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O escritor imaginário

O escritor imaginário imagina que é escritor. É uma síndrome comum, que geralmente acomete as vítimas na adolescência e perdura pela vida afora conforme a gravidade de cada caso. A maioria consegue curar-se quando o mundo começa a impor responsabilidades, como trabalhar, casar, pagar o apartamento e o carro usado, mas a verdade é que ninguém, uma vez atingido pela enfermidade, se recupera plenamente.

Existe escritor imaginário que imagina escrever poesias, contos, romances inclusive. Às vezes, consegue até publicá-las. Quando isso acontece, e muita gente ama ou odeia, mas todos devoram a obra fresca no mercado, estamos diante do escritor imaginário de sucesso real, o chamado sucesso de público. Como um bruxo, ele não apenas imaginou-se escritor, mas fez milhões de pessoas imaginarem a mesma coisa. Paulo Coelho é o mais bem sucedido caso desse tipo. Nunca antes na história deste País alguém conseguiu, como ele, vender tanto a tantos, durante tanto tempo. Particularmente, não acho isso ruim, e duvido que haja brasileiro que não se envaideça um tiquinho, mesmo cuspindo de lado, em ser compatriota de Dom Paulete, nosso mago imortal, definitivo e muito bem biografado.

Outro escritor imaginário imagina que ser escritor é publicar livros. Paga do próprio bolso pequenas edições (que só os amigos compram), na noite de autógrafos (paga do próprio bolso) capricha nas dedicatórias, e tempos depois fica chocado ao ver sua obra jogada no canto de um sebo, na pilha do 1,99, com dedicatória, manchas secas de champanhe e tudo. Com o bom senso enfraquecido pela síndrome, ele imagina que publicar um livro é elevar-se acima dos mortais, é tornar-se um messias, um herói, alguém capaz de transformar em beleza o horror da vida, de revelar os mistérios do mundo, de enxergar com um só olhar todo o universo.

Há, de fato, escritores que conseguem essas proezas. São os casos mais graves e incuráveis da síndrome. Sua doença consiste em ganhar – ou perder – a vida escrevendo. Escrevem relatórios, projetos, monografias, contratos, matérias de jornais, campanhas, anúncios, cartões de natal, às vezes até obras em nome de outros. E na calada da noite, ou ao raiar do dia, ou sempre que estão sozinhos – a louça lavada e o computador finalmente sem ninguém –  escrevem o que eles imaginam que um verdadeiro escritor escreve. Escrevem contos, versos, peças, novelas. Poucos chegam ao heroísmo de um bom romance, é verdade, mas muitos estão se dando razoavelmente bem usando a internet como escrivaninha. Vários deles – alguns entrados nos cinquenta – nunca publicaram um livro sequer, mas continuam imaginando que são escritores, continuam escrevendo e sofrendo e arfando em busca do aleph de todos os significados, que surge na noite e desaparece no dia, presente e inalcançável como os amores do passado; aquela palavra, frase ou verso capaz de – como dizia um escritor inglês – dar uma sensação do que há na vida de complexo, terrível, resplandecente e nebuloso.

Dia desses, descobri mais um tipo de escritor imaginário: o cronista. Isso mesmo. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues? Todos escritores imaginários que imaginávamos escritores. Ao contrário do que pensavam esses doentes, crônica não é literatura. Se fosse, estaria entre os gêneros do concurso literário anual da Fundação Biblioteca Nacional, instituído pelo Ministério da Cultura, que premia com R$ 30 mil – R$ 21.000 sem impostos – obras e autores pela sua qualidade literária, originalidade e contribuição à cultura do país. Ela, justamente ela, o produto brasileiro mais apreciado no exterior depois do futebol, dos travecos e dos corruptos endinheirados, está fora do rol do Minc. Pelo que se vê no edital, a crônica não preenche os requisitos de uma boa literatura, não traz nenhuma contribuição à geléia geral da nossa cultura, como faz e deve fazer a literatura de verdade, seja de que gênero for. Para os sagazes governantes culturais, a crônica – assim como teatro e biografias, também excluídos do negócio – não é de verdade. É apenas uma literatura imaginária, feita por escritores imaginários, revisada e publicada por editores imaginários, e lida por você, meu atento e imaginário leitor.

