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Anamnese

Trabalho há décadas em escritório. Elevadores lotados, corredores cheios, banheiros coletivos, muita reunião em sala fechada. Privacidade zero.
Gosto de comer e também de cozinhar. Sou leitor fiel da Nina Horta e do Márcio Alemão. Por força de uma prima educadora, cedo tive consciência de que o homem é o que come. Por essas e outras, sempre tive uma alimentação saudável e balanceada.

Mas os gases me torturavam. Um flagelo. Durante anos sem poder soltá-los à vontade, inflei-me em cólicas. Muitas vezes, em pleno sofrimento, precisava ser simpático com chefes, clientes, colegas. Rangia sorrisos e torcia frases espirituosas, sorrindo por fora e retorcendo-me por dentro. Na primeira brecha, fugia para as escadas, para os halls, para a rua. Ah, flâmulas da liberdade ao vento…

Minha empresa tem convênio médico top de linha. Checkup nos melhores hospitais de Sampa. Todos os anos, queixava-me para os clínicos, para os gastros, para as nutricionistas. Invariavelmente, recebia como resposta uma dieta anti-gases: um monte de coisas que eu não conhecia, não sabia onde comprar, muito menos como preparar. Depois de semanas buscando os exóticos ingredientes, mandava a dieta às favas e tocava a vida. Isto é, os gases.

Um dia – não lembro mais o motivo – fui a um homeopata. Nenhum figurão. Um médico comum, de bairro, duzentos paus a consulta. No final, ele perguntou “mais alguma queixa?” Com as tripas já doloridas às 8 da manhã, soltei um flácido e desesperançado “gases”. Displicentemente, ele retrucou “o que você come?”. Contraí-me na cadeira como fígado em chapa quente. Senti algo novo e forte no ar. Olhei fixo pro sujeito. Nunca ninguém tinha perguntado o que eu comia. Ao contrário, todos me diziam o que eu precisava comer. “É meio óbvio”, ele disse. “Você tem gases por causa das coisas que come. E então, o que você come desde que acorda até a hora de dormir?”

Arrepiei-me da cabeça aos pés. Minhas narinas dilataram. Os olhos marinaram. Tive vontade de beijar o cara, como Helen Hunt em “Melhor é Impossível”, frente ao médico que diagnosticara a alergia do seu filho. Aos borbotões, pus prá fora tudo o que eu comia. Senti-me esvaziado, apesar do ventre flambando. Com um tom banal, ele falou “você está comendo muita fibra. E muito doce também. Reduza os dois.”

Reduzi. No dia seguinte, o sol voltou a brilhar – flamejante como nunca. Desde então, quando vejo alguém vendendo um exotismo nutricional – linhaça, blueberry, quinua, etc. – sorrio internamente. Invade-me um leve desejo de vingança. Quase sinto vontade de soltar um. Mas não tenho mais gás pra isso.

UTI

Fiquei cinco dias no hospital, por causa de umas bactérias desocupadas que resolveram ocupar meus pulmões, já combalidos por 40 anos de tabagismo e poluição. Em termos técnicos, tive uma pneumonia por microorganismo não especificado.

No primeiro dia, por falta de leito na enfermaria, puseram-me na UTI, um lugar habitado por gente que não anda nem fala. Só geme. Pois ali, entre plugues, veias puncionadas e máscaras de inalação, surgiu Bete, assistente de enfermagem que me ensinou a vestir e usar uma camisola. Recifense, robusta, casada e evangélica. O marido vai morrer do coração, mais dia menos dia. É um santo, que guarda tudo. Ela, não. Um dia, no trânsito, quase surtou. Imaginou-se caminhando sobre os carros, aos gritos, afundando tetos e capôs. Teve medo. Ligou pro marido e foi salva pela voz angelical.

Deslumbra-se ao saber que sou jornalista. Tem fascínio por quem sabe escrever. Ela já tentou de tudo para aprender, fez cursos, contratou professor particular. Pensou em fazer faculdade de letras. Está cansada de fugir de concursos que exigem redação. Isto é um bloqueio em sua vida, impede-a de crescer, de se expandir. Como aprender?, pergunta. Lendo tudo o que você gosta, respondo. Ela me olha meio desconfiada e se põe a organizar meu prontuário. Isso aqui não pode ter erro, são vidas humanas, afirma.

Surgiu vaga na enfermaria, vou ser transferido. Ela empurra minha cadeira de rodas: não há problema quando existem regras, como o “m” antes do “p” e “b”. O difícil é quando não tem regra. Entramos no elevador. Desilusão, por exemplo. Hoje, depois de aprender sozinha, ela sabe que é com “z”. Digo-lhe que desilusão não tem “z”. O elevador dá um tranco ao chegar no andar. Ela se assombra: ué, mudou? Acho que sim, respondo. Ela caminha ligeiro pelos corredores lotados. São Paulo é muito bom, diz. Mas está… como é a palavra? Ela podia falar cheia de gente, ou tem gente demais, mas busca a palavra exata, o significado preciso. Resolvo arriscar: saturada? Isso! Sa-tu-ra-da, ela saboreia cada sílaba e acelera na rampa de cadeirantes. Seguro meu prontuário com as duas mãos sobre as pernas.

Diz que quer voltar para Recife, aprender a escrever. Sua história é riquíssima, garante. Ainda vai escrever a sua… como é a palavra? De novo, poderia dizer história de vida, ou coisa parecida. Mas busca a palavra certa, o termo uno e único. Biografia, digo. Isso! Biografia!, exclama abrindo a porta do meu novo apartamento.

Parada com a cadeira de rodas vazia, olha-me e diz que ainda ouvirei falar dela. Elizabete Virgínia!, guarde esse nome, arremata fechando a porta. Não lhe disse que lutar com palavras é a luta mais vã, segundo Drummond. Tenho certeza que ela aprenderá a escrever. Qualquer um que procura e saboreia palavras desse jeito, acaba conseguindo. Ainda mais se tiver uma história, como é o caso de Elizabete Virgínia – um nome a se guardar.