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Folia de previsões

Alegria de cronista é acertar de vez em quando uma previsãozinha. Há mais de um ano, quando Eike Batista despencou do 7o para o 100o lugar entre os mais ricos do mundo, escrevi que a falência estava à vista, e duvidava que ele se desfizesse de um único bem – ao contrário do Barão de Mauá, que ao falir leiloou tudo o que tinha, foi morar de aluguel e não deu prejuízo a ninguém. Uma pena, eu dizia, porque adoraria dar um lance no carrão que Eike guardava na sala. Dito e feito. Foi preciso força policial para tirar uns míseros celulares daquele que se proclamava um dos homens mais generosos do mundo.

Animado por essa profecia certeira, atrevo-me a fazer outras previsões para este ano que começa depois do carnaval. Prevejo que a Petrobrás não será privatizada, e seus papéis subirão como foguete após o saneamento da Lava Jato. Se eu tivesse um dinheirinho sobrando, faria como o mega-especulador George Soros: compraria PETR4 hoje mesmo. Ou então venderia minha quitinete em Miami, compraria uma mansão em Cuba – ainda estão baratíssimas – e desfrutaria do paraíso que aquela ilha vai ser em breve.

Uma previsão é particularmente dolorosa para mim: o Palmeiras não será campeão este ano. Mas vai dar a volta por cima, e disputar a Libertadores. Não ganharemos nenhum Oscar agora, nem depois, e nem depois. Em compensação, Paolla Oliveira continuará a nos dar alegrias na tela, e os surfistas a nos dar orgulho no esporte.

O compromisso com a verdade me obriga – mesmo correndo o risco de estragar a festa de alguns foliões – a falar de coisas polêmicas que vejo em minha bola de cristal. A primeira: não haverá impeachment da presidente. Por vários motivos, mas principalmente porque a maioria dos políticos, empresários e a grande mídia não vão embarcar nessa onda. Fugirão da raia não por simpatias com Dilma ou com seu desastrado governo, mas por medo. Alegarão o risco de uma ruptura democrática de consequências imprevisíveis – que existe de fato – mas o motivo verdadeiro é o medo dos impeachments em cascata, incontroláveis e capazes de ceifar todos os governadores e prefeitos metidos em encrencas. Vejo também que Dilma não vai renunciar. Se renunciar, não será Dilma.

Outra imagem visível em minha bola de cristal: o próximo presidente do Brasil será… Luis Inácio Lula da Silva. Pela simples razão de não existir, agora e nos três anos vindouros, alguém capaz de derrotá-lo nas urnas. O sobrinho de Tancredo é um político provinciano, que não ganha em sua própria província. O governador de São Paulo não sairá vivo do atoleiro seco em que se meteu, e se sair, será atropelado por um cartel de trens. Marina é uma esperança, mas como uma Penélope morena, nunca acaba de tecer sua rede. Eduardo Campos era uma ameaça real, mas o destino tolheu-o em pleno vôo. Assim, vejo o sapo barbudo voltando nos braços do povo e malhado pela imprensa, feito Getúlio. A única diferença é que não terá opositores com a altura de Carlos Lacerda. Mesmo que tenha ao seu lado pessoas com a baixeza de Gregório Fortunato.

Segundo minha experiência de futurólogo, fortes chuvas de gente e trovoadas de gritos podem alterar essas previsões políticas. Mas esse tipo de chuva cívica, ultimamente, só tem caído no Paraná. No resto do país a estiagem é desoladora. Viro e reviro minha bola de cristal, mas só consigo enxergar chuvas de confetes. E mais de mil palhaços no salão.

Idiotices

Há oito meses, quando começaram a surgir os primeiros sinais de problemas no grupo OGX, escrevi que não considero Eike Batista um sujeito sério, que ele não possui a têmpera de um verdadeiro milionário, e que provavelmente iria falir salvando o que pudesse para si e se lixando para credores, parceiros e investidores.  Alguns dias atrás, Eike teve aprovado seu pedido de recuperacão judicial – novo nome para a velha concordata. Ou o velho calote.

O que me faz voltar a esse assunto não é a falência das empresas “X”, mas aquilo que a grande mídia “isenta” está apontando como a causa da quebra: o governo do PT e seus aliados! Seria cômico, se não fosse sério. Virou moda atribuir aos petistas a culpa de tudo que acontece de ruim neste país. Mesmo que o ruim seja bom. É a tática do “onde tem virtude eu tiro, onde não tem defeito eu boto”. Esta semana voltou a circular uma piada ilustrativa, dizendo ser culpa do PT essas frentes frias no final do ano. Afinal, quem mandou elevar o Brasil a níveis de primeiro mundo? Agora teremos neve no natal.

Segundo a grande imprensa, o governo e Eike criaram uma bolha de ilusão e navegaram com os bons ventos do BNDES, Banco do Brasil e Caixa Federal. Quando a bolha furou, o governo caiu fora e deixou o empresário a ver navios. Pobre Eike, abandonado por Luma, depois pelos investidores, e finalmente pelo governo. Sim, Eike agora é vítima. Mais uma vítima do PT e seus asseclas. Um jornalão chegou a pedir transparência no uso do dinheiro do BNDES, para que esses “erros” do governo não se repitam.

Ora, os critérios do BNDES para aprovação de projetos são públicos, transparentes e de boa qualidade técnica. Digo isto com base em meus 40 anos de experiência bancária. O problema é que as decisões de crédito foram tomadas sobre dados forjados pelas empresas de Eike. Em outros grandes bancos privados, como Itaú e Santander – também ameaçados de calote – aconteceu o mesmo. E os maiores perdedores nem são bancos, que em geral fogem de negócios com óleo e gás por não terem garantias reais. Muito mais irão perder alguns grandes fundos de investimentos, nacionais e estrangeiros. No caso do BNDES, foram exigidas garantias adicionais de fianças bancárias, o que reduz muito a possibilidade de perda de dinheiro público.

Apesar das evidências de informações privilegiadas nas vendas de ações, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda não decidiu se vai investigar o grupo. Se investigar, tenho certeza que irá encontrar  um conglomerado dirigido por um supersticioso cego pela vaidade, cercado de oportunistas, manipuladores e fraudadores ávidos por bônus milionários – que deveriam ser restituídos à massa falida.

É evidente que o governo surfou politicamente na onda do grupo OGX. Seria idiotice não fazê-lo. Mas acreditar que a ascensão e a queda foram causadas por Brasília é idiotice maior ainda. Eike dizia que suas empresas eram à prova de idiotices. Espanta-me que ninguém tenha percebido o tamanho da idiotice contida nessa frase.