A alma das ruas

Foto Hildegard Rosenthal, Av. Angélica 1940

Acho saudável trocar os nomes de ditadores que batizam nossas ruas e praças por nomes mais sintonizados com a democracia vigente no país. Os nomes das ruas não indicam somente as pessoas, as coisas e os acontecimentos que uma comunidade valoriza; eles também revelam a alma do lugar.

Getúlio Vargas é um exemplo vivo disso. No Rio, ele é a principal artéria do centro, chamada solenemente Avenida Presidente Vargas. Mas em São Paulo – cidade conhecida pelo seu amor às próprias tradições e pelo ódio a líderes populares – Getúlio é nome de uma pequena rua num bairro de periferia, o Jardim Rosinha. E sem o cargo de presidente.

Vargas foi banido do centro, mas está em excelente companhia no Jardim Rosinha. O bairro tem alma musical: a rua Noel Rosa passa pela rua Dalva de Oliveira, cruza com a Vinicius de Morais e desemboca na Cazuza. A alma do Rosinha também é de esquerda. Lá você pode morar na rua Carlos Marighella, trabalhar na rua Betinho, namorar na Olga Benário e passear pela Xambioá. Aos domingos, pode ir à missa na praça Santo Dias.

As ruas mostram que São Paulo não gosta muito de literatura, talvez porque os maiores escritores nacionais não sejam paulistas. O capixaba Rubem Braga sequer transita pela sede do município: é uma viela de um quarteirão só, em Barueri. Cecilia Meirelles, carioca, foi confinada ao Jardim Japão, onde liga a Avenida das Gueixas à Avenida das Cerejeiras. O mineiro Carlos Drummond de Andrade – que no Rio ganhou até estátua na praia – também foi varrido para a periferia paulistana. Mas é outro que se deu bem: virou uma ruazinha na Vila Nova União, entre a Raul Seixas e a Adoniran Barbosa. Pertinho da travessa do Rio Encantado.

Machado de Assis talvez seja o maior injustiçado em São Paulo. A via com seu nome é uma ruela insignificante, estreita, com apenas sete quarteirões, na Vila Mariana. Porém, não muito longe dali, três ruas tem muito a ver com Machado. Uma é a Zacarias de Góis, político conservador e ministro da Monarquia, vítima habitual do mordaz Machado quando jovem. Talvez para calar a pena de Machadinho, Zacarias nomeou-o para o serviço público, dando-lhe o sustento material e a posição social que lhe permitiram dedicar-se às letras. Machado não foi ingrato, e na velhice traçou elogioso perfil de Zacarias.

A Zacarias de Góis é cortada pela rua Joaquim Nabuco. O velho Nabuco também era político do Império, e no senado sentava-se atrás de Zacarias, com quem confabulava o tempo todo. Seu filho Joaquim Nabuco, grande diplomata e abolicionista, foi amigo íntimo e conselheiro de Machado de Assis por toda a vida.

Quem também cruza a Zacarias de Góis é a rua Otávio Tarquínio de Sousa. Otávio foi marido de Lúcia Miguel Pereira – autora da primeira grande biografia e estudo crítico da obra de Machado, publicada 28 anos depois da morte do escritor. Lúcia e Otávio morreram em 1959, num acidente aéreo. Alceu Amoroso Lima e Carlos Lacerda escreveram crônicas lamentando a perda do casal.

Chegando em Lacerda caímos de novo em Getúlio, e voltamos ao começo desta jornada, perdidos no labirinto de vidas que dão nome às ruas de outro labirinto: o labirinto das almas, com suas esquinas e becos das paixões e ilusões. Quase sempre, encruzilhadas. Quase sempre, sem saída.

Alma de rato

Já tive vontade de sair pra comprar cigarros e não voltar. No bolso, dinheiro para pegar um ônibus ou um trem, ficar uns dias num hotel barato, almoçar, talvez jantar. E só. Na nova cidade, arrumaria trabalho, faria amizades, encontraria um novo amor. Levaria uma nova vida, sem cometer erros de iniciante. Construiria uma nova carreira, uma nova casa, uma nova família, quem sabe novos filhos. Ficaria sócio de outro clube, frequentaria outra padaria, torceria para outro time. Escolheria outra cor favorita, outro prato predileto. Usaria roupas diferentes, gostaria de pagode, acreditaria em duendes. Olharia para outra vizinha. Faria promessas a outro santo. Em pouco tempo, estaria com vontade de sair novamente para comprar cigarros. Mesmo que tivesse parado de fumar.

