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A morte de Fidel

Muitas vezes estou no lugar certo, mas no momento errado. Nesse descompasso de sair antes ou chegar depois, jamais presenciei um grande acontecimento. Entretanto, ao visitar Cuba, me bateu uma esperança: e se Fidel morresse durante minha estada na Ilha? Eu olhava a chácara do “Viejo”, e imaginava a avenida fechada por tanques, o Estreito da Flórida cheio de fragatas, helicópteros em todas as direções. À noite, holofotes varrendo céus e ruas, iluminando jovens no Parque Lennon, iates na Marina Hemingway, gays e travecos no Capitólio, aulas de tango no Passeio do Prado, terreiros de candomblé, palcos onde bailou Alicia Alonso, a estátua de Tiradentes no Parque da Fraternidade. E no centro de tudo, a multidão oceânica lentamente se aglomerando na Praça da Revolução, sob as gigantescas silhuetas em néon do Che e de Camilo – mais iluminadas do que nunca. Vôos comerciais cancelados, somente delegações estrangeiras chegando do mundo inteiro. E eu ali, talvez o único jornalista brasileiro naquele momento histórico. O que fariam os dirigentes cubanos? Os EUA retirariam o infame bloqueio econômico que há 50 anos sufoca a Ilha? O que diria o governo brasileiro? Como reagiriam nossos jovens nas ruas? O Brasil mostraria mais a sua cara, como pedia aos gritos Cazuza?

Claro que os deuses não me ouviram. Em vez de testemunha ocular da história, voltei pra casa como um simples turista de free shop. E sinto informar: os cubanos não desejam a morte de Fidel. Nem gostam de falar dele com estrangeiros. “Adónde vive Fidel?”, perguntei a Yanín, a mãe-de-santo que me alugou um quarto em Havana Vieja. “No lo sé” respondeu ela. O tom parecia dizer “vive en mi corazón”, enquanto o olhar de soslaio, ressabiado, indagava “y para que carajo quieres saberlo tu?”

A crítica mais forte dos cubanos a Fidel é sua ignorância sobre economia. Acreditam que se ele manjasse do assunto, o país poderia ter vencido até o cruel bloqueio dos EUA. Há muitas mudanças recentes, como liberdade para pequenos negócios, hospedagem em hotéis, viagens aéreas, compra de imóveis e outras. Mas eles querem ainda os militares fora da política, e a redução da igualdade (!). Os jovens falam em menos preconceito, mais opções de trabalho, mais liberdade de expressão, internet decente e, talvez um dia, a boa maconha da Jamaica.

Há coisas imexíveis para eles, como a falta de mendigos e de crianças abandonadas, e a inexistência de roubos e assaltos. Querem manter também o acesso à educação, à saúde, à moradia e às novelas brasileiras. Só notei uma coisa que ninguém quer: o capitalismo, que consideram o mais desumano dos sistemas. Não tenho dúvidas: na noite em que a morte de Fidel iluminar um mar de lágrimas cubanas, a multidão de punhos erguidos na Praça da Revolução irá renovar o brado do velho líder: “socialismo o muerte!” O azar crônico me impedirá de estar presente nessa hora. Mas não de torcer para que Cuba encontre as saídas que procura. Sem perder a ternura jamais.

Sem medo da utopia

Volto a Cuba (o tema) pela terceira vez, para concluir minhas impressões de viagem. Não é uma tarefa fácil, devido às paixões que Cuba provoca. Mas é interessante notar como o futuro da Ilha está ligado ao seu passado.

Os EUA ajudaram Cuba a livrar-se da Espanha e da hegemonia inglesa. Em troca, sujeitaram-na ao seu próprio domínio. Na primeira Constituição cubana, a famosa emenda Platt dizia: “Art.3: os EUA podem exercer o direito de intervir para a preservação da independência cubana, para a manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual”. Outro artigo determinava que Cuba devia vender ou alugar terras para a instalação de bases navais para “manter a independência” e “proteger o povo cubano”. Assim nasceu a base de Guantánamo em 1904 (cujos cheques de pagamento do aluguel jamais foram cobrados pelos socialistas). Graças à emenda, os EUA invadiram Cuba em 1906, 1912 e 1917.

As coisas seguiam felizes para os EUA e para a elite cubana, até que uns barbudos tomaram o poder. Ignácio de Loyola Brandão, em seu livro “Cuba de Fidel”, descreve as condições  do cubano em 1959: sem trabalho, sem comida, numa insalubridade calamitosa. Mortalidade infantil enorme e analfabetismo em mais de 50% da população. Segundo Loyola, “proliferavam o jogo, a prostituição (mais de 100 mil putas para 5 milhões de habitantes), e o tráfico de drogas. Havia um grande número de marginais, o submundo era a forma mais eficiente de ganhar dinheiro”. Tudo isso governado por uma ditadura apoiada pelos EUA, que controlavam também a riqueza da Ilha (50% das ferrovias e 40% do açúcar, sem falar de hotéis, cassinos, e produtos ilícitos).

Os barbudos acabaram com a farra e implantaram o comunismo sob as barbas do Tio Sam. Nunca foram perdoados pela ousadia. Desde 1960 os EUA tentam retomar seu domínio, por meio do bloqueio econômico, do apoio e financiamento a ataques militares (Playa Girón), a ações terroristas (bombas em hotéis) e a campanhas de propaganda.

Animados com a ruína do socialismo europeu, criaram uma nova lei – a Helms-Burton – que prevê o bloqueio econômico total e internacional da Ilha, impõe sanções a empresas e países que mantenham relações com ela, e legaliza o apoio a opositores do regime. De quebra, estabelece que os EUA tem o direito de definir que tipo de governo, de sociedade e de relações deverá ter o país após a queda da revolução.

O objetivo é claro: vencer Cuba pela fome e pela força, e depois anexá-la (como Porto Rico). A rede espanhola Meliá, e a tabageira Souza Cruz, do Brasil, sentiram a mão pesada dessa lei.

Cuba está na merda desde os anos 90, quando o socialismo europeu ruiu. Existem dispositivos republicanos, mas não há rotatividade do poder. Embora numa escala menor, voltam a surgir desempregados, prostitutas, marginais, corruptos, alguns estupros e brigas de canivete. São mazelas parecidas com as de 50 anos atrás, mas que precisam ser vistas no contexto da guerra com os EUA, e do esgotamento dos modelos socialistas do século XX.

Os cubanos tem pouco oxigênio, e estão numa encruzilhada. De um lado, a águia americana pronta para o bote. De outro, o atoleiro capitalista em crise. Pareceu-me que eles vão tentar uma terceira via. Acho isso utópico. Mas Cuba não tem medo de utopias. Nem dos EUA.