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Renascimento à brasileira

Desocupado leitor, dizem que depois dos cinquenta, se você acorda sem nenhuma dor, é porque está morto. Hoje acordei assim, mas ao invés de morto, me senti vivo como há muito não sentia. O único incômodo foi uma sensação de estar na época errada, em alguma década do século passado. Imagine Don Alonso Quijano despertando como Don Quixote, mas sem deixar de ser Don Alonso. Em seus delírios como Cavaleiro da Triste Figura, o pobre fidalgo acreditava estar num tempo antigo, vivendo no presente. Pois eu acredito estar no presente, vivendo um tempo antigo.

O noticiário e as pessoas na padaria dizem que estamos numa nova era, uma espécie de Renascimento, mas abro a revista semanal e vejo uma reportagem sobre a primeira-dama interina do País, igualzinha àquelas que a revista Manchete fazia dos concursos de Miss Universo em 1960. Só faltou o maiô com salto alto, e a moça dizer que seu livro de cabeceira era o Pequeno Príncipe; mas essas coisas ficam subentendidas, mesmo para maus entendedores como eu.

Entro na Internet para conferir o discurso do presidente interino, e surge à minha frente um baixinho igual ao Rui Barbosa, com a cara dura de botox, o cabelo brilhando de gumex, a despejar frases afetadas e incompreensíveis. Senti-me um Sancho Pança tentando decifrar a fala empolada de seu amo. A coisa piorou quando olhei a foto do tal interino com seu novo gabinete. Sabia que já tinha visto aquela cena, mas não lembrava onde. Aí uma alma caridosa postou na rede: era a posse do marechal baixinho Castelo Branco, em 1964, rodeado por seus ministros. Todos homens, todos ricos, todos brancos. E todos velhos. Meu sangue gelou de vez quando vi que o governo interino adotaria o slogan “ordem por base e o progresso por fim”, exatamente como fez a República Velha há 126 anos, isto é, mutilando o lema criado por Auguste Comte, que tinha o “amor por princípio”. Mais um governo sem princípios, disse aos meus dois botões. Mas com muitos fins, responderam eles.

Até a bandeira nacional usada na nova propaganda é antiga, modelo 1964-68, e ouço dizer que a embaixada brasileira na França cancelou a projeção de um documentário sobre nossos impunes torturadores, alegando tratar-se de um tema “delicado”. Tirando a delicadeza da forma, é a velha e brutal censura renascendo das cinzas.

Como sou um otimista incorrigível, creio que esse presente bizarro vai acabar ressuscitando também alguma coisa boa do passado. Por isso, vesti minhas calças vermelhas, tirei do guarda-roupa meu casaco de general cheio de anéis, e agora estou aqui, na frente da TV, tomando uma fanta com gosto de crush, esperando que o Michel Teló se transforme no Taiguara; o Arnaldo Jabor, no Glauber Rocha; e o Malafaia, no Don Helder Câmara. Talvez seja sonhar demais, mas quem garante que a Suzana Vieira não vire uma Leila Diniz? Ou que o Romero Britto não se torne um Portinari, e o meu Palmeiras, uma nova Academia do futebol?

Tantas possibilidades, tantas esperanças. E tantos medos também. Confesso que estou com medo de começar a acreditar no Jornal Nacional. Tenho medo de achar que a cultura é descartável, que a Terra é plana, que somos descendentes de Adão e Eva, e que a corrupção acabou. Só espero conseguir atravessar este dia estranho e maluco sem fazer nenhuma besteira. Tipo imaginar que estou combatendo gigantes, e sair por aí destruindo esses moinhos de vento esquisitos que surgiram nas ruas de uns tempos para cá.

O grande risco

Embora seja uma informação de absoluto desinteresse público, devo dizer que tive umas férias excelentes. Fazia décadas que não visitava o Nordeste. Fiquei surpreso com a pujança de Pernambuco e ressabiado com o desenvolvimento do turismo, que não extinguiu hábitos tradicionais, como a pesca de arrastão em jangadas, mas bloqueou o livre acesso às melhores praias, agora ocupadas por pousadas e restaurantes. Para chegar à água salgada, é preciso cruzar guaritas com seguranças e pagar taxas de estacionamento mais salgadas ainda. Se você está pensando em visitar aquela região, apresse-se. Locais lindos e desimpedidos, como a pequena praia de Antunes, ou a simpática Japaratinga – uma vila de pescadores em Alagoas -, em breve também serão ocupados.

As jangadas e os arrastões trazem antigas lembranças visuais e musicais. Trazem também pouquíssimos e minúsculos peixes em suas redes, mostrando que a crise atingiu o fundo do mar. Hoje em dia, bichos grandes como ciobas, espadas e cavalas, só na ponta do arpão. Mas em pequenos restaurantes a lagosta ainda é farta e barata, cerca de R$ 70 uma generosa porção para três pessoas. Todos os preços são negociáveis: um passeio de R$ 80 sai por R$ 50, uma diária de hotel encolhe 30% num piscar de olhos, e se a sua gula não atrapalhar a negociação, um saquinho de cocada com abacaxi pode despencar até 40%.