Também já imaginei se aquele poeminha besta falando de amor ou de sofrimento, que rabisquei quando tinha treze anos, em vez de parar no meio de um caderno velho lançado ao lixo, parasse nas mãos de um grande editor que visse naquelas mal traçadas a linha promissora de um carretel literário, e com isso alterasse meu futuro, transformando minha vida insípida, inodora e incolor, minha vida de rato, de funcionário anônimo, de monotonia, de submissão, de inveja, de enfado, de contas a pagar, de miudezas em geral, numa vida glamurosa de autor best seller, cheia de viagens a lugares paradisíacos, noites de autógrafos, entrevistas na TV, almoços de negócios, jantares com estrelas, sessões de fotos, feiras literárias, reuniões com agentes, com editores, com advogados, uma vida de sonhos, mas na realidade sujeita a problemas de tradução, acusações de plágio, escândalos na imprensa, chantagens, uma vida de invejas, de críticos desonestos, descumprimentos de contratos, de prazos, de palavras, uma avalanche de compromissos se avolumando, cobrindo-me a cabeça, transformando meus dias em pedras, minhas noites em pesadelos, uma presa fácil numa caçada cheia de trapaças, dando-me vontade de gritar, de explodir, de virar pó, de voltar a ser nada, ter uma vida insípida, inodora, incolor, uma vida de funcionário anônimo, monótona, feita de pequenezas e nada mais.

Sempre que estou de saco cheio da vida, penso também numa historinha que li não sei onde: um rato, cansado de viver fugindo, pediu a Deus que o transformasse num gato. Deus estava de bom humor, e transformou-o num deslizante felino. Imediatamente, surgiu um bando de cachorros em seu encalço. Desesperado, ele miou a Deus para transformá-lo num cachorro, pois vida de gato não era vida de gente. Deus atendeu-o, mas o novo cachorro logo se viu encurralado por uma alcatéia de lobos famintos. Nova súplica, outra transformação, e ele agora viu-se na pele de um lobo, perseguido por um bando de caçadores implacáveis. Aflito, uivou a Deus para que o fizesse homem, mas Deus o fez novamente rato, dizendo: “não importa em quê Eu o transforme, você terá sempre a alma de um rato”.

Hoje não fumo mais. Mas de vez em quando ainda sinto aquela vontade de sair pra comprar cigarros. Quando isso acontece, respiro fundo e pergunto: quem está querendo sair, eu ou minha alma de rato? Até agora, a resposta é sempre a mesma.

Os esquecidos

Hoje é o encerramento da maior festa literária do Brasil, realizada em Parati por uma editora inglesa. O homenageado deste ano, Millor Fernandes, dispensa comentários: é um daqueles imortais que foi e será, sem nunca ter sido. Eu gostaria de ter ido na festa apenas por três jornalistas-escritores: o brasileiro Sérgio Augusto, o norteamericano David Carr, e o mexicano Juan Villoro. Um não tem nada a ver com o outro – mas escrevem muito bem e produzem encanto literário.

Sérgio Augusto é o último jornalista cultural sobrevivente do Pasquim, ainda na ativa, com uma coluna semanal no Estadão. Fazia a santíssima trindade intelectual do jornal, junto com Paulo Francis e Ivan Lessa – já falecidos. Millor reinava à parte, talvez um pouco acima deles. Sérgio é um deleite para a inteligência, navega com simplicidade, elegância e humor pelas águas da literatura, do cinema, da música, do teatro, da política, da filosofia, do showbizz, da história enfim.

