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Aprendendo a jogar

Volto ao tema Copa para comentar uma falha (minha, não da CBF ou da Seleção, porque estas são infalíveis, como sabemos todos). Na última crônica, o país que eu dizia invejar pelo desenvolvimento social e cultural – além do bom futebol – era a Costa Rica, e não a Colômbia, como notou o padre Orivaldo, ilustre leitor e colega cronista de Maringá.

A Colômbia também me causa inveja em vários itens. Eu daria três Claudias Leittes em troca de uma Shakira. Venderia toda a obra de Paulo Coelho por 10 linhas de Garcia Marquez. Sem falar do panteão futebolístico, onde brilharam Valderrama com sua cabeleira kilométrica e passes milimétricos, o octopus Asprilla, o bruxo Higuita com seu chute escorpião – tão letal e artístico quanto uma bicicleta ou uma folha seca – e onde brilha agora o menino encantado James Rodriguez.

Entretanto, apesar de invejáveis, esses gênios individuais são frutos do acaso. Garcia Marquez poderia ter sido parido no Morro do Livramento, assim como Machado de Assis nascido em Aracataca. Cristiano Ronaldo e James Rodriguez parecem ter sido trocados na maternidade.

O caso da Costa Rica é diferente. A admiração que ela me causa não vem de talentos individuais, embora eles existam, mas do seu processo coletivo social, político, cultural e agora também esportivo (só não estão entre os quatro melhores do mundo porque a Holanda levou a melhor nos pênaltis).

Milton Nascimento e Fernando Brant foram os primeiros a alardear por aqui o vanguardismo costarriquenho, na bela canção “Coração Civil”, um dos hinos da nossa redemocratização. Gisele Bundchen tem uma mansão no balneário, onde descansa e curte a família em sossego e sem alarde. A Costa Rica aboliu o exército desde 1948, e põe na educação e saúde o dinheiro que seria consumido pela máquina militar. Ela é a única nação latino-americana entre as 22 democracias mais antigas do mundo. Ocupa o quinto lugar mundial no Indice de Desempenho Ambiental, e é a sede da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O lema nacional é “vivam sempre o trabalho e a paz”.

Durante a Copa, chamou-me a atenção a simpatia, a competência e a fome de aprender da nutricionista costarriquenha. Também achei brilhante o fato de terem um sociólogo – e não um psicólogo – para tratar dos assuntos emocionais e motivacionais. A lógica para isso é inquestionável: futebol é uma coisa coletiva, não individual. Tive a impressão que todos ali sabiam o que estavam fazendo, e o faziam da melhor maneira possível, sem mostrar que estavam fazendo.

O Brasil sempre foi rico em talentos individuais, desde o Barão de Mauá até Ayrton Senna, passando por todos os gênios tortos e criativos que encheram – e continuarão a encher – nossa alma de orgulho e alegria. Talvez pela abundância de valores individuais, acreditamos que não importa o tamanho do abacaxi – na hora agá ele será descascado pela espada de algum anjo salvador. Porém, os sete abacaxis que a Alemanha nos enfiou goela abaixo mostram que precisamos rever urgentemente esses conceitos. Talvez seja hora de levarmos o coletivo a sério, nas ruas, nas escolas, nas filas, nas empresas, no bairro, no cinema, no parque. Talvez seja hora de aprendermos a jogar coletivamente, no social, na política e no esporte. Talvez seja hora de trabalharmos como a Costa Rica: juntos. E em paz.

Copa além da imaginação

Nunca imaginei que a Copa seria como está sendo. Não me refiro apenas ao futebol, mas às coisas que giram em torno de um Mundial, e que só percebemos quando acontecem dentro da nossa casa.

Confesso que no começo estava um pouco apreensivo, porque embora lindos e alegres e morando num paraíso natural, somos um país pobre. Temos sérios furos no sofá e vistosos rasgos no tapete. Também temos violência, filha direta da pobreza. A campanha negativista da mídia – ideológica, eleitoreira e fake – nunca me preocupou. Mas uma pergunta não me saía da cabeça: como reagiria o Brasil profundo e faminto de tudo, diante das legiões de turistas ingênuos, ricos e apetitosos?

