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Nada mais que palavras

Outro dia estava à toa na vida e como o meu amor não me chamou, resolvi matar o tempo na internet buscando as palavras mais faladas na globosfera. Veja você, numa frase simples como essa aí detrás, coloquei as três principais palavras do mundo: tempo (11 bilhões de resultados no google), vida (6 bilhões) e amor (5 bilhões). Não entendi bem por que tempo vale mais do que vida e amor, mas arrisco um palpite: porque é escasso e ainda não se pode comprá-lo. Não temos tempo para nada e desejamos mais tempo para tudo, mais tempo para dormir, mais tempo pra consertar estragos, mais tempo para pagar a dívida, mais tempo para achar a resposta. Mas desconfio que o motivo verdadeiro é que tempo é dinheiro, e money também está entre as palavras mais importantes do planeta, com 2,7 bilhões de resultados.

Somados, tempo e dinheiro batem 14 bilhões de menções, muito à frente de vida e amor, a alegre dupla do segundo lugar, com 11 bilhões. O terceiro posto é da dobradinha família & amigos, com 8 bilhões de citações. Gozado isso, porque – ao contrário da época de Don Vito Corleone – hoje em dia ninguém perde tempo com amigos; e a família, embora sempre digamos automaticamente que vai-bem-obrigado, muitas vezes vai de bem mal a muito pior.

Um quinteto bem posicionado é saúde, esporte, coração, comida e sexo (14 bilhões de resultados), o que confirma nossa ânsia de viver mais, mesmo que para nada. De forma surpreendente, logo abaixo, quase empatado, vem outro quinteto, formado por arte, música, livros e cultura, com 13 bilhões de menções. Eu tinha certeza que o mundo cuidava muito mais do corpo que da alma, mas a coisa parece estar bem equilibrada, como os antigos gregos achavam que tinha de ser.

Apesar desses sinais positivos, o consumismo ainda fala alto (carro e compra são citadas 6 bilhões de vezes), e a violência não dá sinais de diminuir, apesar dos esforços dos exércitos do bem. Fala-se muito mais em guerra e sangue (3 bilhões) do que em paz e esperança (2,4 bilhões).

Antes de sair da rede e voltar ao mundo supostamente real, aproveitei para bisbilhotar algumas curiosidades. Como andaria, por exemplo, a peleja entre Deus e o Diabo na terra virtual? O Velho Barbudo está ganhando de lavada: seu santo nome é mencionado em vão 1,5 bilhão de vezes, contra pífias 200 milhões do Tinhoso. Fiquei surpreso com isso. Pela quantidade de ódio e preconceito que jorra da internet, imaginava que o Chifrudo estivesse um pouco mais prestigiado.

Por fim, descobri duas outras coisas interessantes. A primeira é que Lennon estava errado, os Beatles não são mais famosos do que Cristo. Há 700 milhões de resultados para o cabeludo da Galileia, contra 100 milhões para os cabeludos de Liverpool. E a segunda – sinto dizer, irmãos e irmãs – Maradona é quase duas vezes mais falado que Pelé (31 x 16 milhões).

Saí da globosfera e fiquei matutando. Para a rede, todas essas palavras são apenas dígitos. Tento agrupá-las, encontrar nelas algum significado, mas no futuro, quando a internet criar e raciocinar, isso será feito por bites e bytes. Lembrei de Rubem Braga, que dizia estar farto de ganhar a vida “nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…”. O velho Braga já sabia que palavras são objetos. Apenas bites & bytes. Eu é que ainda alimento a ilusão de achar que são palavras, que tem alguma serventia para nos salvar de nós mesmos, mesmo sabendo, no fundo, que Hamlet estava certíssimo, que na verdade o que gira a roda da vida não são as palavras. É o silêncio.

Explosões

Estou achando este começo de século bem chinfrim, comparado ao anterior. Os primeiros anos do século 20 foram enlouquecedores, um terremoto cósmico que chacoalhou a ciência, a arte, a política, a sociedade, a tecnologia, as crenças e as descrenças.

O surgimento de novas invenções só se compara à explosão de vida no Cambriano – quando, aparentemente do nada, brotou uma multidão de novas formas de vida que povoam o planeta até hoje, apesar dos humanos. Em pouco mais de trinta anos, nasceram e cresceram o cinema, o rádio, o automóvel, o avião, a lâmpada, o telefone, a TV. Trocamos o velho Deus construtor pela brilhante idéia do Big Bang, deixamos de usar as coxas e passamos a fazer as coisas na esteira de produção. Descobrimos que estamos navegando sobre o planeta aboletados em placas tectônicas, e que tudo na vida é relativo – inclusive o tempo e o espaço.

As artes refletiam esse turbilhão de descobertas, esse novo jeito de olhar as coisas, de sentir o mundo, um mundo errático, dissonante, esquisito, onírico, disforme, híbrido, sem paz, com a vida e a morte eternamente em luta. Música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, tudo explodiu. A loucura deixou de ser anormal. O amor deixou de ser puro, e o sexo, impuro. Deixamos de acreditar que Édipo e Electra eram meras ficções da dramaturgia grega, e começamos a ver nossos pais e mães com olhos mais realistas. E concupiscentes.