David Carr é uma das estrelas do New York Times, com extensa ficha médica e policial, devido ao seu histórico de alcoolismo, drogas, sexo e encrencas. Só conseguiu se manter limpo e sóbrio depois de revisitar o próprio passado, numa reportagem auto-biográfica. Ele nada mais fêz do que o Quarto Passo dos Alcoólicos Anônimos, isto é, um minucioso e destemido inventário de si mesmo. O resultado não é recomendável para leitores de estômago sensível. O próprio NYT sentiu engulhos ao saber que tinha na folha de pagamento um cinquentão traficante, alcoólatra, explorador de mulheres, viciado em crack, que escreveu sua história não para ajudar a humanidade, mas para salvar a si mesmo de uma outra – e mortal – recaída. Além de brilhante, Carr é honesto, demasiadamente honesto.

Juan Villoro é um mexicano criado em Berlin e torcedor do Barcelona. Talvez seja o maior escritor mexicano vivo. Uma das raras pessoas a merecer de Roberto Bolaño uma dedicatória num conto, Villoro é um cronista sarcástico e um corajoso narrador da violência social em seu país, capaz de produzir histórias infanto-juvenis e críticas ácidas ao universo das redes digitais – segundo ele uma armadilha que está atraindo milhões de jovens e destruindo a capacidade intelectual desta geração e das próximas também.

Eu colocaria esses três numa possível academia internacional de letras. Villoro, aliás, acaba de ser nomeado para o Colégio Nacional, espécie de ABL mexicana. Mas para mim, essas agremiações não contam. São todas fruto de “um pacto entre espíritos amigos”, como dizia Graça Aranha. Semana passada alguns leitores deploraram o fato de existirem não-escritores na Academia. Infelizmente, a mazela é internacional. Segundo Josué Montello, desde que Richelieu fundou a Academia Francesa, “só se é acadêmico andando nas boas graças oficiais”.

Minha Academia Internacional teria milhares de membros, vivos e mortos, todos fora das “boas graças oficiais”, como Rimbaud, Lima Barreto, Ginsberg, Leminski, Ana Cristina César, Poe, Zé Mauro de Vasconcellos, Hilda Hilst, Carver e outros menos cotados. Todos usariam pseudônimos, como os membros da Academia dos Esquecidos, a primeira fundada no Brasil em 1724: Obsequioso, Nubiloso, Ocupado, Menos Ocupado, Laborioso, Vago, Venturoso. Tratariam a literatura como resistência humana. Tratariam de temas frívolos, brincariam de poesia concreta, escreveriam sátiras e acrósticos. E fariam com que a fantasia, a alegria, o afeto, a aventura e a rebeldia jamais fossem esquecidos.

A morte dos imortais

Nossos imortais estão morrendo à razão de um por semana. Nos últimos 25 dias, foram-se o poeta Ivan Junqueira, o buda ditoso João Ubaldo e o encantado Ariano Suassuna. Isso nunca aconteceu antes. Depois da Copa, o mundo perdeu o respeito pelo Brasil. Qualquer um – inclusive a morte e o ministro de Israel – acha que pode nos enfiar reveses e desaforos à vontade.

O pior é que na Academia Brasileira de Letras a média atual de idade (excetuando três moços abaixo dos 70) é de 80 anos. Existem quatro imortais com mais de 90, e um centenário: o advogado Evaristo de Moraes Filho. Está fácil para a morte fazer mais quatro ou cinco gols, igualando e até superando a marca alemã.

Forçada por essas nefastas circunstâncias, a ABL terá que renovar o time. Tenho pouquíssimas expectativas quanto a isso. Como a Seleção, ela só vai repor jogadores, sem alterar os critérios de escalação e sem mexer na forma de jogar. Continuará a ser um convescote de octogenários ligados ao poder, mas que pouco – ou nada – tem a ver com literatura de verdade. As exceções existem, e apenas confirmam a regra.

Não me refiro somente a Sarney e FHC, exemplos notórios dessa aberração, nem a Nelson Pereira dos Santos e Ivo Pitanguy – grandes em suas áreas, mas sem nada que os autorize a sentar nas cadeiras de Castro Alves e Euclides da Cunha. Também me repugnam as escolhas de não-escritores completamente desconhecidos. Como o professor de filosofia Tarcísio Padilha, membro da Escola Superior de Guerra e filho de político, que ocupa a cadeira de Álvares de Azevedo e Guimarães Rosa. Ou a professora de literatura Cleonice, que senta no lugar de Cláudio Manuel da Costa. Ou então um comentarista de rádio e TV, escolhido para a cadeira de Cassiano Ricardo apenas porque escreveu dois livretos de (má) reportagem contra… o PT!