Ora, o Brasil reagiu muito bem. O clima é de festa, confraternização, hospitalidade. Apenas uma ou outra indelicadeza, como xingar a presidenta e vaiar o hino nacional dos outros, mas no geral nada grave, capaz de manchar o evento ou a nossa reputação.

A quantidade de estrangeiros é tão grande que parece ser o Brasil que viaja e não quem recebe os viajantes. Em São Paulo, o Ibirapuera está com cara de Hyde Park. A Vila Madalena virou o Quartier Latin. Nas demais cidades-sede, acontece o mesmo. Todo mundo tirando selfies e casquinhas com os gringos, grupos de turistas marchando atrás de bandeirinhas-guias numa enorme excursão multinacional. O turismo já tinha chegado à classe C; com a Copa, atingiu também as classes D e E. Até que enfim, o país inteiro saiu de férias, foi passear pelo mundo, assistir ao vivo um Mundial de futebol. Inimaginável.

Duas coisas me encheram de orgulho. Uma, já esperada: nossa imensa hospitalidade e cordialidade, que causam espanto a estrangeiros pouco habituados a gentilezas extremas. Para alguns povos, indicar o caminho para um estrangeiro é um sacrifício. Levar o turista até o destino, impensável. Pois os brasileiros estão fazendo isso, e muito mais. Os brasileiros estão dando uma aula de honestidade e de eficiência ao mundo em geral, e à FIFA em particular. Carteiras e objetos perdidos são prontamente devolvidos a seus donos. Há muito mais golpistas estrangeiros do que nacionais. A maior falha de segurança até agora – a invasão do Maracanã pelos chilenos – foi culpa da FIFA.

E a pitanga do bolo: nossa polícia, que desbaratou e prendeu a máfia de ingressos que agia há anos dentro da própria FIFA, liderada pela família do poderoso chefão mister Blatter. A quadrilha atuou nas últimas quatro Copas, na Itália, nos EUA, na França, na Alemanha – debaixo dos narizes dos Carabinieri, do FBI, da Interpol e da Bundespolizei. Sempre invejei essas corporações, e hoje não invejo mais, graças aos nossos meganhas. Inimaginável.

Só uma coisa ainda me causa inveja: a Costa Rica, pelo seu desenvolvimento social, pela erradicação do analfabetismo, pela extinção do exército. Os costariquenhos nos ensinaram que no jogo coletivo a psicologia é boa, mas a sociologia é indispensável. Agora, a Colômbia fazer o que fez nesta Copa? Inimaginável.

O não dito

Gostaria de poder dizer que o momento de um povo, de um país, determina seu desempenho no esporte. Exemplos não me faltam. A Espanha com sua crise econômica e social, com sua monarquia desmoronando sob uma avalanche de corrupção e imoralidades, seria a responsável pelo mais humilhante fracasso já imposto a uma seleção campeã do mundo. Os outrora titãs da Fúria cambaleiam pelos gramados sob uma saraivada de golpes, indefesos e grotescos como gladiadores cegos, trôpegos como sansões de cabelos cortados.

O Uruguai, ao contrário, orgulhoso de ter o melhor presidente do planeta, de ser o país mais avançado em políticas anti-drogas, de produzir o doce-de-leite mais saboroso do mundo, não se deixa abater por tropeções e avança heroicamente rumo ao tricampeonato. Se conseguir, a Celeste atingirá o céu e fará renascer das cinzas um dos maiores símbolos da identidade uruguaia: o futebol. Então, nada será capaz de abalar sua auto-estima. Nem mesmo o confisco – pelas autoridades sanitárias brasileiras – do carregamento de doces-de-leite que compunha a dieta de guerra dos jogadores. E que eles parecem ter substituído por alfajores. Com chá inglês.

