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Braga, Hemingway e eu

Hoje me sinto um Rubem Braga. Depois de muito tempo, resolvi praticar aquilo que eu e o cronista de Itapemirim mais temos em comum. Claro que o velho Rubem era muito melhor na coisa, além de ser bem mais talentoso para o ofício, reconheço. Suas proezas são famosas e podem ser lidas com deleite em coletâneas bem editadas, enquanto as minhas nem proezas são – quanto mais famosas ou bem editadas. Não, não estou falando de crônicas; estou falando de pescarias.

Braga gostava de pescar no mar, próximo à costa, buscando peixes de tamanho médio, ligeiros e bons de briga, como anchovas, douradas, cavalas. Aos 22 anos ele era um pescador experiente, e nessa idade, escreveu uma crônica que é uma verdadeira obra-prima. Não tem nenhum peixe na história, apenas uma pescaria comum: levantar antes de raiar o sol, comprar iscas frescas, pegar sanduiches e água. Depois tem os pés na areia molhada de orvalho, o cheiro da maresia, o bote, o remo, as manobras pra vencer as ondas, a leitura do vento e das nuvens, o sol, o balanço da água. E tem a moça que ele levou junto, enamorado, para mostrar a ela a beleza do mar, o mistério do mar, a paixão que brota do mar. Queria mostrar a ela que pescar é um ato cheio de amor e poesia, mas a jovem não enxerga o que ele enxerga, não sente o que ele sente, não entende o que transborda pelos olhos dele. Ela não quer pescar, quer comer o sanduíche antes da hora certa e saber quando irão embora. Ele se dá conta, então, que ela é da terra, irremediavelmente da terra; um ser estranho naquele mundo marinho ao qual ele pertence como um peixe, mas ela nunca pertencerá. Desencantado, ele recolhe as linhas, o desejo e a poesia; e embica o bote para o continente.

Outro pescador dos bons era Ernest Hemingway, que gostava dos grandes peixes que habitam as profundas correntes oceânicas. Para Hemingway, pescar era testar os limites humanos. Mais do que uma luta do homem contra o peixe, uma luta do homem contra o homem. A novela do velho que pescava sozinho num bote, na corrente do Golfo do México, e que depois de 84 dias sem pegar um peixe fisga um marlim colossal, rendeu-lhe o prêmio Nobel de literatura. Mas em seu último romance – “As ilhas da corrente” – uma obra declaradamente autobiográfica, Hemingway volta a narrar outra pescaria épica, também de um marlim de 400 quilos, só que agora fisgado por um garoto de 12 anos. Como na história do velho e o mar, não há vencedor nem vencido: depois de um dia inteiro de batalha o gigantesco peixe consegue fugir, e o menino consegue sobreviver à dor de ver o troféu escapar-lhe pelas mãos ensanguentadas.

Minhas pescarias não são poéticas como as de Braga, nem heroicas como as de Hemingway, mas não deixam de ser literárias. Meu negócio são os rios, lagoas, essas águas pequenas. Enquanto pesco, fico imaginando que escrever nada mais é do que lançar um anzol nas águas da imaginação para fisgar palavras. O tema é a isca que pode atraí-las. Algumas surgem do nada e engolem a isca inteira. Outras se aproximam desconfiadas, cheiram o anzol, dão umas beliscadinhas e vão embora. As palavras, como os peixes, gostam de silêncio. Qualquer barulho as assusta, qualquer gesto brusco as afugenta. Sempre fico feliz quando consigo fisgar uma tilápia, um piau, um lambari que seja. Tirá-las da água, isto é, colocá-las no lugar exato dentro do texto, é a parte mais difícil. Às vezes exige heroísmo, como em Hemingway; outras vezes amor e poesia, como em Rubem Braga. E no final tudo pode ser apenas mentira, como em todas as histórias de pescador. Mas isso não tem a menor importância.

A difícil arte

Volta e meia entro na internet em busca de palavras e assuntos aleatórios, só pra ver o que aparece. É divertido, muitas vezes óbvio ululante, e às vezes surge algo diferente e interessante. Nesta semana, em conversa com amigos, descobri que existe em Maringá um fã-clube secreto de Ivan Lessa (não vou detalhar quem é Ivan, vire-se sedentário leitor). A lembrança desse genial não-escritor – e de um conto seu chamado “A difícil arte de não escrever” – me acendeu a curiosidade de saber que outras difíceis artes poderiam estar disponíveis na web. Encontrei várias, infelizmente óbvias em sua maioria, e nem sempre resistentes a um olhar crítico.

Eis a lista devidamente comentada, na ordem apresentada pelo Google:
a difícil arte de amar (concordo, mas ser amado requer muito mais engenho e empenho),
a difícil arte de seguir em frente (me parece fácil, difícil mesmo é seguir pelas veredas tortuosas),
a difícil arte de amar on line (facinho facinho, até as crianças estão fazendo),
a difícil arte de ensinar (essa é moleza, todo mundo pratica; difícil de verdade é aprender),
a difícil arte de ser mãe (há controvérsias, ser filho também não é fácil; madrasta então, nem se fala),
a difícil arte de ver Rubem Alves (erro do Google; foi Rubem que escreveu algo sobre o problema de enxergar – embora eu concorde que ver ou ler Rubem Alves é arte das mais áridas),
a difícil arte de dizer não (difícil, mas tá cheio de neguinho que é mestre nisso; políticos pegos com a mão na cumbuca, por exemplo),
a difícil arte de dizer não aos filhos (válido para classes A e B; nas classes C e D, pedreira mesmo é conseguir dizer sim aos barrigudinhos).