Tem muita mosca na sopa de letrinhas brasileira. O próprio presidente da ABL – o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti – é um ilustre desconhecido. Escreveu exata meia dúzia de livros e traduziu outro tanto, mas duvido que sua obra justifique a ocupação do assento de Martins Pena e Artur Azevedo. Criticar um imortal sem tê-lo lido pode ser um pecado mortal. Talvez eu esteja errado, talvez Geraldo seja um beletrista de boa cepa. Ok, vou ler “O Mandiocal de Verdes Mãos” e, se for o caso, me penitencio.

Em vez de um chá de anciãos, a Academia poderia ser um polo de discussão e promoção das letras brasileiras. Segundo o professor Antonio Cândido, a literatura é fundamental para a humanização, esse “processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”

Aos 96 anos (completados esta semana), Cândido não é acadêmico. Ainda bem. Não corre o risco de alimentar o índice de mortalidade dos efêmeros imortais da ABL – mais preocupados com seus jogos de poder e vaidade do que em distribuir quotas de humanidade à população.

Balzac S/A

DSCN2524Ao ler Balzac, de Johannes Willms, ocorreu-me que se vivesse hoje o escritor francês seria rico. Podre de rico. Talvez não um top ten da Forbes. Mas provavelmente estaria entre os 100 maiores. Por um motivo simples: sua inacreditável capacidade de gerar riqueza midiática. Não porque produzia e fazia produzir, com disposição napoleônica e em escala industrial, romances, contos, folhetins, crônicas, teatro, crítica, projetos, bate-bocas, casos amorosos, anedotas, notícias, caricaturas, processos judiciais e – de forma mais industrial ainda – dívidas. Mas principalmente porque ele criou e recriou inúmeros produtos e formatos da indústria editorial, jornalística, gráfica e publicitária.
Balzac inventou o romance moderno. São devedores dele: Proust, Joyce, Rosa, Borges, entre outros. Sua linguagem está viva até hoje. Segundo pesquisa de Franklin Jorge, “lavagem de dinheiro” e “laranja” são gírias balzaquianíssimas. “Tia”, para homossexual de meia-idade, também. Ele escrevia para o plebeu, para o aristocrata, para o militar. Também era lido pela burguesia, embora não fosse seu target (Honoré era monarquista e antirrevolucionário). Chegou a ter uma boa agente literária – Louise de Brugnol – mas a pobre labutava também como governanta, mãe, enfermeira e amante. Nessa ordem. Balzac a chamava de “mulher-cão”. Se tivesse agentes profissionais, Balzac teria vendido mais que Paulo Coelho e J.K. Rowling juntos.
Depois, inventou o folhetim – o cavalo a vapor que bombou as primeiras engrenagens jornalísticas, depois a máquina do rádio e agora a indústria da TV. Ele mesmo não conseguiu adaptar-se à narrativa fracionada, nem criar os ganchos que o formato exige. Ironicamente, quem mais lucrou à época foi um inimigo jurado de Balzac, Eugène Sue, um dos primeiros mestres do “gancho”. Depois vieram Glória Magadan, Dias Gomes, Aguinaldo Silva…
Empresário gráfico, Balzac criou o bolsilivro. Infelizmente, um fracasso de vendas, pois as limitações gráficas tornavam o formato quase ilegível. Com essa invenção, ele amargou sua primeira falência. Atualmente, teria enchido os bolsos com Brigitte Monfort, FBI, Colt, Sabrina e similares.
Balzac inventou o político de massas midiático quando nem havia política de massas. Tentou eleger-se com base na sua popularidade, mas a maioria dos seus fãs não eram eleitores. Antes de 1848, só votava na França quem pagasse a fortuna de 200 francos anuais de impostos. Num regime político de massas, entretanto, Honoré nocautearia Schwarzenegger. Daria um banho em Cicciolina.
Era um marqueteiro nato. Viveu de merchandising quando a propaganda ainda engatinhava. Seu alfaiate, Buisson, recebeu cinco inserções na Comédia Humana. Em troca, crédito ilimitado para o caríssimo fashion balzaquiano. Despesas com festins em restaurantes da moda? Receitas de merchandising. Os fictícios Lucien de Rubempré e Henry de Marsay, eram habitués das mesmas casas que seu criador. Só o Rocher de Canale, um dos templos gastronômicos da época, é mencionado 39 vezes na Comédia.
Balzac inventou também o marketing promocional. Fez de si próprio um personagem famosíssimo, mas não conseguiu administrá-lo. Volta e meia, misturava o homem e o personagem, a realidade e a aparência. E dava com os burros n’água. Um apoio psicológico e uma consultoria de imagem competentes o teriam transformado num produto valiosíssimo. Talvez superior a Dali, se tivesse Gala. Ou Caetano, se tivesse Paulinha.
Por fim, Balzac inventou os direitos autorais. Ele escreveu a base da lei francesa de 1854 e também redigiu um código literário que regulamentava o direito dos autores perante editores – transformado em lei 12 anos após sua morte. Honoré deve ter chacoalhado seus endividados ossos na cova. Quando vivo, nunca viu a cor (só o cheiro, uma vez) de uma comissão. Hoje em dia, os direitos autorais giram bilhões de dólares ao redor do mundo.
Proust dizia que a grande arte leva uma geração para ser aceita. Balzac sacou isso antes, ao perceber que só ficaria rico quando não precisasse mais. Em abril de 1842, ele escreveu: “é preciso transcorrer meio século até que uma coisa grande seja, enfim, compreendida”. Proust – que não dependia da sua pena para viver – escrevia em busca do tempo perdido. Para Balzac, tempo era money. Ele escrevia em busca da grande tacada. Pena que não viveu para ver as tacadas milionárias que se tornaram suas obras, suas invenções, suas lutas, sua vida. Daria para construir uma holding: Balzac S/A.