Gostaria de poder dizer que Portugal se modernizou um pouco, mas não superou aquela melancolia histórica e sonhadora. Continua sebastianista, acreditando que um deus grego irá salvar a pátria. Mas o deus grego – como todo deus grego – é vaidoso e irritável. Olha mais pra sua imagem nos telões do que para a deusa da partida – a bola. À menor contrariedade, arranca a coroa da cabeça e a lança ao solo. Assim como D. Sebastião nunca apareceu para o jogo, nem deu satisfações à sua esperançosa torcida, o deus grego não descerá do Olimpo para jogar entre os mortais.

Gostaria de dizer tudo isso, se a atuação dos times dependesse de seus países. Se essa relação existisse de fato, eu poderia dizer que a falta de rumo, de ritmo e de entrosamento da seleção brasileira é reflexo da falta de rumo, de ritmo e de entrosamento que afeta nosso país. Acreditamos (ainda) que um craque salvador irá conduzir-nos à vitória. Ficamos imóveis em posições que julgamos avançadas, reclamando que a bola não chega aos nossos pés. Temos a força, a alegria e a ousadia dos jovens, mas não sabemos o que fazer com isso. Manifestamo-nos em campo como nos manifestamos nas ruas: criativos, vigorosos e ameaçadores, mas sem objetividade, sem sincronia, dependendo de improvisos e de arroubos individuais. Ficamos atordoados e confusos sempre que um obstáculo nos surge à frente. Nossos líderes e dirigentes não tem a menor idéia do que fazer. Estão velhos e enferrujados, presos a antigas fórmulas de sucesso, comprometidos com a continuidade e com medo da mudança.

Mas não posso dizer nada disso, pois como diria um jurista, não há nexo causal entre o sucesso de um time e o sucesso de um povo. Espanha e Portugal já caíram, com ou sem crise européia. O Uruguai poderá conquistar sua terceira estrela ou amargar mais uma volta prá casa – mesmo que essa casa seja uma das mais admiráveis do mundo. E o Brasil poderá chegar ao hexa, independentemente da falta de rumo e do festival de besteiras que assola o país. O que será maravilhoso, convenhamos. Portanto, fica o dito pelo não dito. E vamos nessa.

Imagina depois da Copa

Faltavam cinco horas para Brasil x Croácia quando comecei esta crônica, dizendo que estava dividido entre olhar o noticiário e escrever. Um noticiário manipulador, enervante, onde até a cornetinha de um viking virava gancho para ataques ao governo. Não era exagero. Tinha acabado de ler que Joaquim “O Supremo” Barbosa iria assistir o jogo inaugural ao lado de Dilma, mas isso não era uma notícia. Era um mero pretexto para me enfiar goela abaixo um quilo de matérias velhas sobre o mensalão e as performances teatrais do substituto de Demóstenes Torres no papel de paladino da moral e da justiça.

Concentrado no esporte, eu dizia que adoro o momento pré-jogo na Copa. O silêncio cortado por vuvuzelas solitárias. O silêncio maciço que precede as grandes batalhas, rasgado pelo guincho estridente de um falcão, um gavião-carijó, ou o relincho nervoso de um cavalo. Já passei por 14 Copas. O silêncio é a lembrança mais forte que tenho de todas elas.

Outra lembrança: a ansiedade pelo desfecho. Vitória ou derrota? (Empate conta como derrota). Vitória sofrida? Derrota heróica? Um a zero? Três a dois, de virada? Minha cabeça era um balcão de apostas. Então, o jogo começou.

Agora escrevo logo depois do apito final, e a euforia da vitória me faz lembrar de um curtametragem israelense (acho). Dois soldados encontram dois soldados inimigos numa fronteira demarcada por uma tela de arame. Os quatro interrompem a rivalidade para ouvir a narração de um jogo de futebol, que sai do radinho de pilha no bolso de um deles. Ronaldinho joga e está num dia inspirado. Seus lances empolgam o narrador, e fazem brotar discretos sorrisos nos soldados. De repente, gol. Na vibração, um deles dispara acidentalmente o fuzil e mata um inimigo do outro lado do arame. Os três restantes se olham, atônitos, e começam uma fuzilaria sem sobreviventes.

