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Querido Papai Noel

Eu nunca escrevi uma carta pro senhor. Pra falar a verdade (a gente sempre tem que falar a verdade, né?) eu nunca escrevi uma carta. Mas hoje estou sem whatsapp e não tem outro jeito. Me desculpe então se esta não for uma carta bonita e certinha como aquelas que o senhor tá acostumado a receber.

Não vou mentir dizendo que este ano fui super bonzinho, obediente e não fiz nada nada nada de errado. Na escola eu fui bom aluno, só teve uma vez que colei na prova de matemática, peguei chocolate do Serginho e joguei o iphone novo da Bianca na privada, porque ela ficava exibindo ele e me deu muita raiva, porque o meu pai ainda não comprou um novo pra mim porque ele não tá podendo viajar.

O meu pai falou que essas coisas não tem importância e que o senhor não ia achar que eu sou ruim só por causa disso. Ele falou que todo mundo cola na prova, que o Serginho precisava mesmo comer menos chocolate e que o pai da Bianca podia comprar trocentos iphone pra ela. E se não comprasse, ele comprava.

Meu pai também falou que eu não fiz bulliyng quando ficava imitando guincho de baleia na cara do Julinho Baleia, nem quando ficava rindo e chamando o Denis de florzinha, nem quando desenhava a Sofia com cara de bruxa na lousa e na porta do banheiro. Ele falou que o Julinho era gordo mesmo e que se não gostasse de ser chamado de baleia ele devia emagrecer em vez de ficar comendo feito um porco. Meu pai também falou que era bom eu chamar o Denis de florzinha, que eu tava fazendo um bem pra ele, porque assim o Denis ficava mais esperto e tomava jeito de macho. E a Sofia ele disse que menina feia tem que aprender a se arrumar e se enfeitar se não quiser ser chamada de bruxa, porque nossa! ela parece mesmo uma bruxa, o senhor tem que ver.

Eu também chamei a Bia de gostosa um montão de vezes mas o meu pai falou que isso é normal nos homens, e que a Bia é que fica provocando a gente usando aquelas roupas curtinhas mostrando o fundilho. Até os meninos da outra série ficam olhando pras pernas dela e mandando beijinho pra ela.

Aqui em casa eu também faço tudo certinho, viu? Só não arrumo os brinquedos nem meu quarto porque tem a arrumadeira que arruma. Eu trato todo mundo bem, até a Joana cozinheira que é de cor eu nunca chamei ela de negra. As vezes eu chamo ela de macaca mas ela sabe que é de brincadeira e nunca reclamou. Meu pai também chama ela de macaca quando ela não está perto. Minha mãe fala que cozinheira boa tem que ser de cor e a Joana é a melhor de todas. Por isso que ela tá com a gente mas ela não dorme lá em casa como os outros.

O senhor deve estar morrendo de curioso prá saber que brinquedo eu vou pedir, né? Só que eu não vou pedir brinquedo não. Olha, não fica chateado. Eu tenho brinquedo muito melhor que esses que o senhor tem aí. O que eu quero é outro tipo de presente. Queria que o senhor trouxesse o meu pai prá passar o natal em casa com a gente. É uma injustiça o que estão fazendo com ele. O senhor sabe que ele só fez o que todo mundo faz se quiser ser rico aqui no Brasil. Minha mãe fala que só pobre não faz e por isso é pobre. Foram os inimigos dele que armaram essa pra ele. Se o senhor puder trazer ele eu juro que é só este ano, viu? Ele vai fazer delação prá botar os inimigos dele na cadeia e no natal que vem ele já tá em casa. E aí nós vamos prá Miami comprar tudo o que eu quiser.

E agora?

Às vezes, acontecimentos distantes no tempo e no espaço acabam por juntar seus significados num mesmo momento e lugar do futuro, produzindo outros acontecimentos, com outros significados, que por sua vez geram novas situações – e assim por diante. Pensei nisso quando vi os atentados na França.

Lembrei, por exemplo, das revoltas que agitaram Paris em 1968, dos jovens em barricadas atirando molotovs e gritando que “a violência e a revolução são os únicos atos puros”. Naquela época, na Inglaterra, Lindsay Anderson rodava “if”, o filme que venceria o Festival de Cannes do ano seguinte. O protagonista era o estreante Malcolm McDowell, que na cena final lidera um ataque a tiros e granadas contra professores, padres, militares e familiares numa escola pública inglesa. O filme era uma alegoria a favor da liberdade de costumes, do sexo livre, da bebida e do cabelo comprido, e fez enorme sucesso.  Tanto Anderson quanto McDowell não podiam prever que, numa noite de 2015, as ruas de Paris seriam atacadas por terroristas jihadistas, jovens também, combatendo a liberdade que “if” e os revoltosos de 68 ajudaram a conquistar, com a mesma crença de que a violência é um ato puro. Se pudessem prever essa barbárie, eles provavelmente teriam se perguntado: “e agora?”

