Posts

Os esquecidos

Hoje é o encerramento da maior festa literária do Brasil, realizada em Parati por uma editora inglesa. O homenageado deste ano, Millor Fernandes, dispensa comentários: é um daqueles imortais que foi e será, sem nunca ter sido. Eu gostaria de ter ido na festa apenas por três jornalistas-escritores: o brasileiro Sérgio Augusto, o norteamericano David Carr, e o mexicano Juan Villoro. Um não tem nada a ver com o outro – mas escrevem muito bem e produzem encanto literário.

Sérgio Augusto é o último jornalista cultural sobrevivente do Pasquim, ainda na ativa, com uma coluna semanal no Estadão. Fazia a santíssima trindade intelectual do jornal, junto com Paulo Francis e Ivan Lessa – já falecidos. Millor reinava à parte, talvez um pouco acima deles. Sérgio é um deleite para a inteligência, navega com simplicidade, elegância e humor pelas águas da literatura, do cinema, da música, do teatro, da política, da filosofia, do showbizz, da história enfim.

David Carr é uma das estrelas do New York Times, com extensa ficha médica e policial, devido ao seu histórico de alcoolismo, drogas, sexo e encrencas. Só conseguiu se manter limpo e sóbrio depois de revisitar o próprio passado, numa reportagem auto-biográfica. Ele nada mais fêz do que o Quarto Passo dos Alcoólicos Anônimos, isto é, um minucioso e destemido inventário de si mesmo. O resultado não é recomendável para leitores de estômago sensível. O próprio NYT sentiu engulhos ao saber que tinha na folha de pagamento um cinquentão traficante, alcoólatra, explorador de mulheres, viciado em crack, que escreveu sua história não para ajudar a humanidade, mas para salvar a si mesmo de uma outra – e mortal – recaída. Além de brilhante, Carr é honesto, demasiadamente honesto.

Juan Villoro é um mexicano criado em Berlin e torcedor do Barcelona. Talvez seja o maior escritor mexicano vivo. Uma das raras pessoas a merecer de Roberto Bolaño uma dedicatória num conto, Villoro é um cronista sarcástico e um corajoso narrador da violência social em seu país, capaz de produzir histórias infanto-juvenis e críticas ácidas ao universo das redes digitais – segundo ele uma armadilha que está atraindo milhões de jovens e destruindo a capacidade intelectual desta geração e das próximas também.

Eu colocaria esses três numa possível academia internacional de letras. Villoro, aliás, acaba de ser nomeado para o Colégio Nacional, espécie de ABL mexicana. Mas para mim, essas agremiações não contam. São todas fruto de “um pacto entre espíritos amigos”, como dizia Graça Aranha. Semana passada alguns leitores deploraram o fato de existirem não-escritores na Academia. Infelizmente, a mazela é internacional. Segundo Josué Montello, desde que Richelieu fundou a Academia Francesa, “só se é acadêmico andando nas boas graças oficiais”.

Minha Academia Internacional teria milhares de membros, vivos e mortos, todos fora das “boas graças oficiais”, como Rimbaud, Lima Barreto, Ginsberg, Leminski, Ana Cristina César, Poe, Zé Mauro de Vasconcellos, Hilda Hilst, Carver e outros menos cotados. Todos usariam pseudônimos, como os membros da Academia dos Esquecidos, a primeira fundada no Brasil em 1724: Obsequioso, Nubiloso, Ocupado, Menos Ocupado, Laborioso, Vago, Venturoso. Tratariam a literatura como resistência humana. Tratariam de temas frívolos, brincariam de poesia concreta, escreveriam sátiras e acrósticos. E fariam com que a fantasia, a alegria, o afeto, a aventura e a rebeldia jamais fossem esquecidos.

Festa no céu

Aos 95 anos, morreu esta semana o historiador marxista inglês Eric Hobsbawm, considerado um dos mais brilhantes intelectuais do século XX. A mídia nacional e internacional destacou que o pensamento do mundo ficou mais pobre. Acho que a coragem e a alegria também empobreceram. Li Hobsbawm na faculdade de história. Ficávamos felizes quando o texto era dele, porque a leitura era prazeirosa. Escrevia simples, preocupado em descobrir e mostrar novos detalhes, novas visões e significados. Não gostava de exibir a vasta erudição, nem se prendia a firulas teórico-metodológicas – duas pragas acadêmicas que ainda nos assolam.

Em 1984, integrei um grupo de alunos que pediu a destituição de uma antiga e antiquada professora da PUC-SP. Pressionada, a escola abriu inscrições para novos docentes. Um dos aprovados foi Nicolau Sevcenko, hoje titular da Universidade Harvard e aposentado pela USP. Nicolau tinha dividido com Hobsbawm uma sala do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Londres. No último dia 3, na Folha de S.Paulo, ele narra como o velho vermelho, generosamente, o ajudou em suas pesquisas, e como o acossava com suas críticas, “como um grande mestre diante de um calouro num tabuleiro de xadrez”. Para Nicolau, “num mundo de moralidade dissolvente e corrosão sistemática do conhecimento erudito, a ausência de Hobsbawm soa como um colapso”.

