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Nada mais que palavras

Outro dia estava à toa na vida e como o meu amor não me chamou, resolvi matar o tempo na internet buscando as palavras mais faladas na globosfera. Veja você, numa frase simples como essa aí detrás, coloquei as três principais palavras do mundo: tempo (11 bilhões de resultados no google), vida (6 bilhões) e amor (5 bilhões). Não entendi bem por que tempo vale mais do que vida e amor, mas arrisco um palpite: porque é escasso e ainda não se pode comprá-lo. Não temos tempo para nada e desejamos mais tempo para tudo, mais tempo para dormir, mais tempo pra consertar estragos, mais tempo para pagar a dívida, mais tempo para achar a resposta. Mas desconfio que o motivo verdadeiro é que tempo é dinheiro, e money também está entre as palavras mais importantes do planeta, com 2,7 bilhões de resultados.

Somados, tempo e dinheiro batem 14 bilhões de menções, muito à frente de vida e amor, a alegre dupla do segundo lugar, com 11 bilhões. O terceiro posto é da dobradinha família & amigos, com 8 bilhões de citações. Gozado isso, porque – ao contrário da época de Don Vito Corleone – hoje em dia ninguém perde tempo com amigos; e a família, embora sempre digamos automaticamente que vai-bem-obrigado, muitas vezes vai de bem mal a muito pior.

Um quinteto bem posicionado é saúde, esporte, coração, comida e sexo (14 bilhões de resultados), o que confirma nossa ânsia de viver mais, mesmo que para nada. De forma surpreendente, logo abaixo, quase empatado, vem outro quinteto, formado por arte, música, livros e cultura, com 13 bilhões de menções. Eu tinha certeza que o mundo cuidava muito mais do corpo que da alma, mas a coisa parece estar bem equilibrada, como os antigos gregos achavam que tinha de ser.

Apesar desses sinais positivos, o consumismo ainda fala alto (carro e compra são citadas 6 bilhões de vezes), e a violência não dá sinais de diminuir, apesar dos esforços dos exércitos do bem. Fala-se muito mais em guerra e sangue (3 bilhões) do que em paz e esperança (2,4 bilhões).

Antes de sair da rede e voltar ao mundo supostamente real, aproveitei para bisbilhotar algumas curiosidades. Como andaria, por exemplo, a peleja entre Deus e o Diabo na terra virtual? O Velho Barbudo está ganhando de lavada: seu santo nome é mencionado em vão 1,5 bilhão de vezes, contra pífias 200 milhões do Tinhoso. Fiquei surpreso com isso. Pela quantidade de ódio e preconceito que jorra da internet, imaginava que o Chifrudo estivesse um pouco mais prestigiado.

Por fim, descobri duas outras coisas interessantes. A primeira é que Lennon estava errado, os Beatles não são mais famosos do que Cristo. Há 700 milhões de resultados para o cabeludo da Galileia, contra 100 milhões para os cabeludos de Liverpool. E a segunda – sinto dizer, irmãos e irmãs – Maradona é quase duas vezes mais falado que Pelé (31 x 16 milhões).

Saí da globosfera e fiquei matutando. Para a rede, todas essas palavras são apenas dígitos. Tento agrupá-las, encontrar nelas algum significado, mas no futuro, quando a internet criar e raciocinar, isso será feito por bites e bytes. Lembrei de Rubem Braga, que dizia estar farto de ganhar a vida “nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…”. O velho Braga já sabia que palavras são objetos. Apenas bites & bytes. Eu é que ainda alimento a ilusão de achar que são palavras, que tem alguma serventia para nos salvar de nós mesmos, mesmo sabendo, no fundo, que Hamlet estava certíssimo, que na verdade o que gira a roda da vida não são as palavras. É o silêncio.

O efêmero que nos fere

Na última crônica reclamei da falta de assunto, sem prestar muita atenção ao calendário. Então, de repente, de novo é agosto. O mundo parece voltar das férias, cheio de gás, fazendo tudo acontecer ao mesmo tempo. Nas últimas semanas, o departamento da morte levou Robin Williams, Eduardo Campos e Nicolau Sevcenko – um dos mais brilhantes historiadores brasileiros. O departamento da memória está celebrando vários números redondos de mortes ou nascimentos ilustres, como os de Aracy de Almeida, Cortázar, Raul Seixas, Getúlio, Paulo Leminski, e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O Palmeiras também faz 100 anos, mas a festa está ameaçada pelo departamento de artes, seção de teatro, que pressiona para emplacar mais uma tragicomédia pra cima do meu querido Verdão.