Explosão na Flip

Em 2003, quando vimos que haveria uma festa literária internacional em Paraty, eu e minha mulher –velhas ratazanas de eventos– ligamos na hora para as pousadas, buscando um bom pacote. Ninguém sabia de nada. Festa aqui? Só religiosa, diziam. Ligamos para amigos, farejando o ar com nossos experientes focinhos. Não detectamos cheiro de barca furada, e sim de algo desconhecido, que se aproximava na bruma escura. Embarcamos. Millôr Fernandes deu uma aula, pelo Brasil. Eric Hobsbawm rodou a baiana, pela Inglaterra. Na magia da velha vila colonial, a lua misturava de forma estranha palavras, sonhos, idéias, emoções. Parecia uma coisa só, dita em várias línguas. O projeto de Liz Calder, a editora anglo-paratiense de Harry Potter, dera certo.

Voltamos em 2004. A coisa tinha encorpado. Chico Buarque e Paul Auster trocaram declarações de amor. Angeli, de bobeira na beira do cais, rabiscava Rê Bordosas e Bob Cuspes. Ian McEwan, Moacyr Scliar e Martin Amis se equilibravam trôpegos pelas pedras das ruas em busca de um banheiro, de uma tapioca, de uma cachaça.

Tornamos a voltar em 2005, com Ariano Suassuna, Enrique Vila-Matas… Já nessa época, a Tenda dos Autores ao vivo era inatingível, exclusiva para editores, imprensa, livreiros, patrocinadores e assemelhados. Ao povão, a Tenda do Telão. Ou o entorno dela, porque a tenda é aberta e de fora o som e imagem são ótimos(hoje não pago um centavo prá assistir aos debates. Procuro a raiz de uma árvore e refestelo-me).

Depois, demos um tempo. Voltamos em 2008, um ano morno. Perdemos 2010, quando o mediador da mesa com Robert Crumb causou a maior saia justa da Festa até agora. Além de questionar intimidades do autor, o cara entrou numas que quadrinho, se for arte, é uma arte menor. O sujeito não sabia que estava diante de um ícone da contracultura norteamericana, do ilustrador da biografia de Kafka, de “A Náusea” de Sartre, etc. O pau comeu. A mulher de Crumb –Aline, gostosa e enérgica como sempre– partiu pra cima do infeliz. A platéia idem. Todo mundo idem. Os organizadores emitiram um pedido oficial de desculpas (atualmente, o Museu de Arte Moderna de Paris expõe uma retrospectiva com 700 trabalhos de Crumb. Será que é arte?).