Em 1897, o imigrante alemão Rudolf Diesel, nascido na França, inventou o motor que levou o mundo a um novo patamar de conforto, mobilidade e eficiência. Sem querer, Diesel inventou também a indústria do petróleo, que jorrava farto em terras americanas. Hoje os motores a diesel são encontrados nos mais longínquos lugares do planeta, onde também estão as maiores fontes de petróleo. Para beber desses poços, as potências ocidentais invadem e destroem países inteiros, aliam-se a governos sanguinários, e combatem grupos extremistas que ameaçam bloquear seu acesso ao precioso óleo. Diesel jamais imaginaria essa guerra pelo combustível de seu motor, muito menos, o horror que ela levaria às ruas de Paris numa agradável noite do ano 2015. Se imaginasse, certamente teria pensado com seus botões: “e agora?”

Atualmente, nos revoltamos contra aqueles que matam gente próxima de nós – como as vítimas do 11 de Setembro e do 13 de Novembro. É compreensível, temos uma identificação com esses mortos, geralmente conhecemos alguém que conhecia alguém que estava lá ou morreu num desses atentados. Mas a maioria de nós – governos e mídia incluídos – pouco ou nada faz quando assassinos – religiosos ou não, organizados ou não – atacam moradores de favelas, menores de rua, mulheres na Nigéria, estudantes no Quênia. Hoje essas violências acontecem longe dos nossos corações e mentes, mas se nada fizermos para combatê-las, o futuro é fácil de imaginar. Basta nos perguntarmos “e agora?”. Agora.

 

PS:  Sempre acreditei que as riquezas naturais do Brasil eram imensas e inesgotáveis, e que, de uma forma ou de outra, estariam protegidas de ameaças. Também acreditei no discurso das empresas pelo respeito à vida, à sociedade ao planeta. De repente, descobri que um dos nossos maiores rios pode morrer em questão de dias, que estamos rodeados de lama tóxica em barragens mal construídas, que nossas grandes empresas são irresponsáveis, mesquinhas, incompetentes e estão se lixando pra tal de responsabilidade social e ambiental. Por fim, descobri estarrecido que sou impotente para mudar essa situação, e que a tarefa de criar leis e controles está nas mãos de políticos comprados pelas próprias empresas que deveriam fiscalizar. A pergunta me surgiu naturalmente: e agora?

A comédia do inferno

No meio do caminho desta vida – talvez por ler muito jornal, navegar pela internet e ouvir conversas no cabeleireiro – achei-me a errar pela selva escura da dúvida e da confusão. Meu discernimento sumiu por completo. Já não distinguia o certo do errado, uma descortesia de uma ofensa, um deslizezinho de um pecado mortal capaz de levar-me ao inferno.

Dei buscas no Google, tentando achar algo para iluminar minha mente, mas só consegui ficar mais perdido. Resolvi, então, consultar um livro que é best seller há 700 anos, mas que eu nunca tinha lido: “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Deve ter algo que preste, disse comigo. E de fato tinha, angélico leitor. Não sei se você vai curtir, mas é meu dever compartilhar o que encontrei, para preveni-lo do risco de ir parar nas garras de Lúcifer.

Dante mostra que o inferno é uma espiral de 9 Círculos, com vários tipos de martírios, conforme os pecados de cada um. Os círculos vão se afunilando nas profundezas, em direção ao centro do inferno. Até o Círculo 6 as broncas são leves: luxúria e adultério, gula, avareza, ira e heresia. A partir do Círculo 7, a coisa começa a esquentar com os suplícios de quem cometeu violências. Primeiro, contra outrem, ou seja, os assassinos, os tiranos, os assaltantes. Depois, contra si mesmos, os suicidas. Por fim, os que praticaram violências contra a natureza (homossexuais, ou sodomitas). Dante é simpático com os sodomitas, entre os quais inclui altas figuras da cultura, como Bruneto Latino, seu querido mestre. Se ele vivesse hoje, creio que seria um defensor da causa gay.