Países entraram em convulsão, fustigados por revoluções sociais e políticas. Burgueses e trabalhadores assumiram seu papel de novos donos do mundo, e o planeta começou a dividir-se em capitalista e comunista. No começo do século 20, sociedades igualitárias não eram um sonho, mas transformações reais que envolveram bilhões de pessoas.

Até meados do século, esses movimentos se ramificaram, deram novos frutos e depois se acalmaram. Na música, por exemplo, brotaram o jazz, o swing, o rock, a bossa-nova. A ciência descobriu a expansão cósmica, os buracos negros e a matéria escura que preenche o universo. O 14-Bis se transformou na Apollo 11, o átomo pariu um cogumelo atômico, o transistor do rádio virou o chip do tablet. E… parou por aí. O novo começou a ficar velho. Aquilo que não estagnou, ou ruiu ou degenerou. Depois de viajar à Lua, recuamos para umas voltinhas aqui na Terra mesmo. Os países comunistas viraram ditaduras; o estado do bem estar social capitalista, uma crueldade insustentável. O rock e a bossa-nova, nem convém falar.

Neste século 21 parece que as explosões terminaram. Até agora, o único estrondo deveras estarrecedor aconteceu em 11 de setembro de 2001. Prometia um início vibrante, alguns trocadilhistas diriam bombástico, mas do ponto de vista explosivo nada mais aconteceu. Minha tendência pessimista é achar que não vai acontecer mais nada no mundo, que até o Fantástico vai acabar, que a história está morta, como disse um historiador.

Mas depois, penso nos embates entre ocidente e oriente, lembro das jornadas de junho, vejo a ousadia dos movimentos sociais, olho para jovens secundaristas segurando o primeiro megafone, agitando a primeira bandeira, beijando com a língua rebelde a primeira companheira – e percebo que as cargas explosivas estão todas aí. Esperam apenas o momento, a centelha oportuna para serem detonadas.

Algumas coisas

DSC00381No Interior, percebo coisas que não percebo na cidade grande. A moda, por exemplo. Não sabia que oncinha é o hit do momento, até uma jovem felina passar ao meu lado. Achei normal aquela pelagem naquele corpo deslizante, mas logo vi uma idosa bem velhinha, também oncificada. Coincidência, pensei. Que nada. Bastou afinar o olho para ver que eu estava numa verdadeira selva. Calças, bolsas, camisetas, óculos, tudo felinizado. Donas-de-casa gatas, periguetes, titias, gatas magras, gordas, gatas negras, brancas, amarelas. Até lençóis e toalhas assumem as cores da pintada. Finalmente, após anos de emancipação, as mulheres põem as garras prá fora e mostram o que sempre foram: predadoras. Nos anos 80, eram de oncinha somente calcinhas profissionais, ou de uso na alcova em ocasiões festivas. Naquela época, uma só mulher-onça (Juma, da novela Pantanal) enfeitiçava sozinha o Brasil inteiro. Hoje, qualquer onça pode virar mulher e desfilar insinuante pelas veredas das nossas fantasias. Os homens somos o que sempre fomos: presas fáceis. Porém felizes.

Outra coisa que não se percebe mais na cidade grande, mas ainda é visível em cidades menores: a vida rural. Numa curva de esquina, surge um caubói. Uma mulher vem ao portão com dinheiro amassado, e compra queijo fresco saído de um fusca poeirento. Cavalos pastam em gramas baldias. Sente-se cheiro de fumo de corda aqui e acolá. Bichos rurais se urbanizaram. Nos fins de tarde, o tradicional balé aéreo dos pardais e andorinhas foi reforçado por papagaios e mesmo juritis – a mais arisca das aves brasileiras. Em cidades grandes também se encontra animais silvestres. Porém, no caso das megalópoles, a bicharada foi engolida pela urbanização, e perdeu o rumo do mato. A cidade foi em direção aos bichos. No Interior, a cana-de-açúcar e as pastagens forçaram aves rurais a procurar novas fontes de comida e pouso. Os bichos foram em direção à cidade. Talvez por isso carreguem certo ar tristonho e assustadiço, como mendigos ou pedintes famintos. Um ar de não sou daqui. Um ar retirante.

E existem coisas que eram raras em cidades menores, há 30 anos. Por exemplo, uma aula para cidadãos comuns – sobre arte pré-histórica. O professor mostra o poder das imagens sobre os homens, desde as cavernas até o Santo Antonio na bolsa da solteirona. O mesmo impulso, a mesma expressão em vários lugares e épocas. A ponte entre o material e o espiritual. A busca da beleza, sempre, mesmo nas coisas utilitárias. O professor gesticula, une o erudito ao popular, magnetiza a platéia. Cita filósofos, e termina com a leitura de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa: a busca de outra forma de ser e estar no mundo, de sentir e de expressar, do novo, do inexplicável, do mistério. Ver sentido onde outros só vêem loucura. A arte, enfim. Saí da aula lembrando antigas escolhas, e pensei: entre o Interior e a Capital, existe uma terceira opção. O que me falta é coragem de embarcar, como faltou ao narrador do conto.