Antes do jogo, eu tinha certeza que o futebol iria suspender nossas hostilidades domésticas, assim como interrompeu a guerra entre aqueles quatro soldados. Iniciada a Copa, abaixaríamos nossos fuzis e levantaríamos nossas bandeirinhas. De fato, isso aconteceu. Mas bastou um gol de pênalti acidental para recomeçar o tiroteio contra a seleção, contra a Copa, contra o futebol.

Nas redes sociais, no noticiário eletrônico, denuncia-se o “roubo” contra os croatas, a corrupção da cartolagem, o conluio para evitar o “fiasco” do Brasil. Quanta baboseira. Não vi roubo algum. Vi um pênalti legítimo em Fred – impedido de chutar por uma agarradinha do zagueiro – convertido por Neymar. Mesmo sem esse gol, nossa vitória foi digna da abertura de um Mundial. Não só pelos dois gols geniais, à brasileira, saídos do improvável, mas pelo domínio da partida.

Tenho certeza que o futebol acabará impondo sua “pax ludopédia”. Não temos o maior time de todos os tempos, mas temos alguns craques experientes e vários moleques irreverentes e brilhantes, conduzidos por um técnico competente e paizão amoroso. Na estréia, mostraram ter brios, capacidade de superação e consciência do seu valor. Tudo indica que vão crescer nas disputas e chegar como homens ao final do torneio. Algo me diz que esse Mundial promete. Os corvos já começam a crocitar. Imagina depois da Copa.

Copa e cozinha

Enfim, a Copa vai começar. Seleções do mundo inteiro já desembarcam no país, hordas de torcedores invadem nossas fronteiras por terra, mar e ar – sem ligar a mínima para os custos do evento e a corrupção da cartolagem. A campanha negativista da grande mídia vai arrefecendo, e nas ruas as passeatas dividem espaço com pinturas no chão, bandeirinhas nos fios e bandeironas nas sacadas e janelas.

Engana-se quem pensa que o sinal verde para o Mundial será dado pelo comitê organizador ou pela Fifa. A maior evidência de que a Copa está entre nós vem de minha mulher, que finalmente abriu a tabela dos jogos que jazia há semanas na mesa da sala. Seu próximo passo será perguntar quem é o goleiro brasileiro (o fascínio pelos goleiros!), quem é o capitão, e o nome do técnico. Aí, e somente aí, estará tudo pronto para o pontapé inicial.

Essa Copa ficará na história, seja qual for o clima político, seja quem for o campeão. Só me preocupa o oba-oba. A certeza de que o Brasil será vitorioso é tão grande que podíamos pular etapas e disputar apenas o primeiro e o último jogos. Creio que somente em 1950 e em outras duas Copas nossa esperança foi tão forte.

Uma em 70, no México, quando a certeza do tri começou nas eliminatórias, com as “feras do Saldanha”, o genial e genioso jornalista. Foram 6 vitórias, 23 gols marcados e 2 sofridos. Média de 3,8 gols por partida. Mas Saldanha não resistiu à política da ditadura. Incomodados em ver um comunista com tanta visibilidade, os militares pediram sua cabeça. João Havelange atendeu-os e colocou Zagallo no comando. O rendimento caiu no torneio (6 vitórias, 19 gols pró e 7 contra, média de 3,1 gols), mas foi suficiente para marcar a seleção de 70 como um dos maiores times de todos os tempos.

A outra, em 82. Tínhamos o maior time de todos os tempos, e jogávamos o futebol mais bonito do planeta. A euforia atingia até a política. O clima era de eleicões diretas, anistia, festa cívica. O desempenho nas eliminatórias não foi arrasador, mas convenceu: 4 vitórias, 11 gols marcados, 2 sofridos, média de 2,7 gols. Vitória difícil na estréia, e depois só goleadas. Nas oitavas, despachamos prá casa a campeã Argentina e fomos em busca de um mero empate com a Itália, para chegar à semifinal. A Itália, nossa freguesa. A Itália, medíocre na fase inicial, com apenas 3 empates e 2 gols. A Itália, terra do amigo Pierpaolo, que preparou uma bacia de espaguete à carbonara para celebrarmos a vitória brasileira. A Itália, que nos meteu 3×2, enfiou nosso futebol-arte no saco, tornou intragável o carbonara de Pierpaolo, e sagrou-se a segunda tricampeã do Mundo.