O Círculo 8, o penúltimo, ocupa-se da fraude e da corrupção – mais graves do que assassinatos e consideradas, naquela época, as peçonhas mais venenosas que se espalham pelo mundo, sem nada que consiga detê-las. Entre os primeiros fraudulentos estão os bajuladores, imersos em fezes, gemendo humildes e servis. Em seguida, com os rostos virados para as costas, caminham os adivinhos e embusteiros. Abaixo são punidos os traficantes de cargos e influências, funcionários trapaceiros, mergulhados num poço de betume fervente. Depois deles, vestidos com pesadas capas de chumbo por dentro e ouro por fora, desfilam em prantos os hipócritas. Mais abaixo vê-se longas labaredas, e dentro de cada uma delas, ocultos, os ladrões públicos, altos funcionários fraudulentos. Aqueles que semearam ódio e discórdia entre pessoas e povos – pecado gravíssimo – ficam ainda mais abaixo, sofrendo golpes de espada, as vísceras à mostra. E no final do Círculo 8 apodrecem os falsários, incluindo os impostores, cobertos de lepra e gangrena da cabeça aos pés.

Nessa altura, eu me perguntava, quem padece no Círculo 9, o miolo do inferno, regido pelo Príncipe das Trevas em pessoa? Não há fogo ali: as almas sofrem mergulhadas no gelo, tiritando eternamente com as faces pálidas e vermelhas de vergonha, e os olhos cegos por lágrimas cristalizadas. São os traidores, gente que atraiçoou a família, os amigos, a pátria, ou cometeu o mais hediondo de todos os pecados: trair seus líderes e benfeitores, como Judas e Brutus.

Imagino que os círculos infernais devem estar superlotados atualmente, e possuem novas divisões para acomodar pecadores modernos, como o policial que explode a cabeça de uma criança, ou o sujeito que invade um centro de reabilitação e estupra uma adolescente cega, de 16 anos. Fechei a Comédia e suspirei aliviado. Bajulação, hipocrisia, trapaças, ódio, corrupção e traições eram de fato pecados. E gravíssimos. Meu discernimento estava de volta. Abri o jornal, feliz, mas logo na primeira notícia uma nova dúvida assaltou-me: e se já morri e aquilo que penso ser realidade é apenas um dos círculos do Inferno, onde pago minhas penas?

Copa além da imaginação

Nunca imaginei que a Copa seria como está sendo. Não me refiro apenas ao futebol, mas às coisas que giram em torno de um Mundial, e que só percebemos quando acontecem dentro da nossa casa.

Confesso que no começo estava um pouco apreensivo, porque embora lindos e alegres e morando num paraíso natural, somos um país pobre. Temos sérios furos no sofá e vistosos rasgos no tapete. Também temos violência, filha direta da pobreza. A campanha negativista da mídia – ideológica, eleitoreira e fake – nunca me preocupou. Mas uma pergunta não me saía da cabeça: como reagiria o Brasil profundo e faminto de tudo, diante das legiões de turistas ingênuos, ricos e apetitosos?

Ora, o Brasil reagiu muito bem. O clima é de festa, confraternização, hospitalidade. Apenas uma ou outra indelicadeza, como xingar a presidenta e vaiar o hino nacional dos outros, mas no geral nada grave, capaz de manchar o evento ou a nossa reputação.

A quantidade de estrangeiros é tão grande que parece ser o Brasil que viaja e não quem recebe os viajantes. Em São Paulo, o Ibirapuera está com cara de Hyde Park. A Vila Madalena virou o Quartier Latin. Nas demais cidades-sede, acontece o mesmo. Todo mundo tirando selfies e casquinhas com os gringos, grupos de turistas marchando atrás de bandeirinhas-guias numa enorme excursão multinacional. O turismo já tinha chegado à classe C; com a Copa, atingiu também as classes D e E. Até que enfim, o país inteiro saiu de férias, foi passear pelo mundo, assistir ao vivo um Mundial de futebol. Inimaginável.

Duas coisas me encheram de orgulho. Uma, já esperada: nossa imensa hospitalidade e cordialidade, que causam espanto a estrangeiros pouco habituados a gentilezas extremas. Para alguns povos, indicar o caminho para um estrangeiro é um sacrifício. Levar o turista até o destino, impensável. Pois os brasileiros estão fazendo isso, e muito mais. Os brasileiros estão dando uma aula de honestidade e de eficiência ao mundo em geral, e à FIFA em particular. Carteiras e objetos perdidos são prontamente devolvidos a seus donos. Há muito mais golpistas estrangeiros do que nacionais. A maior falha de segurança até agora – a invasão do Maracanã pelos chilenos – foi culpa da FIFA.

