Posts

O beijo de Lamourette

Ontem adormeci na poltrona, assistindo ao noticiário político, e comecei a sonhar com sessões de tribunais, quedas de ministros, ordens de prisão, delatores, traições e tumultos. Quando vi, estava numa rua estranha, no meio de uma passeata estranha. Todos vestiam roupas esquisitas e berravam palavras de ordem em francês. Percebi que estava em 1792, no meio do Terror da Revolução Francesa.

A turba que me arrastava estava enfurecida pelo alto preço do pão e boatos sobre uma conspiração para matar os pobres de fome. De repente, a multidão pegou um alto político, linchou-o, degolou-o e desfilou com sua cabeça sobre uma lança, a boca cheia de dólares falsos como sinal de cumplicidade na conspiração. Em seguida, um outro grupo de amotinados capturou uma mulher de olhos esbugalhados, que era esposa do infeliz político, e fizeram-na marchar pelas ruas com a cabeça do marido na frente do seu rosto, cantando “beija, beija”. Depois eles mataram e degolaram também a mulher, arrancaram seu coração e atiraram-no para os lados do prédio da prefeitura. A seguir retomaram o desfile com as cabeças do casal espetadas em lanças. Ela com os olhos mais esbugalhados do que nunca, e a boca também cheia de dólares falsos.

Consegui escapar por uma ruela escura, e no instante seguinte, me vi na Câmara Federal, em Brasília. O plenário estava dividido em duas alas, esquerda e direita, como na Assembléia Nacional da Revolução Francesa. Vestidos à moda do século XVIII, os deputados se engalfinhavam, quase chegando aos tapas. No momento mais aceso do debate, surge um deputado de província chamado Adrien Lamourette. Ele tem uma solução a propor: o amor. Amor fraterno. O amor pode curar tudo, pode superar qualquer divisão, diz Lamourette aos membros da Assembléia, acrescentando que todos os seus problemas derivavam de uma única fonte: o facciosismo. Eles precisavam de mais fraternidade. Ao ouvirem isso, os deputados, que um minuto antes estavam se agarrando pelo pescoço, levantaram-se e começaram a se abraçar e beijar como se suas diferenças políticas pudessem ser varridas numa onda de amor fraterno. Empolgados e lançando vivas às suas famílias, todos juram fraternidade e chegam a convidar o rei-presidente, que repete o juramento. O plenário vai à loucura. A Revolução está salva! Vive la nation!

Acordei com o coração aos pulos, minha mulher me chacoalhando, querendo saber que negócio de beijo era aquele. Expliquei-lhe que caí no sono e misturei o noticiário da TV com cenas da Revolução Francesa, que li num antigo livrinho de história. Ainda bem que não somos franceses, disse ela – se fôssemos, ia faltar guilhotina para dar conta de todos os picaretas deste país.

Minha mulher, como sempre, estava cheia de razão. Os franceses não brincam em serviço. Na época da Revolução, viraram o mundo do avesso. Além da violência das revoltas populares, eles mudaram os nomes dos meses, a medição do tempo e do espaço, a moda, as formas de tratamento, os nomes das ruas e das próprias pessoas. Queriam confiscar as terras da igreja, e eleger os padres. O Estado podia legislar sobre a igualdade, a liberdade e – por estranho que pareça – sobre a fraternidade.

No Brasil já começamos a mudar alguns nomes de avenidas, mas ainda falta muita coisa. Falta abolir o tratamento de “doutor”, por exemplo. Revoltas nas ruas também já temos, mas são muito comportadas, parecem mais um passeio de domingo. Precisamos de mais força, mais vigor. Não digo linchamentos e uma degolazinha ou outra. Apenas mais energia, impor um pouco de respeito, talvez usando bumbos para marcar o passo e os corações, como se faz em alguns países. Quem sabe, depois disso, poderemos chegar, um dia, ao beijo de Lamourette.

O grande risco

Embora seja uma informação de absoluto desinteresse público, devo dizer que tive umas férias excelentes. Fazia décadas que não visitava o Nordeste. Fiquei surpreso com a pujança de Pernambuco e ressabiado com o desenvolvimento do turismo, que não extinguiu hábitos tradicionais, como a pesca de arrastão em jangadas, mas bloqueou o livre acesso às melhores praias, agora ocupadas por pousadas e restaurantes. Para chegar à água salgada, é preciso cruzar guaritas com seguranças e pagar taxas de estacionamento mais salgadas ainda. Se você está pensando em visitar aquela região, apresse-se. Locais lindos e desimpedidos, como a pequena praia de Antunes, ou a simpática Japaratinga – uma vila de pescadores em Alagoas -, em breve também serão ocupados.

