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Os chatos da Via-Láctea

Conheço poetas e escritores que escrevem crônicas mas não as divulgam na internet. Talvez por considerarem que esse gênero não seja arte, ou algo que valha a pena ser lido. Ou talvez duvidem que alguém vá ler um catatau de três mil caracteres. Mencionam essa atividade meio a contragosto, constrangidos, como se dissessem sou contador do Colégio Marista, ou escriturário da prefeitura – trabalhos dignos, mas que para um literato representam desvios do caminho artístico.

O pior é que mesmo grandes cronistas desdenham da crônica. Rubem Braga escreveu que gostaria de ganhar a vida de outro jeito, “não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…”.   Para ele, melhor seria fazer algo de “sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa”.

Braga criticava o espírito do homem urbano moderno, em contraste com a simplicidade e pureza da vida rural. Cada um a seu modo, todos os grandes cronistas analisaram a condição humana, com doses variadas de humor, ironia e lirismo. Essas coisas me ocorrem devido à reedição de “O amor acaba” (Cia. das Letras, 280 pgs.) volume de crônicas de Paulo Mendes Campos, a maioria publicada na revista Manchete, uma mistura de Caras e Veja dos anos 60 e 70.

PMC, como era chamado entre os amigos, também renegou sua vida de cronista. Já passado dos cinquenta, disse que gostaria de ter sido filólogo. E num desabafo, escreveu que “a vida não vale uma crônica”. Se você não tiver receio de olhar o homem como ele é, recomendo vivamente os textos de Paulinho – o rebento mais erudito, mordaz e bebedor da safra mineira que gerou Fernando Sabino, Otto Lara Rezende e até o capixaba Rubem Braga.

Há quem pergunte por que não se fazem mais crônicas como as de PMC. Creio que é porque nossos cronistas estão presos nas impressões e flagrantes do cotidiano. E porque a vida moderna – com sua pressa e superficialidade – não permite reflexões sobre as mazelas da vida moderna, como o tédio, o culto à aparência, a felicidade consumista.

Se o mundo continuar assim, num futuro breve não saberemos mais olhar um quadro. Apenas “curtir” uma foto. Só conseguiremos ler quarenta caracteres, e conversar por meio de torpedos. Ironias e metáforas serão banidas da linguagem.

Só restará pão sobre pão, e queijo sobre queijo. Esqueça as pedras, elas não são politicamente corretas. Cumprindo uma profecia de Paulinho Mendes Campos, seremos “os chatos da Via-Láctea”.

Não sei como estará a poesia nesse mundo, nem se haverá poesia. Mas gosto de imaginar que haverá crônicas. E cronistas que não se envergonharão de ser cronistas, e mesmo não sendo poetas, conseguirão ser poéticos de vez em quando. Com esse mínimo de farinha, farão bolinhos que atrairão comensais incautos em jornais, redes sociais, blogs. O sabor da massa infectada vai trazer à memória desses comedores frases e lembranças de um mundo antigo, pré-digital, onde cronistas ancestrais usavam camisas de mangas curtas e diziam coisas como “precisamos apenas viver – sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão”.

 

Excesso de assunto

Leio no Yahoo que os escritores estão na lista das dez profissões mais sujeitas ao estresse e à depressão, devido à falta de inspiração que os acomete. Não me considero escritor. Sou apenas um cronista plebeu, rabiscador de impressões. Cronista não tem falta de inspiração. Tem falta de assunto. Talvez nem cronista eu seja, porque não me atormenta a falta de assunto. Ao contrário, sofro pelo excesso de coisas a dizer.

A exuberância da primavera em São Paulo, por exemplo, quando florescem espécies sobreviventes da mata atlântica original, como as figueiras, as copaíbas, os cambucis que os índios fermentavam como cachaça, as canelas, os jatobás, os cedros, os jequitibás, as paineiras cheias de periquitos, e, acredite se quiser… as araucárias, que deram nome ao bairro de Pinheiros. Nesta época, vicejam também as espécies estrangeiras, como as tipuanas da Bolívia, as seringueiras da Ásia, as quaresmeiras, os ipês, as sibipirunas, os resedás. Uma prima minha, vinda do Mato Grosso, ficou pasma ao ver as árvores daqui. Agora entendi!, disse ela. Entendeu o quê?, perguntei. Porque os índios escolheram essas terras pra morar, antes dos jesuítas. Este é o solo mais fértil do Brasil! Nunca vi árvores tão grandes, dizia, extasiada com o tamanho dos jatobás e jequitibás. Desde aquele dia, sempre que caminho sob as árvores desta megalópole, sinto-me um tapuia de tênis que, com sabedoria ancestral, escolheu o melhor e mais rico rincão para lavrar a vida.