Por essas e outras, fico com os dois pés atrás quando vejo esse clima de já-ganhou. Prefiro o espírito de luta canino, típico dos viralatas. Novamente, jogaremos de salto alto. Repete-se o trágico favoritismo de 50. Por precaução, quando minha mulher já souber o nome do técnico e autorizar o apito inicial, vou tirar a TV da copa e botar na cozinha. Torcerei com um olho no jogo e outro em Nick, meu velho, fiel e bravo viralata – minha alma gêmea . Com isso, a vitória estará garantida.

Calça furada

Divertem-me as reações de indignação quando algum estrangeiro fala mal do jeito brasileiro de ser. Às vezes nem é falar mal, mas apenas uma informação útil ao pobre turista que ousa nos visitar. Coisas como sermos um povo brincalhão, informal, que gosta de por a mão e beijar no rosto, que não respeita horários e usa muito a palavra amanhã. Por que nós podemos falar o que quisermos sobre nós mesmos, mas quando alguém de fora se atreve a dizer como nos vê, ficamos injuriados?

Para falar a verdade, acho até que nesta copa os estrangeiros estão pegando leve. Bem mais pesado pegou Ina von Binzer, uma alemãzinha de 22 anos, contratada em 1880 para educar crianças brasileiras bem nascidas. Em suas cartas – reunidas num saboroso livrinho chamado “Os meus romanos”, editado pela Paz e Terra, com prefácio de Paulo Duarte e apresentação de Antonio Callado – ela nota que “os brasileiros dão ótimos advogados.

Dão a vida por falar, mesmo quando é para não dizer nada. Com a eloquência que esbanjam num único discurso, poder-se-iam compor facilmente outros dez. Tudo é exterior, tudo gesticulação e meia cultura.

O fraseado pomposo, a eloquência enfática já são por si próprios falsos e teatrais; mas se você tirar a prova real, se indagar sobre qualquer assunto, não são capazes de fornecer a informação desejada”. Quando leio isso, lembro de Rolando Lero, figura brasileiríssima criada pelo genial Rogério Cardoso. E entendo porque tipos como Joaquim Barbosa e Arnaldo Jabor fazem sucesso entre nós.

Frequentadora dos salões das famílias abastadas, a professorinha espantava-se ao ver que “há pessoas na alta direção do Partido Republicano que não conhecem a história nem a constituição do país nem muito menos as das outras nações. Há outros, que se dizem partidários do sistema filosófico de Comte, mas não compreendem os seus mais elementares ensinamentos. Alguns dão opinião sobre línguas estrangeiras, mas não sabem explicar nenhuma regra da sua própria. Não se encontra profundidade em parte alguma.” Até hoje – excetuando talvez Lima Barreto – não vi ninguém desmascarar de forma tão simples e contundente a ignorância da nossa classe dominante, dos políticos e dos pseudo-intelectuais que infestam o cenário nacional. O lema “ordem e progresso” parece ter sido a única coisa que gravaram de Comte – e posteriormente desvirtuaram completamente seu sentido. Perderam o bonde da história, mas não perdem a pose e a empáfia. Ina von Binzer os chamava de “simplórios”.

Acho que devemos ser gratos à Fifa, à mídia internacional e outras entidades estrangeiras. Seus textos contém meras orientações turísticas. Tratam de algumas diferenças culturais e comportamentais entre nós e o mundo civilizado. Mencionam, claro, nossa realidade social violenta, mas não se aprofundam nas causas. Ainda bem. Deus, definitivamente, é brasileiro. Podemos continuar fingindo que somos bonzinhos, bonitinhos e perfeitos, neste vasto salão global. E acreditando (com nossa “ingenuidade quase comovente”, já dizia a alemãzinha Ina) que ninguém está vendo nossas calças furadas. E curtas.