O nordestino continua falante, criativo, alegre, hospitaleiro. Quase despreocupado, eu diria, como um peixinho colorido nadando entre corais, ou um moleque brincando na água cristalina e morna, ou uma estrela cintilando na noite sobre o mar. É verdade que as capitais ficaram tão violentas quanto suas irmãs do Sul. Muitas casas e lojas tem grades nas portas e janelas, um pivete arrancou a correntinha de ouro da minha mulher, e vi duas brigas de rua em menos de dez dias. Mas a agressividade ainda não desumanizou as relações, nem destruiu o espírito de solidariedade. Um ciclista caído ao chão, mesmo sendo pobre e bêbado, não deixa de ser socorrido pelos passantes.

Juro que minha intenção, hoje, era falar apenas das férias; mas gozado, percebo agora que essas coisas do Nordeste retratam o momento atual do Brasil. Sim, porque continuamos sendo uma gente alegre e quase despreocupada, porém marchamos firme para a violência entre dois lados radicalizados. Existem aqueles que não estão em nenhum dos lados – talvez a posição mais difícil nesta hora. São os que conseguem enxergar a complexidade da situação, porém ninguém os escuta, e sofrem pressões imensas para aderirem a um lado ou outro. Também há os que são favoráveis a ambos os lados, como o vendedor de amendoim que numa manifestação veste a camisa da CBF, e na outra, uma camiseta vermelha. E tem os que sempre foram deixados de lado, os miseráveis que nenhum programa social conseguiu resgatar, como a menina das balas no semáforo da esquina.

Por falar em balas, logo, logo teremos o confronto físico entre os dois lados, possivelmente com alguma morte, o que incendiará ainda mais os ânimos. Escrevo na quarta-feira, talvez no domingo isso já tenha ocorrido. Só espero que, como no Nordeste, o aumento da violência não desumanize as relações. Espero que o retrocesso democrático – o grande risco que corremos nisso tudo – não se instaure de vez. Espero que essas esperanças não sejam apenas ingenuidade ou algum resquício cristão de minha parte. Por falar em cristão, e antes que me esqueça: feliz páscoa pra todos os lados.

Nem Cuba nem Miami

Definitivamente, sou um egoísta incorrigível. Achei que os anos tinham me curado dessa doença infantil da alma, mas qual!, sempre que meu bem estar é ameaçado, ela ataca impiedosamente. Peguei-me novamente enfermo ao ver o festival de intolerância que assola o país. E se der merda?, pensei. E se os extremistas – de direita ou esquerda, tanto faz – acabarem levando a melhor nessa onda de ódio onde ninguém ouve ninguém? O que fazer se a nossa pobre, feia, suja e malvada democracia for pro beleléu? Ora, pra quê se preocupar, respondeu meu ego já febril, você não vai mudar as coisas, deixe que esse povinho se exfloda, se a ala dita dura endurecer vá morar no Uruguai.

Ah, o Uruguai!, suspirei entregando-me ao surto egoístico. Berço de Gardel, do tango, do doce de leite e do churrasco. País onde as quatro estações comparecem todo ano, derrubando as folhas no outono, florescendo na primavera, congelando a água no inverno e torrando nos verões de 40 graus com sol até as 22 horas. Perambular pelas ramblas do Rio de la Plata, curtir o magnífico por do sol nas águas do Rio de la Plata, pescar aos domingos no Rio de la Plata, sentir a brisa do Rio de la Plata com seu perfume de mate e murmúrio de milonga longinqua.

Uruguai, terra do futebol, o primeiro campeão do mundo – em cima da Argentina. Lá, a palavra maracanazo significa vitória e glória, não derrota e infâmia. Lá, nostalgia é uma coisa bacana, não cafonice. Lá, exibir a última novidade de consumo desperta pena, não admiração. Lá, os jovens gostam dos velhos e os velhos gostam dos jovens. Lá não tem subidas, o país é inteirinho plano. As baladas começam às 2 da madrugada. E o carnaval dura 40 dias.

O Uruguai já aprovou o aborto e o casamento gay. A maconha é livre e o tabaco é quase ilegal, se não for proibido de vez agora que o oncologista Tabaré Vasquez reassumiu a presidência. A comissão da verdade é de verdade – e de justiça. Uma frente de centro-esquerda, liderada por uma mulher (Mónica Xavier), governa o país há 10 anos e ficará pelo menos 15 anos no poder. Sem se corromper, sem fazer alianças com corruptos e sem cair no populismo. O uruguaio não gosta de ostentação nem de estrelismos. É uma gente discreta e sossegada. “Bajo perfil”, como eles dizem. Ou “low profile”, como dizem os ingleses e americanos.

O povo uruguaio chegou ao cúmulo de transformar a crítica político-social em expressão artística. Ele se manifesta nas ruas, cantando e dançando ao som do coro-teatro das murgas e do batuque do candombe, em vez de vociferar sozinho no feicibuque ou xingar e bater panelas – como fazem seus selvagens vizinhos argentinos e brasileiros. O Uruguai produziu, enfim, José Mujica, a sua mais completa tradução.

Todas essas coisas me passavam pela cabeça, invadida pela cruel doença. Ah, o Uruguai!; gemia eu, delirando de egoísmo. Depois, aos poucos, a febre foi cedendo. Lembrei dos pobres infectados que foram para Miami e vivem presos em condomínios fechados, vivendo à base de relógios e iphones, sem conseguir se desgrudar do Brasil. Já pensou, chegar no Uruguai e ficar estocando doce de leite pra trazer pro Brasil? Melhor segurar as pontas um pouco mais. Verás que um filho teu não foge à luta, assobiei. Afinal, pode ser que a dita dura seja uma dita branda. Também pode ser que tudo acabe em pizza. Ou não, cutucou-me o egoísmo.

Palhaçadas

Semana cheia de assuntos importantes, mas um deles me parece urgentíssimo: as eleições e a mídia, duas coisas ainda selvagens no Brasil. Segundo estudiosos e analistas, nossa democracia está “em formação”, por isso tanta instabilidade política. Uma hora, inventa-se a reeleição. Em outra, altera-se a duração do mandato. Uns querem implantar o voto distrital, outros lutam para aumentar as disparidades e oportunismos. Os partidos não representam ideologias nem posicionamentos políticos, apenas agrupamentos de interesses. Financiamentos de campanhas? Dirija-se ao caixa 2. No meio dessa mixórdia, caminha a violência. Este ano, insuflada pela mídia, a turba da classe média está mais agressiva do que nunca. Vejo alguns bacanas que em vez de colarem nos carros a propaganda de seus candidatos, colam xingamentos e gritos de “fora”. Ou seja, não defendem candidaturas – preferem atacá-las, de preferência com raiva, não com humor e ironia. Um dos mais atacados é o itapipoquense Francisco Everardo Oliveira Silva, um dos vinte melhores deputados do país – segundo apuração da Câmara. Francisco é um empresário bem sucedido, pai de família amoroso, com inteligência acima da média, honesto e sincero, mas enfrenta o velho ódio social que nossas elites tem dos pobres e de tudo o que é popular. Por causa de seu personagem Tiririca, é xingado de palhaço e tratado com desprezo. Mesmo tendo a segunda maior votação da história, a mídia tentou impedir sua posse. Em vão. Agora, tentam denegrir seu mandato impecável e ridicularizar sua reeleição. Também em vão. Tudo indica que Francisco Everardo vai ser novamente eleito, mais uma vez com votação expressiva, mostrando que se depender dele, pior do que tá não fica.

Isso poderia servir de lição para a grande imprensa, se ela tivesse humildade para aprender alguma lição. Como nossa democracia, a grande imprensa brasileira também está “em formação”. Precisa deixar de ser arrogante, prepotente, de achar-se infalível, superior aos cidadãos comuns e acima da lei. Em países com democracias maduras, a propriedade da mídia é regulada, assim como são regulados seus deveres e sua transparência. Um jornal não pode ter uma TV, ou uma rádio, e vice-versa. O objetivo é proteger a democracia, pulverizando a propriedade da comunicação, para garantir a diversidade de vozes e idéias, também conhecida como liberdade de expressão. Em nome da transparência, os veículos são obrigados a declarar suas simpatias eleitorais, e não podem fingir que são “independentes” ou “isentos” – porque nas democracias maduras todos sabem que isso não existe. No Brasil, somente a revista Carta Capital declara seus apoios eleitorais. Os demais se esforçam para disfarçar suas preferências, com o duplo objetivo de favorecer os preferidos, e ganhar credibilidade para atacar desafetos. Os malabarismos para engazopar o leitor não tem limites. Os mais comuns são as fotos: grotescas para os inimigos, bonitas para os amigos. Algumas peripécias beiram o ridículo e são hilárias. Esta semana, por exemplo, uma folha de São Paulo mostrou que protegido seu não cai nas pesquisas: apenas “oscila”. No máximo, dizia o texto, “oscila negativamente”.

Fiquei de queixo oscilado negativamente com tanta magia linguística. Depois entreguei-me às gargalhadas e pensei feito Brecht: o que é a piada de um Tiririca, comparada às palhaçadas de um jornalão?