O departamento da vida colocou diversos novos gênios no mundo, descobriremos no futuro, quando realizarem suas obras benignas ou malignas, como fizeram Calígula, Colombo, Aleijadinho, Napoleão, Hegel, Krupp, Hitchcock, Borges, Oscarito, Cantinflas e outros famosos nascidos em agosto.

Ora, dirá você, leitor que não nasceu nem morrerá em agosto, isso é papo de cronista, este é um mês como qualquer outro. Pode ser. Não discuto com leitores – que por sua vez também pouco discutem comigo. Mas para mim, é um período especial.

Nesta época, sinto mais aquilo que os filósofos chamam de impermanência, e os japoneses tratam como flor da cerejeira. Nunca me detive muito na impermanência, e geralmente piso em flores distraído, sejam ou não de cerejeira. Entretanto, em agosto fico mais sensível a essas coisas, como se estivesse grávido, ou à beira da morte. Fico relembrando pequenos gestos, pequenos olhares, pequenos risos que significaram muito, mas duraram tão pouco que não fui capaz de pegá-los. Pequenos momentos mágicos, porém tão rápidos que não consegui vivê-los.

Gostaria de voltar no tempo, ter uma segunda chance. Fazer a jura secreta. Esticar a mão. Dar o abraço. Aquele tapinha nas costas. O aceno de cabeça. Aproveitaria para consertar também pequenos gestos desastrosos, palavras infelizes que – num milisegundo – transformaram instantes de pura felicidade em sofrimento atroz. Como aquela linda e alegre namorada adolescente, para sempre magoada, que reencontro na internet, solitária, religiosa, entristecida, com os olhos ainda doces, o sorriso ainda meigo, a expressão ainda suave como flor de cerejeira. Flor que, em vez de cheirar e beijar, lancei ao chão com desdém. Não tenho coragem de pedir-lhe perdão. Tampouco consigo perdoar-me. Os danos ao coração não tem remédio.

Volto ao presente e, mesmo que ainda seja agosto, faço um esforço para viver o aqui e agora. Esse efêmero que nos fere, segundo Paulo Mendes Campos. Ficar atento às coisinhas sublimes da vida, não deixar que outros instantes de brilho fugaz me voem das mãos, como vagalumes. E principalmente, não pisar nas delicadas flores de cerejeira, que brotam fugazes em setembro e caem abundantes em meu caminho. Um segundo de descuido, e elas se tornam eternas. Dolorosamente eternas.

A difícil arte

Volta e meia entro na internet em busca de palavras e assuntos aleatórios, só pra ver o que aparece. É divertido, muitas vezes óbvio ululante, e às vezes surge algo diferente e interessante. Nesta semana, em conversa com amigos, descobri que existe em Maringá um fã-clube secreto de Ivan Lessa (não vou detalhar quem é Ivan, vire-se sedentário leitor). A lembrança desse genial não-escritor – e de um conto seu chamado “A difícil arte de não escrever” – me acendeu a curiosidade de saber que outras difíceis artes poderiam estar disponíveis na web. Encontrei várias, infelizmente óbvias em sua maioria, e nem sempre resistentes a um olhar crítico.

Eis a lista devidamente comentada, na ordem apresentada pelo Google:
a difícil arte de amar (concordo, mas ser amado requer muito mais engenho e empenho),
a difícil arte de seguir em frente (me parece fácil, difícil mesmo é seguir pelas veredas tortuosas),
a difícil arte de amar on line (facinho facinho, até as crianças estão fazendo),
a difícil arte de ensinar (essa é moleza, todo mundo pratica; difícil de verdade é aprender),
a difícil arte de ser mãe (há controvérsias, ser filho também não é fácil; madrasta então, nem se fala),
a difícil arte de ver Rubem Alves (erro do Google; foi Rubem que escreveu algo sobre o problema de enxergar – embora eu concorde que ver ou ler Rubem Alves é arte das mais áridas),
a difícil arte de dizer não (difícil, mas tá cheio de neguinho que é mestre nisso; políticos pegos com a mão na cumbuca, por exemplo),
a difícil arte de dizer não aos filhos (válido para classes A e B; nas classes C e D, pedreira mesmo é conseguir dizer sim aos barrigudinhos).

