Solidariedade Sarkozy

Solidariedades

O mundo tem andado cheio de solidariedade ultimamente. A demanda é tão grande que o povo não dá conta, às vezes corre para o lado da França e não escuta os gritos de socorro que surgem na África. Tem gente se solidarizando com aquilo que discorda – e que até ontem combatia à força de balas. Alguns produzem – e vendem – camisetas de apoio, solidarizam-se com tamanho estardalhaço e marketing, que aparecem mais do que os solidarizados. Outros, enfim, embarcam na solidariedade meio a contragosto, empurrados, cheios de ressalvas e senões.

Não sou contra grandes manifestações de solidariedade, ao contrário, acho-as necessárias, indispensáveis mesmo. Mas gosto das ajudas pequenas, anônimas, desinteressadas. Dessas que levam a gente pro céu, sem escalas. São gestos miúdos, rápidos, quase invisíveis. Tem que estar muito atento, ou dar sorte, pra perceber.

É o caso do Julião, o velho flanelinha da padaria perto de casa. Está sempre vestido com camisa branca, calça preta, tênis e óculos escuros. Usa uma gravata preta surrada, um quepe mais surrado ainda e berimbelas (aquelas divisas amarelo-negras nos ombros), igualzinho piloto de Boing. Chama todo mundo de doutor, manobra carro velho e BMW novinha, é um gentleman. Por causa desse jeito e da vestimenta, achava-o meio soberbo, querendo diferenciar-se. Até que um dia, num relance, flagreio-o em ação: saiu da padaria ligeiro, cruzou a calçada parecendo que ia atender algum doutor e, furtivamente, como se fosse droga, passou um pequeno embrulho a um mendigo na sarjeta. Dias depois, vi-o passar dois embrulhos a um jovem casal maltrapilho e de olhos esbugalhados. Uma noite, foram três pacotes enfiados na sacola imunda de uma velha. Antes de Julião chegar no pedaço, o gerente da padaria costumava expulsar os pedintes porque incomodavam a distinta freguesia. Agora eles ficam quietos esperando uma atenção do manobrista, e vão embora assim que os sorrateiros embrulhos com restos de lanches, salgadinhos ou comida, lhes chegam às mãos. Sem alarde, às vezes sem nem agradecer, porque Julião lhes vira as costas como se nada tivesse acontecido.

Outro caso interessante ocorreu também próximo à minha casa. Numa tarde de domingo abrasador, em pleno racionamento de água, vi um vigia da estação da SABESP entregar, por cima do muro, um galão de 3 litros a uma prostituta. Achei que a mulher fosse beber, mas ela puxou rapidamente o vestido pelos ombros e, completamente nua, sob o sol inclemente, banhou-se à francesa no meio da calçada. Despejou o último litro na cabeça e soltou um ahhhh de puro prazer. Aparentemente limpa e visivelmente refrescada, vestiu novamente a roupa, devolveu o galão vazio ao vigia – um tiozinho magro, velho, num uniforme encardido – e partiu em busca de novos clientes, reclamando do calor, do governo, da seca e da falta d’água insuportáveis.

Não sei o que Julião ganha com seus gestos, nem como convenceu o dono da padaria que seria melhor dar aos pedintes o que pediam, em vez de combatê-los. Também não sei se o vigia da estação de águas é parente ou amigo da encalorada prostituta. Mas sei que eles não são indiferentes. Sei que conseguiram subir um degrau na miséria da vida, mas não esqueceram os que ficaram no degrau inferior. Sei que usam seus pequeninos cargos e poderes para ajudar, e não para pisotear, quem está abaixo deles. Sem fazer barulho, e sem esperar nada em troca.

3 respostas
  1. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    Cesar, parabéns pela crônica.
    Na grandeza de sermos humanos o que vale mesmo são outras matemáticas:
    dividir, compartilhar bens e afetos.
    Obrigada por apresentar o solidário Julião!
    Um abraço
    Gloria

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