As jangadas e os arrastões trazem antigas lembranças visuais e musicais. Trazem também pouquíssimos e minúsculos peixes em suas redes, mostrando que a crise atingiu o fundo do mar. Hoje em dia, bichos grandes como ciobas, espadas e cavalas, só na ponta do arpão. Mas em pequenos restaurantes a lagosta ainda é farta e barata, cerca de R$ 70 uma generosa porção para três pessoas. Todos os preços são negociáveis: um passeio de R$ 80 sai por R$ 50, uma diária de hotel encolhe 30% num piscar de olhos, e se a sua gula não atrapalhar a negociação, um saquinho de cocada com abacaxi pode despencar até 40%.

O nordestino continua falante, criativo, alegre, hospitaleiro. Quase despreocupado, eu diria, como um peixinho colorido nadando entre corais, ou um moleque brincando na água cristalina e morna, ou uma estrela cintilando na noite sobre o mar. É verdade que as capitais ficaram tão violentas quanto suas irmãs do Sul. Muitas casas e lojas tem grades nas portas e janelas, um pivete arrancou a correntinha de ouro da minha mulher, e vi duas brigas de rua em menos de dez dias. Mas a agressividade ainda não desumanizou as relações, nem destruiu o espírito de solidariedade. Um ciclista caído ao chão, mesmo sendo pobre e bêbado, não deixa de ser socorrido pelos passantes.

Juro que minha intenção, hoje, era falar apenas das férias; mas gozado, percebo agora que essas coisas do Nordeste retratam o momento atual do Brasil. Sim, porque continuamos sendo uma gente alegre e quase despreocupada, porém marchamos firme para a violência entre dois lados radicalizados. Existem aqueles que não estão em nenhum dos lados – talvez a posição mais difícil nesta hora. São os que conseguem enxergar a complexidade da situação, porém ninguém os escuta, e sofrem pressões imensas para aderirem a um lado ou outro. Também há os que são favoráveis a ambos os lados, como o vendedor de amendoim que numa manifestação veste a camisa da CBF, e na outra, uma camiseta vermelha. E tem os que sempre foram deixados de lado, os miseráveis que nenhum programa social conseguiu resgatar, como a menina das balas no semáforo da esquina.

Por falar em balas, logo, logo teremos o confronto físico entre os dois lados, possivelmente com alguma morte, o que incendiará ainda mais os ânimos. Escrevo na quarta-feira, talvez no domingo isso já tenha ocorrido. Só espero que, como no Nordeste, o aumento da violência não desumanize as relações. Espero que o retrocesso democrático – o grande risco que corremos nisso tudo – não se instaure de vez. Espero que essas esperanças não sejam apenas ingenuidade ou algum resquício cristão de minha parte. Por falar em cristão, e antes que me esqueça: feliz páscoa pra todos os lados.

Copa além da imaginação

Nunca imaginei que a Copa seria como está sendo. Não me refiro apenas ao futebol, mas às coisas que giram em torno de um Mundial, e que só percebemos quando acontecem dentro da nossa casa.

Confesso que no começo estava um pouco apreensivo, porque embora lindos e alegres e morando num paraíso natural, somos um país pobre. Temos sérios furos no sofá e vistosos rasgos no tapete. Também temos violência, filha direta da pobreza. A campanha negativista da mídia – ideológica, eleitoreira e fake – nunca me preocupou. Mas uma pergunta não me saía da cabeça: como reagiria o Brasil profundo e faminto de tudo, diante das legiões de turistas ingênuos, ricos e apetitosos?

Ora, o Brasil reagiu muito bem. O clima é de festa, confraternização, hospitalidade. Apenas uma ou outra indelicadeza, como xingar a presidenta e vaiar o hino nacional dos outros, mas no geral nada grave, capaz de manchar o evento ou a nossa reputação.

A quantidade de estrangeiros é tão grande que parece ser o Brasil que viaja e não quem recebe os viajantes. Em São Paulo, o Ibirapuera está com cara de Hyde Park. A Vila Madalena virou o Quartier Latin. Nas demais cidades-sede, acontece o mesmo. Todo mundo tirando selfies e casquinhas com os gringos, grupos de turistas marchando atrás de bandeirinhas-guias numa enorme excursão multinacional. O turismo já tinha chegado à classe C; com a Copa, atingiu também as classes D e E. Até que enfim, o país inteiro saiu de férias, foi passear pelo mundo, assistir ao vivo um Mundial de futebol. Inimaginável.