Conheci Hobsbawm pessoalmente em 2003, durante a primeira FLIP-Festa Literária Internacional de Parati. Pedi seu autógrafo num velho exemplar de “As Origens da Revolução Industrial”, publicado em 1979 pela editora Global. A fila parou. Ele não sabia que era publicado no Brasil há tanto tempo. Folheou o livrinho cheio de anotações, examinou a edição, quis saber em qual escola eu tinha me formado. Depois, esbarramos pelas ruas e botecos de Parati. Eu receoso de ser chato, ele sempre gentil, sorridente, atencioso. Notei que tinha no cinto um chaveiro com o distintivo do PT. Disse-me que a explicação estava em sua autobiografia (“Tempos Interessantes”, que eu trazia debaixo do braço, e ainda nem começara a ler). Achei que fosse teorização, mas Hobsbawm nunca teorizava. Em suas memórias, ele dedica um capítulo de quase trinta páginas às viagens que fez à America Latina e ao Brasil, desde o início dos anos 60. Considerava o surgimento e crescimento do PT nos anos 80 um dos fenômenos políticos mais importantes do continente – embora ainda recente e sem condições de melhor julgamento. O chaveiro servia-lhe como lembrança dos momentos junto à militância do partido, do debate em praça pública que participou em Porto Alegre, dos encontros tocantes que tivera com Lula. Ele sabia que o comunismo estava morto, mas nunca perdeu o espírito de luta. “Não nos desarmemos – escreveu – mesmo em tempos insatisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho”.

Além da coragem, Hobsbawm carregava uma imensa alegria. Adorava música. Escreveu “A História Social do Jazz”, prefaciada no Brasil por Luis Fernando Veríssimo, velho parceiro de jam sessions. Seu disco preferido era “Sargent Peppers” dos Beatles. Nas matérias sobre sua morte, chamou-me a atenção o episódio narrado pela socióloga americana Saskia Sassen. Quando estavam no auge os movimentos Occupy Wall Street, em Nova Iorque, e Los Indignados, na Espanha, ela comentou com Hobsbawm: “bom, não?”. Ele respondeu sem hesitar: “sem festa, nada é bom”. Parece uma tirada espirituosa, uma frase brincalhona, mas o velho Hobs não brincava em serviço. Com uma só martelada, um pancadão de Pink Floyd, demoliu toda a seriedade, ou caretice, do movimento the wall.

Não sei quais exemplos históricos ele tiraria da cartola, mas associei festa com música e lembrei de alguns casos que conheço relativamente bem. A Marselhesa, agitando a Revolução Francesa. O rock, revirando a cultura nos anos 60 e 70. A balada Grândola, Vila Morena disparando a senha para a Revolução dos Cravos em Portugal. O movimento pelas Diretas Já, embalado por um Coração de Estudante batendo forte no peito de Fafá de Belém. A algazarra dos panelaços e buzinaços. A resistência à ditadura militar de 1964, fortalecida por Caminhando na voz profunda de Vandré. Até mesmo a primeira eleição presidencial do PT, quando a esperança era forte e cantávamos Lulalá mirando as estrelas, dançando e nos beijando em praças, ruas, morros e praias.

O velho Hobs acertou, mais uma vez. Sem festa, nada é bom. Gosto de imaginar que ao chegar ao céu, ele foi recebido pela gargalhada de Hebe Camargo, outra festeira cuja alegria perdemos e por isso tanto nos entristecemos. Vejo Hebe apertando as bochechas do velho professor (feio de doer) e apresentando-o para todos os músicos, poetas, rebeldes e sonhadores celestiais: “não é uma gracinha”? Minha única dúvida é se essa gente está no céu ou em alguma outra dimensão. Se descobrir, é pra lá que eu vou.

Explosão na Flip

Em 2003, quando vimos que haveria uma festa literária internacional em Paraty, eu e minha mulher –velhas ratazanas de eventos– ligamos na hora para as pousadas, buscando um bom pacote. Ninguém sabia de nada. Festa aqui? Só religiosa, diziam. Ligamos para amigos, farejando o ar com nossos experientes focinhos. Não detectamos cheiro de barca furada, e sim de algo desconhecido, que se aproximava na bruma escura. Embarcamos. Millôr Fernandes deu uma aula, pelo Brasil. Eric Hobsbawm rodou a baiana, pela Inglaterra. Na magia da velha vila colonial, a lua misturava de forma estranha palavras, sonhos, idéias, emoções. Parecia uma coisa só, dita em várias línguas. O projeto de Liz Calder, a editora anglo-paratiense de Harry Potter, dera certo.