Pulando de vegetal para animal, tenho diante da minha sacada um verdadeiro “avicídio”. Moro ao lado do aeroporto de Congonhas, e leio que o governo sancionou lei que permite abater aves para reduzir colisões entre aviões e animais. Ano passado, aeronaves atingiram mais de 1.400 aves, destroçando quero-queros, carcarás, corujas, urubus, pombos, andorinhas e gaviões, “entre os que foi possível identificar”. Esse morticínio avança em escala geométrica. Nos últimos 15 anos, enquanto a frota aérea nacional cresceu 40%, as colisões com aves e bichos aumentaram mais de 1.000%. Passei minha vida adulta sentindo culpa pelos pardais, sanhaços e rolinhas que – na infância – matei apaixonadamente com estilingues e espingardas. Uma vez, atirei com uma carabina calibre 12 num pardal distraído. Só sobraram penas no ar. Imagino um passarinho tragado por um Airbus 330 e me pergunto: o que é um estilingue diante de um boeing? Ou um moleque com bodoque diante de uma legião de funcionários da Infraero, treinados para matar e com metas a cumprir?

E do animal vou para o homem. Adoro ver o contraste entre a pobreza da vida de celebridades, e a riqueza da vida de pessoas anônimas. Tenho dois prazeres que gosto de exercitar. O primeiro é observar gente nas ruas, no metrô, nos bares, e imaginar como seriam suas histórias. O segundo, descobrir gente interessante a partir de um ou mais detalhes, e concluir com meus botões: aí tem coisa! Um exemplo deste segundo tipo: numa pequena vila colonial encravada na costa do Rio de Janeiro, intrigou-me um francês pequenino, que aqui chamarei de P. Cinquenta anos, casado com uma negra brasileira, dono de um ateliê que mais parece a oficina de Leonardo da Vinci. Em menos de cinco minutos, concluí: aí tem! E tinha. Com 23 anos, P. formou-se pela mais tradicional e rigorosa escola superior da França, mas abandonou uma promissora carreira executiva e embrenhou-se num povoado medieval habitado por 20 famílias. Ali aprendeu a trabalhar com pedras, madeira, vidro e metais. Depois de sete anos, foi para o litoral, construiu um barco e vagou pelo Mediterrâneo até parar em Bonifacio, um povoado de três mil habitantes, na Córsega (vá ao Google, leitor, para visualizar o que estou falando). Ficou por lá oito anos – os melhores da sua vida, afirma. Aprendeu novas técnicas, principalmente jóias em coral, que vendia para o mercado de Milão. Saiu de Bonifacio por causa de uma namorada e da rígida moral ditada pela máfia corsa – a mais poderosa da Cosa Nostra. Seguindo seu faro medieval, veio parar no vilarejo brasileiro, onde está há 15 anos. P. domina todas as técnicas artísticas, além de construção, artesanato, gravuras em metal, papel e madeira. É escultor, pintor, carpinteiro, vidraceiro, fotógrafo, artesão e joalheiro. Nunca se amarrou em dinheiro, e sim no conhecimento e nas relações humanas. É um espírito renascentista puro. Lê sobre arte, história e política. Diz que não existe pequena arte e grande arte, apenas arte. Atua na comunidade, ensinando ofícios para crianças caiçaras. Tenho uma amiga que possui um anel de ouro feito por P. É uma peça leve como teia de aranha, que ela pagou em prestações e usa o dia inteiro, há oito anos. Sempre que visitamos a vila, P. examina a jóia, verifica se o brilho está bom, se  nenhum arranhão danificou sua obra – e sorri satisfeito, com uma luz alegre nos olhos azuis.