E a pitanga do bolo: nossa polícia, que desbaratou e prendeu a máfia de ingressos que agia há anos dentro da própria FIFA, liderada pela família do poderoso chefão mister Blatter. A quadrilha atuou nas últimas quatro Copas, na Itália, nos EUA, na França, na Alemanha – debaixo dos narizes dos Carabinieri, do FBI, da Interpol e da Bundespolizei. Sempre invejei essas corporações, e hoje não invejo mais, graças aos nossos meganhas. Inimaginável.

Só uma coisa ainda me causa inveja: a Costa Rica, pelo seu desenvolvimento social, pela erradicação do analfabetismo, pela extinção do exército. Os costariquenhos nos ensinaram que no jogo coletivo a psicologia é boa, mas a sociologia é indispensável. Agora, a Colômbia fazer o que fez nesta Copa? Inimaginável.

Acredite se quiser

Acho que o ano deveria ter apenas nove meses. Além de mais compatível com o ciclo de gestação humana, ficaríamos livres de novembro, dezembro e janeiro – meses em que nada acontece, e quando acontece é desgraça natural. O último mês do ano seria outubro, quando ocorrem as coisas que realmente importam para o mundo.

A humanidade não seria o que é, se em outubro não tivessem nascido Gandhi, Lennon, Colombo, Oscar Wilde, Nietzsche, Picasso, Drummond e Vinícius de Moraes. Sem falar de minha filha e minha sogra. Outros grandes perderam a vida neste mês, como Chopin, Guevara, Janis e Maria Antonieta. Ah, dirá você, todo mês nasce e morre gente importante! Concordo, mas note como o elenco de outubro tem um brilho mais intenso, mais radical que os demais. Perfeito Fortuna sintetizou esse ímpeto numa frase definitiva: “outubro ou nada!”

Outubro é revolucionário. É o mês das revoluções chinesa e soviética, sem falar da revolução de 1930 – que enterrou nossa República Velha. Nesse mês, o homem voou pela primeira vez, rompeu a barreira do som, entrou em órbita da Terra e vestiu o primeiro smoking. De quebra, Colombo descobriu a América. Não sei em que ano faremos contato com extraterrestres, ou descobriremos vida em outro planeta. Mas será em outubro.

Eu sei o que você está pensando. Sim, agosto também é um mês do caralho. Sim, a bomba atômica teve grande impacto, os japoneses que o digam. Claro, Nixon renunciou em agosto. Jânio também, é verdade. Em agosto Getúlio se matou e JK se estrepou. Mês de cachorro louco, mangalô três vezes. Estamos juntos, é um mesinho forte, reconheço. Mas nunca produziu eventos da magnitude de outubro, capazes de mudar o mundo – para o bem ou para o mal. Não, não vou falar do crack da bolsa em 1929. Nem da coroação de dom Pedro I. Para liquidar o assunto, sugiro apenas que você pesquise em que mês foi lançado o Ford T.

Por esses motivos, sempre desconfio – a priori – da importância de uma coisa quando ela não acontece em outubro. Esse oba-oba em torno da prisão dos mensaleiros, por exemplo. Não consigo acreditar que isso signifique o fim da corrupção, da impunidade e da injustiça no Brasil. Nem o começo de um novo tempo com mais igualdade, respeito, solidariedade e tolerância. Tampouco a construção de uma república forte, onde as instituições funcionem de forma ética e competente.

As enxurradas de ódio entre o “bem” e o “mal”, o comportamento midiático do judiciário, a conduta justiceira da mídia, o oportunismo dos golpistas de plantão, tudo me faz duvidar dessa campanha da moralidade. Não acredito que se o mal contaminou o bem, então, automaticamente, o bem tenha contaminado o mal. Sei que há muita gente genuinamente indignada, gente honesta que não tolera mais abusos. Mas na condução do movimento, na orquestração da revolta, sinto um cheiro fétido e ouço o rosnar de lobos sob o balido alegre das ovelhas.

Além desses sinais de alerta, existe também um ceticismo atávico que habita o fundo do meu ser, e me leva a concordar com uma frase que está circulando na internet: vamos acabar na barbárie – se tivermos sorte. Mas o que realmente me faz achar que tudo continuará como dantes, se não pior, no quartel de abrantes – é que isso está acontecendo em novembro. Se estivéssemos em outubro, juro que eu acreditaria. Acho.

Uma pulga no meio do caminho

A atual enxurrada de corrupções que inunda o noticiário fez-me lembrar de uma sexta-feira inesquecível que quase já tinha esquecido. Eu trabalhava numa grande empresa e tinha ajudado a escrever a política interna contra a corrupção, aprovada naquele dia pelos Acionistas– sem emendas. Parece bobagem, mas raras empresas tratam desse assunto claramente. E por escrito. Não é à toa que no ranking de corrupção da Transparência Internacional, o Brasil está em 73o lugar entre 183 países. Atrás de Ruanda, Costa Rica, Butão, Namíbia, Botsuana.