Voltamos em 2004. A coisa tinha encorpado. Chico Buarque e Paul Auster trocaram declarações de amor. Angeli, de bobeira na beira do cais, rabiscava Rê Bordosas e Bob Cuspes. Ian McEwan, Moacyr Scliar e Martin Amis se equilibravam trôpegos pelas pedras das ruas em busca de um banheiro, de uma tapioca, de uma cachaça.

Tornamos a voltar em 2005, com Ariano Suassuna, Enrique Vila-Matas… Já nessa época, a Tenda dos Autores ao vivo era inatingível, exclusiva para editores, imprensa, livreiros, patrocinadores e assemelhados. Ao povão, a Tenda do Telão. Ou o entorno dela, porque a tenda é aberta e de fora o som e imagem são ótimos(hoje não pago um centavo prá assistir aos debates. Procuro a raiz de uma árvore e refestelo-me).

Depois, demos um tempo. Voltamos em 2008, um ano morno. Perdemos 2010, quando o mediador da mesa com Robert Crumb causou a maior saia justa da Festa até agora. Além de questionar intimidades do autor, o cara entrou numas que quadrinho, se for arte, é uma arte menor. O sujeito não sabia que estava diante de um ícone da contracultura norteamericana, do ilustrador da biografia de Kafka, de “A Náusea” de Sartre, etc. O pau comeu. A mulher de Crumb –Aline, gostosa e enérgica como sempre– partiu pra cima do infeliz. A platéia idem. Todo mundo idem. Os organizadores emitiram um pedido oficial de desculpas (atualmente, o Museu de Arte Moderna de Paris expõe uma retrospectiva com 700 trabalhos de Crumb. Será que é arte?).

E assim se passaram dez anos. Muita coisa mudou. Hoje a FLIP é o pico turístico de Paraty. Restaurantes, pousadas, carrinhos de doces, artistas de rua, barcos de passeio, cachorros vadios, índios tupis, bebuns, todos trabalham em capacidade máxima durante os cinco dias da festa. A força da grana também ergueu coisas belas, como o paisagismo, os grandes painéis fotográficos, o mirante da lua no Pontal onde o pessoal vai namorar, fumar e olhar os anéis de saturno diante das águas calmas da baía.

Muita coisa, porém, continua igual nesta edição realizada entre 04 e 08 de julho. Gente que parece fina mas é uma casca grossa. Gente que parece grossa mas se mostra fina, como o filósofo Luiz Felipe Pondé circulando bonachão, tirando fotos com fãs, gozando o prazer maior do contato humano. Gente que usa a festa para outros fins, como Jonathan Franzen, que foi olhar pássaros e depois ficou voando na mesa. Continua igual, a diversidade de temas. E a música, os cheiros, cores e corpos. Olhares que cruzam furtivos as pedras do caminho e se tocam como amantes barrocos na atmosfera colonial daquelas ruelas estreitas. Para mim, para nós, Paraty não é fácil. Principalmente na FLIP.
Também persiste a questão de bons mediadores e a dificuldade em lidar com outras linguagens, como ciber-poesia e, acredite, quadrinhos. O debate de Laerte e Angeli foi salvo pelos próprios, pois o mediador não alcançava os temas que os dois abordam (suicídio, hipocrisia, sexualidade, drogas, conflitos de gerações, etc).

Mas a essência resiste. Autores comentam seu processo criativo, suas idéias, discutem seu papel no mundo, dão dicas para os novatos, até para a vida cotidiana. E derramam a literatura em sua plenitude, maravilhosa, contraditória, estranha.

Este ano o homenageado foi Drummond. Na abertura o poeta-filósofo Antonio Cícero destacou o poeta político, o membro do Partido Comunista que queria mudar o homem, a sociedade: “(….) meu ódio é o melhor de mim / com ele me salvo / e dou a poucos uma esperança mínima / (…) Uma flor nasceu na rua! / Façam completo silêncio, paralisem os negócios / garanto que uma flor nasceu / É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Essa flor –Cícero para e crava seus olhos de águia na platéia– é a poesia.

No encerramento, o poeta Carlito Azevedo foi na direção oposta, com um texto inédito dedicado ao mineiro: “(…) como você, só sei falar de amor o tempo todo: amor, amor, amor, amor, no seu dialeto de desordem e precipício (…) Saiba que sempre penso em você, pelo menos sempre que meu coração cresce assim dez, vinte, trinta metros e explode.” Meu coração, sem nenhum aviso, explodiu junto com o de Carlito. Manchou toda a minha camisa branca e respingou na raiz onde me sentava. Tive que voltar prá casa de peito aberto. Ainda bem que nenhum polícia rodoviário percebeu.