solidao2

Só, mas bem acompanhado

Quando solteiro, eu morava sozinho e achava que solidão era estar desacompanhado. Vivia numa época pré-internet e pré-celular, quase pré-histórica, onde as pessoas conversavam somente por telefone fixo.  Mas o meu passava os dias mudo. Não conhecia ninguém na cidade grande, minha família morava no interior e as ligações interurbanas custavam uma fortuna. Até que um dia, comprei um filtro Europa. Em pouco tempo minha solidão acabou: comecei a receber ligações de umas moças simpáticas, querendo fazer a manutenção do aparelho. No começo eu explicava que meu filtro era novo e ainda não precisava desses cuidados. Cheguei a ficar irritado, dizia que aquilo era um assédio, mas quando vi, estava gostando do papo cotidiano. Aguardava diariamente as ligações, ansioso e carente, feito aquela rosa solitária que o Pequeno Príncipe cativou. Ao toque do telefone meu coração disparava: a moça do filtro Europa! Ficava um tempão ouvindo-a, sempre amável, sempre preocupada com minha saúde, me alertando sobre o perigo das algas verdes, me explicando como eu poderia viver cem anos se fizesse a manutenção regular, que custava quase tanto o meu precioso filtro. Às vezes, só para alimentar a relação, eu concordava em agendar uma visita – sem compromisso – e ganhava outro par de horas jogando conversa fora e tomando café com o técnico.

Hoje tenho um filtro de barro, que me dá água fresca com sabor de natureza, e eu mesmo faço a manutenção. Hoje também sei que posso sentir solidão mesmo rodeado de pessoas, ou atendendo vinte telefonemas por dia. A sensação de isolamento aumenta ainda mais quando entro na internet.  Sinto-me um estranho nesses grupos de whatsapp que só tem comentários óbvios e piadas velhas que circulam há anos na rede. Raramente posto alguma coisa, o máximo que solto de vez em quando é um rsrs amarelo. Jamais cheguei a um kkkk.

Outro problema é a febre de comemorações, todo dia inventam uma data diferente pra celebrar. A última foi a dos avós. Tenho cabelos brancos, já sou tio-avô e nunca tinha ouvido falar desse dia. É o comércio em desespero, raspando o fundo do tacho. Duvido que os pobres velhinhos tenham conseguido subir as vendas, porque quando os netos tem idade e dinheiro, geralmente não tem mais avós.

E não é só o comércio que parece desesperado.  As pessoas também lutam para não ficar solitárias, num mundo onde se conversa cada vez menos e não há mais convívio social. Este é um comentário óbvio, eu sei. Mas necessário. Acho que na época em que matavam bichos e destruíam florestas à vontade, os humanos tinham mais amor pelos humanos. Agora todos se preocupam com os animais e as florestas, enquanto sonegam afetos e se lixam para outros humanos. Quer um exemplo banal? Dias antes dos avós, a internet celebrou mais uma novidade: o dia do amigo. Foi uma overdose de mensagens melosas, fotos, memes e vídeos entre os amigos virtuais. Mas na vida real, aquela onde não existem pokemons, nem copiar-colar, não vi um só amigo telefonar ou dar um abraço em outro amigo.

Por ter sido sempre um sofredor da solidão, eu ficava angustiado com essas coisas, com esse isolamento progressivo e sem saída fora das relações virtuais. Mas agora percebo que há uma outra saída. Em último caso, jogo fora o filtro de barro e compro outro filtro Europa. Continuarei só, mas pelo menos bem acompanhado.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *