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Hoje levantei cedo

Hoje levantei cedo, mas não aconteceu nada. Fui até a praia imaginando encontrar você, mas não havia você. Não havia nem praia. Amanhã vou levantar mais cedo. Quem sabe dou sorte. Quem sabe encontro uma flor entre as pedras do caminho. Dizem que é primavera agora. Dizem que as coisas vão melhorar, que é preciso ter paciência, ter confiança, mas escuto essas coisas desde jovem, desde quando dormia, desde quando assobiava, desde quando você me abraçava.

Preciso consertar o relógio da parede. Tenho vergonha que alguma visita perceba as horas paradas. Não importa que eu nunca receba visitas. Tenho vergonha mesmo assim. O espelho do banheiro também está quebrado. Também não importa que eu nunca me olhe no espelho. Tenho vergonha. Não sei consertar relógios, nem espelhos. E não tenho dinheiro para pagar quem conserte. Não tenho nada, só tenho tempo, tempo de sobra. E vergonha.

De dia as coisas são mais fáceis, ouço um martelo batendo, um rádio ligado, o som do caminhão vendendo cândida. O duro são as noites. Vagueio pelos telejornais mecanicamente. Clic: descobriram estranhos sinais na superfície de Júpiter. Clic: fizeram um novo experimento agrícola em Botucatu. Clic: alguém inventou um aplicativo que monitora o crescimento das unhas do pé. De madrugada assisto a um concurso culinário, depois uma reportagem sobre a cirurgia de costela da Shakira. Bebo muita coca-cola – choca e sem gelo. A geladeira quebrou.

Antigamente tudo funcionava. A geladeira vivia cheia, os banhos eram quentes, a torneira não pingava. Antigamente havia shows, cinema, teatro. Você gostava de tirar os sapatos na chuva, gostava de amigos nos bares, gostava de rir alto, gostava de beijar no elevador. Você nunca foi recatada. As noites passavam rápido, os lençóis amanheciam manchados. De manhã havia cheiro de café. Tinha sempre um gato miando na cozinha e um cachorro latindo no quintal.

Antigamente o ano tinha quatro estações, e você gostava de todas. Acreditávamos na previsão do tempo, fazíamos planos de ano-novo, discutíamos o preço do feijão. Sim, antigamente havia feijão. Você amava o Chico, eu adorava o Caetano. Você declamava Drummond, eu João Cabral. Você queria salvar a floresta, eu os gatos vadios. Você preferia molho branco, eu molho vermelho.

Antigamente as pessoas iam a comícios, faziam aniversário, punham roupa nova, davam presentes. Havia casamentos, separações e reconciliações. Havia nascimentos e batizados. Antigamente havia almoços de domingo, visitas aos doentes, compras de Natal, despedidas na rodoviária, bulício de crianças na porta da escola. Havia loucos nas praças e travestis nas esquinas. Havia passeatas de estudantes. Antigamente havia pecado e perdão.

Antigamente os ponteiros dos relógios andavam. Antigamente eu dormia. Às vezes até sonhava. Agora, depois do último gole de coca-cola morna e choca, desligo a TV e fico deitado esperando o dia clarear. Mas sempre levanto cedo. Pode ser que aconteça alguma coisa. É preciso ter confiança, dizem.

Conde, pombas e urubus

Atrasado para uma reunião, passei por minha mulher e ela sentada à mesa disparou: as pombas são burras. Parei com a mão na maçaneta e perguntei por que. Ora, disse ela, porque deixam que um único e atrevido sabiá lhes roube a comida. A comida é delas, elas que acharam. Aí um sabiá mergulha num golpe e pousa no meio do bando, ergue a comida no bico e bate as asas enquanto elas nem percebem quem as roubou – ficam girando e arrulhando, feito bobas. Eu ia dizer-lhe que essa era uma lei natural, um sabiá ligeiro, sabidamente, leva vantagem diante de pomposas pombas. Mas não falei nada, apenas dei o fora. Depois, fiquei pensando.

E pensei mais antes de escrever, porque passarinho é lance de cronista profissional, o que não é o meu caso, um reles escriba não remunerado. O socialista Rubem Braga, por exemplo, usou e abusou de passarinhos. Quando queria dar uma estocada mais funda, atacava de passarinho. Uma vez fulminou o mais poderoso industrial da época – o conde Matarazzo – com um mísero passarinho. O passarinho bicara o peito do conde para furtar-lhe uma medalhinha presa na lapela. Braga tomou o partido da ave, porque um passarinho, argumentou, canta e voa, enquanto um conde industrial não sabe gorjear nem voar. O industrial gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, das máquinas de aço e de carne que trabalham para ele. O industrial gorjeia com o dinheiro que entra e sai dos seus cofres. Um passarinho não é industrial, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho – escreveu ele.