No fim da lista vinha a supostamente difícil arte de escrever e algumas das suas aplicações, como escrever um telegrama. Nem sei se ainda tem gente que escreve telegramas. E escrevê-los não me parece difícil, pois a nova teclagem digital é neta da velha linguagem telegráfica. Complicado seria atualizar algumas abreviações, saber por exemplo que “pt saudações” não é um conjunto de punhos erguidos.

Mas escrever não é difícil – como sacou Ivan Lessa. Qualquer um pode escrever um livro. Mesmo que não sejam bons, livros são úteis como peças de decoração, suporte para pernas de mesas, ou pesos para musculação. Ivan dizia que escrever livro é coisa de pobre, de gente que lê a Veja. Difícil de verdade é não escrever. Não incomodar os demais, ocupados com seus “mistérios e empombações”. Fale baixo, recomendava ele.

Ivan Lessa não tinha piedade de quem se acha, dos presunçosos, dos arrogantes, dos pedantes, dos malas, dos exibicionistas, dos interesseiros, dos hipócritas, dos certinhos, dos aduladores, dos donos da verdade, dos pseudos em geral.

A arte mais difícil, para ele, era ser menos, ser pouco, ser leve. Tinha um humor corrosivo, que usava tanto para atacar e denunciar (“no Nordeste, vomitar é sinal de status”), quanto para enfrentar os perrengues da vida. Pouco antes de sair de cena, disse que a morte era a cura definitiva da calvície, e torcia para que existissem virgens do outro lado. Eu não tenho problemas de calvície. E torço para que não existam virgens do lado de lá. Assim, quem sabe, num ataque de secura, Ivan volte para cá.

UTI

Fiquei cinco dias no hospital, por causa de umas bactérias desocupadas que resolveram ocupar meus pulmões, já combalidos por 40 anos de tabagismo e poluição. Em termos técnicos, tive uma pneumonia por microorganismo não especificado.

No primeiro dia, por falta de leito na enfermaria, puseram-me na UTI, um lugar habitado por gente que não anda nem fala. Só geme. Pois ali, entre plugues, veias puncionadas e máscaras de inalação, surgiu Bete, assistente de enfermagem que me ensinou a vestir e usar uma camisola. Recifense, robusta, casada e evangélica. O marido vai morrer do coração, mais dia menos dia. É um santo, que guarda tudo. Ela, não. Um dia, no trânsito, quase surtou. Imaginou-se caminhando sobre os carros, aos gritos, afundando tetos e capôs. Teve medo. Ligou pro marido e foi salva pela voz angelical.

Deslumbra-se ao saber que sou jornalista. Tem fascínio por quem sabe escrever. Ela já tentou de tudo para aprender, fez cursos, contratou professor particular. Pensou em fazer faculdade de letras. Está cansada de fugir de concursos que exigem redação. Isto é um bloqueio em sua vida, impede-a de crescer, de se expandir. Como aprender?, pergunta. Lendo tudo o que você gosta, respondo. Ela me olha meio desconfiada e se põe a organizar meu prontuário. Isso aqui não pode ter erro, são vidas humanas, afirma.

Surgiu vaga na enfermaria, vou ser transferido. Ela empurra minha cadeira de rodas: não há problema quando existem regras, como o “m” antes do “p” e “b”. O difícil é quando não tem regra. Entramos no elevador. Desilusão, por exemplo. Hoje, depois de aprender sozinha, ela sabe que é com “z”. Digo-lhe que desilusão não tem “z”. O elevador dá um tranco ao chegar no andar. Ela se assombra: ué, mudou? Acho que sim, respondo. Ela caminha ligeiro pelos corredores lotados. São Paulo é muito bom, diz. Mas está… como é a palavra? Ela podia falar cheia de gente, ou tem gente demais, mas busca a palavra exata, o significado preciso. Resolvo arriscar: saturada? Isso! Sa-tu-ra-da, ela saboreia cada sílaba e acelera na rampa de cadeirantes. Seguro meu prontuário com as duas mãos sobre as pernas.

Diz que quer voltar para Recife, aprender a escrever. Sua história é riquíssima, garante. Ainda vai escrever a sua… como é a palavra? De novo, poderia dizer história de vida, ou coisa parecida. Mas busca a palavra certa, o termo uno e único. Biografia, digo. Isso! Biografia!, exclama abrindo a porta do meu novo apartamento.

Parada com a cadeira de rodas vazia, olha-me e diz que ainda ouvirei falar dela. Elizabete Virgínia!, guarde esse nome, arremata fechando a porta. Não lhe disse que lutar com palavras é a luta mais vã, segundo Drummond. Tenho certeza que ela aprenderá a escrever. Qualquer um que procura e saboreia palavras desse jeito, acaba conseguindo. Ainda mais se tiver uma história, como é o caso de Elizabete Virgínia – um nome a se guardar.