Citizen Zé

Nasci e cresci nas quebradas. Não sou nada. Não sou contribuinte. Nem prezado ouvinte. Só sou eleitor. Cidadão, entendeu? Uma vez, uns estudantes disseram que eu era o citizenzé. Pedi que botassem no papel e vi que era Citizen Zé. Falaram que era por causa de um filme aí. Curto filme brasileiro e dublado, mas os caras disseram que esse um só tinha com legenda. Essa moçada, depois que acende uns beques, gosta de zoar.

Já fiz de tudo. De tudo, entendeu? Só não matei. Ainda. Tenho escola, quando era pivete fui urubu de lixão, catava revista e jornal só pra ler. Também achava muito livro. Como tem escritor zé! Achei um tal de Zé Lins, que era louco por sacanagem num engenho de cana. Depois catei um tal de Zé Mauro, que não sabia se comia as índias ou virava santo. Na dúvida, o cara enchia a cara, manguaçava o dia inteiro.

Depois virei boy de escritório. Aí fiz supletivo, ganhei uns trocos, cheguei no curso técnico. Não tenho carteira assinada. Hoje faço qualquer tipo de serviço. Qualquer tipo, sacou? Tenho celular e cartão de visita. Atendo madame chiliquenta, velha aposentada, coroa maluco. Cobro conforme a cara do freguês. Moro numa ocupação da hora. Antigamente era cortiço. Tem muita treta, muito beó, e muita festa. Sou chegado num som, curto uma de DJ. Quem manda na ocupa são os sem-teto. A sintonia geral é na reunião do conselho. Tudo na lei. Vacilou, dançou.

Conheço todo mundo na rua. Porteiro, guarda-noturno, puta, malabarista, traveco, catador, flanela, nóia. Os bacanas tem medo de gente da rua. Tem mais é que ter mesmo. Mas num devia. É tudo mano, gente boa. Só que ninguém olha, ninguém vê. Gente invisível. Gente sombra. Que nem gari. Que nem pixador. Um pixo que eu curto diz que em casa de moleque de rua, o último que dormir apaga a lua. Me amarro na lua.

Curto história de bandido, assaltante, traficante e político. Leio no jornal. Vejo na TV. Tô por dentro das paradas. E digo de boa: serviço sujo tem em todo lugar. Tem quem faz. Tem quem não faz. E tem gente que não sabe fazer. Eu sei, mas não faço. O problema são os detalhes. E as mulheres. Bandido bandidão tem sempre advogado chique e um mulherão do lado. E se não souber controlar, complica. Lembra aquela Mônica do Renan? Quase fudeu o cara. Eu sei o nome de todas elas. Duvida? Aí ó: a Suzana do PC, a Andressa do Cachoeira, a Danúbia do Nem, a Jaqueline do Gaguinho, a Silvânia do Elias Maluco, a Maria do Marcinho VP. Essas são fiéis. Tudo irmã. Sem vacilo. Tudo fazem e nada falam. Uma mulher dessas, meu irmão, não tem preço. Fico até pensando se, apesar da sujeira, não tá tudo limpo.

Mas tem jogada que eu não entendo. Tão falando que não vai ter copa. Acho uma puta sacanagem. A copa vai ser o maior boi, vai ter prá todo mundo, no Brasil inteirinho. Agora com tudo em cima, arena pronta, barraco enfeitado prá turista, malandro falando inglês, a bola não vai rolar? Tem bagulho grosso no meio disso. Sempre tem. Não perco um movimento de rua, mas tô fora desse. Já mandei renovar o cartão de visita, e tô pensando em botar um site na internet. Essa vai ser a copa dos moleques. Não tem prá ninguém. A sexta taça do Brasil, brother. A primeira do Neymar. E a última da Larissa Riquelme. Eu sei o nome de todas elas.