Muitos acreditam que Braga queria ser um passarinho, mas sua vida nunca foi orientada para isso. Ele queria ser um urubu, porque é maior e mais triste. E tem o bico mais forte. Um urubu, explicou, teria arrancado o coração do conde em vez de tirar-lhe apenas a medalhinha. Braga era um sujeito doce, mas politicamente era um black bloc. No texto contra o magnata, ele diz que a vida é estar num bonde, falando ao motorneiro. É essencial falar ao motorneiro, afirma. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então, ele orienta didaticamente, o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

O que isso tem a ver com o sabiá e a burrice das pombas? Ora, tudo. No reino humano, pequenos sabiás também não fazem mal a ninguém. Quando crescem, param de roubar trocados da avó, nutella do supermercado, toca-fitas usados. O problema é quando o sabiazinho se torna um sabiazão que quer roubar tudo e mandar em todo mundo, daqueles que acham que as pombas nunca enxergam nada e sempre deixam que lhes tirem a comida, a casa, a saúde, a coragem, o riso, e por fim, até a liberdade de arrulhar.

Quando isso acontece, é sinal que o sabiá ladrão ocupou o lugar do motorneiro e se faz de surdo. Às pombas só resta tomar-lhe o bonde das mãos e comê-lo picadinho com farofa. Mas as pombas nada fazem a não ser ficar girando com os olhos pro chão, dando cabeçadas e arrulhando indignadas. Assim como Rubem Braga, também prefiro ser uma ave, em vez de conde. Menos pomba. Pomba não. As pombas definitivamente são burras. E o bico não presta pra nada.

Renascimento à brasileira

Desocupado leitor, dizem que depois dos cinquenta, se você acorda sem nenhuma dor, é porque está morto. Hoje acordei assim, mas ao invés de morto, me senti vivo como há muito não sentia. O único incômodo foi uma sensação de estar na época errada, em alguma década do século passado. Imagine Don Alonso Quijano despertando como Don Quixote, mas sem deixar de ser Don Alonso. Em seus delírios como Cavaleiro da Triste Figura, o pobre fidalgo acreditava estar num tempo antigo, vivendo no presente. Pois eu acredito estar no presente, vivendo um tempo antigo.

O noticiário e as pessoas na padaria dizem que estamos numa nova era, uma espécie de Renascimento, mas abro a revista semanal e vejo uma reportagem sobre a primeira-dama interina do País, igualzinha àquelas que a revista Manchete fazia dos concursos de Miss Universo em 1960. Só faltou o maiô com salto alto, e a moça dizer que seu livro de cabeceira era o Pequeno Príncipe; mas essas coisas ficam subentendidas, mesmo para maus entendedores como eu.

Entro na Internet para conferir o discurso do presidente interino, e surge à minha frente um baixinho igual ao Rui Barbosa, com a cara dura de botox, o cabelo brilhando de gumex, a despejar frases afetadas e incompreensíveis. Senti-me um Sancho Pança tentando decifrar a fala empolada de seu amo. A coisa piorou quando olhei a foto do tal interino com seu novo gabinete. Sabia que já tinha visto aquela cena, mas não lembrava onde. Aí uma alma caridosa postou na rede: era a posse do marechal baixinho Castelo Branco, em 1964, rodeado por seus ministros. Todos homens, todos ricos, todos brancos. E todos velhos. Meu sangue gelou de vez quando vi que o governo interino adotaria o slogan “ordem por base e o progresso por fim”, exatamente como fez a República Velha há 126 anos, isto é, mutilando o lema criado por Auguste Comte, que tinha o “amor por princípio”. Mais um governo sem princípios, disse aos meus dois botões. Mas com muitos fins, responderam eles.

Até a bandeira nacional usada na nova propaganda é antiga, modelo 1964-68, e ouço dizer que a embaixada brasileira na França cancelou a projeção de um documentário sobre nossos impunes torturadores, alegando tratar-se de um tema “delicado”. Tirando a delicadeza da forma, é a velha e brutal censura renascendo das cinzas.