E assim se passaram dez anos. Muita coisa mudou. Hoje a FLIP é o pico turístico de Paraty. Restaurantes, pousadas, carrinhos de doces, artistas de rua, barcos de passeio, cachorros vadios, índios tupis, bebuns, todos trabalham em capacidade máxima durante os cinco dias da festa. A força da grana também ergueu coisas belas, como o paisagismo, os grandes painéis fotográficos, o mirante da lua no Pontal onde o pessoal vai namorar, fumar e olhar os anéis de saturno diante das águas calmas da baía.

Muita coisa, porém, continua igual nesta edição realizada entre 04 e 08 de julho. Gente que parece fina mas é uma casca grossa. Gente que parece grossa mas se mostra fina, como o filósofo Luiz Felipe Pondé circulando bonachão, tirando fotos com fãs, gozando o prazer maior do contato humano. Gente que usa a festa para outros fins, como Jonathan Franzen, que foi olhar pássaros e depois ficou voando na mesa. Continua igual, a diversidade de temas. E a música, os cheiros, cores e corpos. Olhares que cruzam furtivos as pedras do caminho e se tocam como amantes barrocos na atmosfera colonial daquelas ruelas estreitas. Para mim, para nós, Paraty não é fácil. Principalmente na FLIP.
Também persiste a questão de bons mediadores e a dificuldade em lidar com outras linguagens, como ciber-poesia e, acredite, quadrinhos. O debate de Laerte e Angeli foi salvo pelos próprios, pois o mediador não alcançava os temas que os dois abordam (suicídio, hipocrisia, sexualidade, drogas, conflitos de gerações, etc).

Mas a essência resiste. Autores comentam seu processo criativo, suas idéias, discutem seu papel no mundo, dão dicas para os novatos, até para a vida cotidiana. E derramam a literatura em sua plenitude, maravilhosa, contraditória, estranha.

Este ano o homenageado foi Drummond. Na abertura o poeta-filósofo Antonio Cícero destacou o poeta político, o membro do Partido Comunista que queria mudar o homem, a sociedade: “(….) meu ódio é o melhor de mim / com ele me salvo / e dou a poucos uma esperança mínima / (…) Uma flor nasceu na rua! / Façam completo silêncio, paralisem os negócios / garanto que uma flor nasceu / É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Essa flor –Cícero para e crava seus olhos de águia na platéia– é a poesia.

No encerramento, o poeta Carlito Azevedo foi na direção oposta, com um texto inédito dedicado ao mineiro: “(…) como você, só sei falar de amor o tempo todo: amor, amor, amor, amor, no seu dialeto de desordem e precipício (…) Saiba que sempre penso em você, pelo menos sempre que meu coração cresce assim dez, vinte, trinta metros e explode.” Meu coração, sem nenhum aviso, explodiu junto com o de Carlito. Manchou toda a minha camisa branca e respingou na raiz onde me sentava. Tive que voltar prá casa de peito aberto. Ainda bem que nenhum polícia rodoviário percebeu.

Excesso de assunto

Leio no Yahoo que os escritores estão na lista das dez profissões mais sujeitas ao estresse e à depressão, devido à falta de inspiração que os acomete. Não me considero escritor. Sou apenas um cronista plebeu, rabiscador de impressões. Cronista não tem falta de inspiração. Tem falta de assunto. Talvez nem cronista eu seja, porque não me atormenta a falta de assunto. Ao contrário, sofro pelo excesso de coisas a dizer.

A exuberância da primavera em São Paulo, por exemplo, quando florescem espécies sobreviventes da mata atlântica original, como as figueiras, as copaíbas, os cambucis que os índios fermentavam como cachaça, as canelas, os jatobás, os cedros, os jequitibás, as paineiras cheias de periquitos, e, acredite se quiser… as araucárias, que deram nome ao bairro de Pinheiros. Nesta época, vicejam também as espécies estrangeiras, como as tipuanas da Bolívia, as seringueiras da Ásia, as quaresmeiras, os ipês, as sibipirunas, os resedás. Uma prima minha, vinda do Mato Grosso, ficou pasma ao ver as árvores daqui. Agora entendi!, disse ela. Entendeu o quê?, perguntei. Porque os índios escolheram essas terras pra morar, antes dos jesuítas. Este é o solo mais fértil do Brasil! Nunca vi árvores tão grandes, dizia, extasiada com o tamanho dos jatobás e jequitibás. Desde aquele dia, sempre que caminho sob as árvores desta megalópole, sinto-me um tapuia de tênis que, com sabedoria ancestral, escolheu o melhor e mais rico rincão para lavrar a vida.

