbio, a distinção básica está na idéia de igualdade (esquerda) e desigualdade (direita). E o critério para distinguir os moderados dos extremistas, tanto na direita quanto na esquerda, é a postura diante da liberdade: os dois extremos são autoritários. Num livrinho publicado há 20 anos (“Direita e Esquerda”), Bobbio sobrevoa o arco-iris político-ideológico e vai mostrando o que vê:

na extrema esquerda, os igualitários-autoritários (regimes comunistas fechados);
no centro-esquerda, os igualitários-libertários (social-democracias, ou socialismo liberal-capitalista);
no centro-direita, os libertários-inigualitários, como os conservadores fiéis ao método democrático, que aceitam um igualitarismo mínimo: a igualdade perante a lei;
na extrema-direita, os antiliberais-antiigualitários, os sempre vivos fascismo e nazismo.

Gosto dessa escala por três motivos. Primeiro, para classificar e enquadrar os outros, um esporte viciante – que tento praticar com moderação. Segundo, para entender os movimentos, tendências e acontecimentos políticos. Terceiro, para observar como ao longo do tempo as pessoas, os partidos políticos e mesmo os países migram de um lado para outro, fustigados pelos ventos e marés incessantes da história.

Conheci gente que era de ultra-esquerda na juventude e continuou extremista na maturidade – mas na ponta direita do jogo. E tenho um amigo que no início me pareceu de extrema-direita, depois um conservador de centro-direita, e atualmente está na faixa centro-esquerda de minha régua. Sua aparência séria e formal, sua aversão a extremos, seu retraimento – ele nunca dá gargalhadas, e é incapaz de pisar descalço numa praia – encobrem um ser generoso, leal, bom copo e bom garfo, aberto à diversidade, amante da arte e obcecado pela ética, honestidade, justiça e responsabilidade social.

Sempre que tenho dúvidas sobre o prazo de validade das minhas crenças, ou de que lado ficar numa questão, lembro da diferença entre igualdade e desigualdade. Depois penso: gargalhar e andar descalço é muito importante, mas ter o espírito livre e o coração aberto é indispensável.

1 responder
  1. Vitor
    Vitor says:

    Não são os homens de esquerda que pegam mais mulheres que os de direita. São as mulheres de esquerda pegam mais homens do que as mulheres de direita. As mulheres de esquerda têm menos medo do mundo, são mais livres naquilo que é básico. O medo, mais presente nas pessoas direita, leva muito a sensação de nojo, medo de contaminação (mudar), higienização, que é empecilho para relacionamentos e contato com o diferente.

    Não são os homens, são as mulheres…

    Esquerda e direita devem coexistir. Um pouco de pudor é bom, um pouco de impudor também é bom. A coexistência equilibra a força. A natureza daqui e do Stars Wars evidencia isso.

    Responder

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