Voltei para casa eufórico. Talvez fosse meu velho esquerdismo juvenil, mas ainda me sentia na luta. Sabia que todas as utopias tinham desmoronado. Socialismo, hippies, teologia da libertação, jovem guarda, nada escapou. Nem as fantasias infantis. Neverland começou com Sininho, estátua de Peter Pan no Hyde Park de Londres e tudo. Desembocou em Michael Jackson e seu circo de horrores.

Sabia também que a ética empresarial, geralmente, seguia a recomendação do poeta Baudelaire, no século XIX: “sejamos virtuosos, pois assim ganhamos mais dinheiro que os tolos desonestos”. Mas para mim, essa era uma das poucas lutas que valiam– e ainda valem– a pena lutar.

Cheguei em casa, peguei minha filha e a cachorrinha, e fomos para um sitiozinho alugado. Contive-me até o começo da rodovia, e então contei a façanha. A importância das políticas anticorrupção! Uma das maiores empresas do país! Imagine o impacto disso no mercado! Um feito memorável! Falando pelos cotovelos, quase não vi o farolete do guarda rodoviário. Estranhei a ordem de parada. À noite, nunca tinha ninguém naquela guarita. Parei.

Minha carteira de habilitação estava vencida e estourada em pontos, pois acumulava também as multas de minha mulher. Despachantes tinham sugerido zerar tudo pagando “por fora”, mas eu vinha adiando a decisão. O guarda pediu os documentos. Simpático. Escondi a carteira, abri o portaluvas e cadê o licenciamento? Ficara em casa. Com um sorriso besta, disse-lhe que o carro estava sem documentos e eu, sem carteira. A simpatia ficou maior: “puxa, vou pedir pro senhor me acompanhar”.

Lembrei os rankings mundiais de suborno: polícia, 1º lugar disparado; mais que o dobro do judiciário, na vice-liderança. Entramos na guarita. Ele pediu meu RG e disse: “ali atrás, no sistema, tenho os seus dados e os do carro. Tem algo errado? Fale a verdade, senão pode ficar feio”. Não era ameaça, mas um conselho amigo. Lembrei-me da ironia de um velho humorista inglês: “é melhor dizer sempre a verdade, a menos que você seja um mentiroso excepcional”. Decidi contar tudo. O carro, ok. Mas a carteira… O guarda sorriu compreensivo – ah, multas de esposas, muito comum. Senti-me amparado, confortado. Ele listou as infrações: dirigir sem habilitação, carro sem documentos, carteira vencida, estouro de pontos. Tudo somado, uns 900 paus. Gelei. Não tinha aquele dinheiro. Ele tamborilava meu RG na mesa como se batesse uma carreira de cocaína. “Então, como o senhor quer fazer?” Era a senha. O momento central do suborno. O corrupto não pede, o corruptor é que oferece. O criminoso é aquele que paga. Pensei em brincar (três vezes no cartão?) e depois oferecer a cervejinha. Com uma multa daquelas, cairia no cheque especial a juros de 10% mensais. Oh, propina benfazeja! O dilema rachou-me ao meio. De repente, ouvi minha voz dizer: “pode multar”.

O guarda fechou o sorriso e arregalou o olho, como se acordasse. O jogo tinha virado. O senhor tem certeza? – ele conferiu. Tenho, respondi. O silêncio ficou pesado. Então ele disse que eu era um sujeito muito, muito honesto. Porisso, não lavraria multa nenhuma. Devolveu-me o RG, assumiu ar de autoridade. Tem alguém habilitado no veículo?– indagou. Tinha minha filha. Deixe que ela conduza, falou; e emendou: regularize a habilitação, tenha mais cuidado com os documentos e boa viagem.

Claro que o guarda suspeitou da minha honestidade e temeu alguma sacanagem. Voltei para o carro, exausto e matutando. Li uma vez que no mundo tem dois tipos de homens: os íntegros que se acham pecadores e os pecadores que se acham íntegros. Não me achava uma coisa nem outra. Sentia-me derrotado e vitorioso ao mesmo tempo. O guarda era uma pulga numa pirâmide alimentar com vampiros no topo. Lutar contra os vampiros empresariais tinha sido fácil, pois lutava contra os outros. Enfrentar um mísero inseto exigiu-me esforço muito maior, porque lutava contra mim. Não virei santo, nem quero virar. Mas nunca mais fui sugado por pulgas no meio do caminho