Pulando de vegetal para animal, tenho diante da minha sacada um verdadeiro “avicídio”. Moro ao lado do aeroporto de Congonhas, e leio que o governo sancionou lei que permite abater aves para reduzir colisões entre aviões e animais. Ano passado, aeronaves atingiram mais de 1.400 aves, destroçando quero-queros, carcarás, corujas, urubus, pombos, andorinhas e gaviões, “entre os que foi possível identificar”. Esse morticínio avança em escala geométrica. Nos últimos 15 anos, enquanto a frota aérea nacional cresceu 40%, as colisões com aves e bichos aumentaram mais de 1.000%. Passei minha vida adulta sentindo culpa pelos pardais, sanhaços e rolinhas que – na infância – matei apaixonadamente com estilingues e espingardas. Uma vez, atirei com uma carabina calibre 12 num pardal distraído. Só sobraram penas no ar. Imagino um passarinho tragado por um Airbus 330 e me pergunto: o que é um estilingue diante de um boeing? Ou um moleque com bodoque diante de uma legião de funcionários da Infraero, treinados para matar e com metas a cumprir?

E do animal vou para o homem. Adoro ver o contraste entre a pobreza da vida de celebridades, e a riqueza da vida de pessoas anônimas. Tenho dois prazeres que gosto de exercitar. O primeiro é observar gente nas ruas, no metrô, nos bares, e imaginar como seriam suas histórias. O segundo, descobrir gente interessante a partir de um ou mais detalhes, e concluir com meus botões: aí tem coisa! Um exemplo deste segundo tipo: numa pequena vila colonial encravada na costa do Rio de Janeiro, intrigou-me um francês pequenino, que aqui chamarei de P. Cinquenta anos, casado com uma negra brasileira, dono de um ateliê que mais parece a oficina de Leonardo da Vinci. Em menos de cinco minutos, concluí: aí tem! E tinha. Com 23 anos, P. formou-se pela mais tradicional e rigorosa escola superior da França, mas abandonou uma promissora carreira executiva e embrenhou-se num povoado medieval habitado por 20 famílias. Ali aprendeu a trabalhar com pedras, madeira, vidro e metais. Depois de sete anos, foi para o litoral, construiu um barco e vagou pelo Mediterrâneo até parar em Bonifacio, um povoado de três mil habitantes, na Córsega (vá ao Google, leitor, para visualizar o que estou falando). Ficou por lá oito anos – os melhores da sua vida, afirma. Aprendeu novas técnicas, principalmente jóias em coral, que vendia para o mercado de Milão. Saiu de Bonifacio por causa de uma namorada e da rígida moral ditada pela máfia corsa – a mais poderosa da Cosa Nostra. Seguindo seu faro medieval, veio parar no vilarejo brasileiro, onde está há 15 anos. P. domina todas as técnicas artísticas, além de construção, artesanato, gravuras em metal, papel e madeira. É escultor, pintor, carpinteiro, vidraceiro, fotógrafo, artesão e joalheiro. Nunca se amarrou em dinheiro, e sim no conhecimento e nas relações humanas. É um espírito renascentista puro. Lê sobre arte, história e política. Diz que não existe pequena arte e grande arte, apenas arte. Atua na comunidade, ensinando ofícios para crianças caiçaras. Tenho uma amiga que possui um anel de ouro feito por P. É uma peça leve como teia de aranha, que ela pagou em prestações e usa o dia inteiro, há oito anos. Sempre que visitamos a vila, P. examina a jóia, verifica se o brilho está bom, se  nenhum arranhão danificou sua obra – e sorri satisfeito, com uma luz alegre nos olhos azuis.