Como sou um otimista incorrigível, creio que esse presente bizarro vai acabar ressuscitando também alguma coisa boa do passado. Por isso, vesti minhas calças vermelhas, tirei do guarda-roupa meu casaco de general cheio de anéis, e agora estou aqui, na frente da TV, tomando uma fanta com gosto de crush, esperando que o Michel Teló se transforme no Taiguara; o Arnaldo Jabor, no Glauber Rocha; e o Malafaia, no Don Helder Câmara. Talvez seja sonhar demais, mas quem garante que a Suzana Vieira não vire uma Leila Diniz? Ou que o Romero Britto não se torne um Portinari, e o meu Palmeiras, uma nova Academia do futebol?

Tantas possibilidades, tantas esperanças. E tantos medos também. Confesso que estou com medo de começar a acreditar no Jornal Nacional. Tenho medo de achar que a cultura é descartável, que a Terra é plana, que somos descendentes de Adão e Eva, e que a corrupção acabou. Só espero conseguir atravessar este dia estranho e maluco sem fazer nenhuma besteira. Tipo imaginar que estou combatendo gigantes, e sair por aí destruindo esses moinhos de vento esquisitos que surgiram nas ruas de uns tempos para cá.

Foliões

João é caixa de banco e quase ficou de fora do carnaval. Maria pegou barriga e ele teve que usar o dinheiro do abadá pra pagar o aborto. As economias foram pro ralo junto com o filho feto. Depois, o agiota negou fogo, por causa da suadeira que levou no último empréstimo. Os amigos, todos lisos. Então ele escolheu a conta de um idoso solitário e falsificou a assinatura num cheque avulso. Pegou um pouco além do abadá: na quarta-feira, assim que chegar da folia, vai comprar um celular novinho pra Maria. Ela anda triste, coitada, depois que tirou a criança.

Valéria, 38 anos, casada, dois filhos pequenos, é executiva financeira em São Paulo. Todo fevereiro, ela tira dez dias de férias e vai desfilar no Rio. O marido não gosta de carnaval e fica em casa, cuidando das crianças. O acordo foi feito quando casaram, e até hoje vem dando certo. Ele aproveita para visitar antigas amizades. Ela volta com muita fome, depois das noites de folia.

Em 1977, um grupo de argentinos escondidos no Brasil recebeu convites para o desfile de escolas de samba. Não conheciam o carnaval. Na primeira noite, uma das moças chorou muito, ao ver a multidão de alienados pulando alegremente – enquanto no subsolo do país o pau comia entre a repressão e a esquerda armada. Ela olhava as mulatas deslumbrantes, e chorava. As mulatas eram deslumbrantes sem fitness nem silicone – ela recordaria muitos anos depois. Na segunda noite, não chorou. No finzinho, tomou dois uísques e ensaiou uns passos e requebros.  Na terceira noite,  achava o carnaval uma legítima manifestação da cultura popular, muito parecida com a murga de sua terra. Sentiu saudades do seu povo. Virou cinco uísques, ergueu os braços, sambou descalça e tomou seu primeiro banho de mar nua. Acordou com a cara na areia, abraçada a um sonho de carnaval de cabelos pretos encaracoladíssimos.

Abelardo era o rei dos mestre-salas. Elegante, olhos doces, sorriso franco, inigualável nos meneios, nos giros, nas meias-voltas. Suas mesuras e torneados arrancavam gritos e aplausos da multidão. Ninguém o superava na cortesia à sua porta-bandeira e na proteção ao pavilhão da escola. Uma TV espanhola chamou-o de Antonio Gades dos trópicos. Durante anos, sua leveza e graça receberam notas máximas, e ele frequentou, junto com sua dama, as capas das maiores revistas e jornais do país. A dama de sua devoção era Eunice, mulatinha esguia de olhos puxados e sorriso de cinema. Em plena avenida, ofegantes e ovacionados, gostavam de se olhar nos olhos e pensar nas evoluções de amor que fariam depois do desfile. Tudo foi muito rápido, naquela noite. Aconteceu num movimento simples, uma mesura banal. Quando vinha em direção ao peito, o chapéu escapou-lhe da mão.  Para evitar que caísse no asfalto, ele esticou demais o braço e rompeu o ombro do paletó. A avenida silenciou. O enredo continuou –  a bateria a mil, o puxador rouco – mas a escola evoluía sem som. Uma coisa assombrosa. A imprensa deu grande destaque. Muitos anos depois, um poeta da velha guarda registrou num samba: “Abelardo fracassou / seu chapéu caiu na linha / seu terno melhor rasgou / seu chapéu caiu na linha / seu terno melhor rasgou / ai…”