Duas coisas me encheram de orgulho. Uma, já esperada: nossa imensa hospitalidade e cordialidade, que causam espanto a estrangeiros pouco habituados a gentilezas extremas. Para alguns povos, indicar o caminho para um estrangeiro é um sacrifício. Levar o turista até o destino, impensável. Pois os brasileiros estão fazendo isso, e muito mais. Os brasileiros estão dando uma aula de honestidade e de eficiência ao mundo em geral, e à FIFA em particular. Carteiras e objetos perdidos são prontamente devolvidos a seus donos. Há muito mais golpistas estrangeiros do que nacionais. A maior falha de segurança até agora – a invasão do Maracanã pelos chilenos – foi culpa da FIFA.

E a pitanga do bolo: nossa polícia, que desbaratou e prendeu a máfia de ingressos que agia há anos dentro da própria FIFA, liderada pela família do poderoso chefão mister Blatter. A quadrilha atuou nas últimas quatro Copas, na Itália, nos EUA, na França, na Alemanha – debaixo dos narizes dos Carabinieri, do FBI, da Interpol e da Bundespolizei. Sempre invejei essas corporações, e hoje não invejo mais, graças aos nossos meganhas. Inimaginável.

Só uma coisa ainda me causa inveja: a Costa Rica, pelo seu desenvolvimento social, pela erradicação do analfabetismo, pela extinção do exército. Os costariquenhos nos ensinaram que no jogo coletivo a psicologia é boa, mas a sociologia é indispensável. Agora, a Colômbia fazer o que fez nesta Copa? Inimaginável.

UMA CARROÇA CHAMADA BRASIL – foto: SelvaSP

Em 1992, última vez em que vi jovens nas ruas, não saí de casa. Não tinha votado em Collor (o queridinho da mídia) e não me sentia responsável pela bandalheira do seu governo. Quem pariu Mateus que o embale, pensava e ainda penso eu. Hoje acho que Collor trouxe grandes avanços para o País, como o cheque nominal e o próprio impeachment – que igualou nossa nascente democracia à dos EUA.

Mas a grande revolução industrial foi quando ele chamou nossos carros de carroças. Aí fedeu bonito. De repente, descobrimos que pagávamos caro para ter veículos superados, modelos refugados, de má qualidade. A indústria e a imprensa automobilística nos vendiam um mundo de ilusão. Era chiquérrimo ir ao Salão do Automóvel e babar em cima daquelas latas velhas que reluziam como Ferraris e custavam como Ferraris.

A insatisfação de Collor foi vaga e difusa. Ele não falou do monza do executivo nem do fusca do proletário. Não falou em potência, segurança, conforto ou beleza. Nem em automóveis, utilitários, ônibus ou caminhões. Também não propôs soluções, como quebrar o oligopólio e abrir o mercado. Resumiu tudo num só conceito: carroça. Mas todo mundo entendeu. E tudo mudou. Hoje temos uma frota diversificada, que atende a classe A e a classe D. Ainda está cara, mas pelo menos não é carroça.

Se você acha que as atuais manifestações de rua tem uma pauta difusa, pense numa única palavra: carroça. Agora, olhe para o Brasil: educação, saúde e transporte público? Carroças. A política e os políticos? Carroças. A justiça, a polícia, a igualdade social, os direitos humanos e das minorias? Carroças. Nossa imprensa? Carroça. Nossa elite dominante? Carroção de boi. Infraestrutura, telecomunicações, etc.? Tudo carroça.

Quando vejo a Espanha jogar, sinto que até nosso futebol virou carroça. Talvez por isso ninguém comemorou em SP os gols do Brasil contra o México. Novamente, cartolas e mídia fingem que está tudo bem, que somos os melhores, blá, blá, blá. Para mim, os protestos gritam uma única insatisfação: não somos trouxas, não queremos viver num pais-carroça. Não queremos mais ser representados e conduzidas por políticos-carroça, elites-carroça, instituições-carroça, mídia-carroça e seus portavozes-carroça, autoritários e disfarçados de boa-gente. Chega de mentira, hipocrisia, cinismo. Chega de truculência, intolerância, preconceito. Chega de corrupção, privilégios, injustiças, impunidades. Chega de continuarem nos iludindo, enquanto roubam nossas vidas, nossa dignidade, nossos sonhos. Chega de nem ser, nem ter sido, nem poder ser – como dizia um escritor irlandês.

Tudo começou como resposta ao descaso, deboche e violência com que foram tratados nossos jovens e a tarifa zero. Essa batalha inicial está ganha, e o movimento cresce a cada dia, já inserido na história. Ninguém consegue prever seu desfecho. Todas as lideranças e autoridades estão catatônicas. Entretanto, não sejamos ingênuos: passado o estupor inicial, os carroceiros saberão reagir e reconduzir a carroça – mesmo chacoalhada – aos seus velhos trilhos. Mas estão assustados. Agora eles sabem que nós sabemos que o Brasil é uma carroça. Uma carroça que está nua. E que aprendemos a chacoalhar.