No fim da lista vinha a supostamente difícil arte de escrever e algumas das suas aplicações, como escrever um telegrama. Nem sei se ainda tem gente que escreve telegramas. E escrevê-los não me parece difícil, pois a nova teclagem digital é neta da velha linguagem telegráfica. Complicado seria atualizar algumas abreviações, saber por exemplo que “pt saudações” não é um conjunto de punhos erguidos.

Mas escrever não é difícil – como sacou Ivan Lessa. Qualquer um pode escrever um livro. Mesmo que não sejam bons, livros são úteis como peças de decoração, suporte para pernas de mesas, ou pesos para musculação. Ivan dizia que escrever livro é coisa de pobre, de gente que lê a Veja. Difícil de verdade é não escrever. Não incomodar os demais, ocupados com seus “mistérios e empombações”. Fale baixo, recomendava ele.

Ivan Lessa não tinha piedade de quem se acha, dos presunçosos, dos arrogantes, dos pedantes, dos malas, dos exibicionistas, dos interesseiros, dos hipócritas, dos certinhos, dos aduladores, dos donos da verdade, dos pseudos em geral.

A arte mais difícil, para ele, era ser menos, ser pouco, ser leve. Tinha um humor corrosivo, que usava tanto para atacar e denunciar (“no Nordeste, vomitar é sinal de status”), quanto para enfrentar os perrengues da vida. Pouco antes de sair de cena, disse que a morte era a cura definitiva da calvície, e torcia para que existissem virgens do outro lado. Eu não tenho problemas de calvície. E torço para que não existam virgens do lado de lá. Assim, quem sabe, num ataque de secura, Ivan volte para cá.

Páscoa da socialização

Gastei um bom tempo procurando coisas boas prá dizer neste domingo de Páscoa, algo que fizesse renascer nas pessoas alguns fiapos de esperança, aproveitando o embalo do renascimento de Cristo. Está difícil a vida do otimista. A leitura dos jornalões e revistinhas não deixa dúvidas: o mundo está acabando no Brasil. Mas esgueirando-me no muro do bom senso, fugi da saraivada de coisas ruins e encontrei três ovos de chocolate escondidos. Deguste-os comigo.

O primeiro ovo, como no princípio, é um verbo: compartilhar. Nunca compartilhamos tanto, com tantos. Compartilhamos o que estamos pensando, o que estamos lendo, o que estamos fazendo, nossas finanças, nossas doenças, nosso tudo. Compartilhar virou uma febre, uma pandemia. O número de fotos pessoais postadas nas redes sociais é astronômico. Mas também – e principalmente – estamos compartilhando idéias, ferramentas, criações, além de trabalho.

Compartilhando, chegamos ao segundo ovo, a cooperação coletiva, um nível superior de engajamento comunitário. É o mesmo impulso do mutirão prá fazer um puxadinho, só que numa escala planetária. O software Linux Fedora, por exemplo, é uma colaboração de 60 mil anos/homem de trabalho. Estima-se que atualmente cerca de 500 mil pessoas ao redor do mundo estejam trabalhando em mais de 400 mil projetos de código aberto diferentes, como a Wikipedia. É quase o dobro do quadro da General Motors, mas sem nenhum chefe. São colaboradores que moram em países distantes, falam línguas diferentes e nunca se encontrarão para um churrasquinho com cerveja na laje, ao terminarem o projeto. Hoje estamos construindo colaborativamente enciclopédias, agências de notícias, videotecas e softwares em grupos intercontinentais. Nada impede que usemos o mesmo método para construir pontes, universidades, plataformas espaciais.

O ovo número três está no final da trilha da cooperação: o coletivismo. Já existem sites colaborativos que permitem o uso de suas criações de forma comunitária, quase comunista. Posso fazer da sua foto a minha foto, posso alterar seu vídeo como quiser e usá-lo como bem entender. Para os jovens de hoje, o sentido de propriedade intelectual ou artística faz cada vez menos sentido. A grande curtida é alguém pegar minha criação e acrescentar algo nela. Na cabeça da molecada, o coletivo é muito melhor. Intuitivamente eles sabem que no coletivismo tanto o indivíduo quanto o grupo saem ganhando. Como sabem as abelhas e as formigas. E sabiam os homens, nas tribos e comunidades antigas.

Estudiosos avaliam que nos próximos 20 anos as forças socializantes da tecnologia – compartilhamento, cooperação, coletivizacão – serão o evento mais marcante em nossa cultura e comportamento. A natureza nos fez animais sociais. De grupo em grupo, de tribo em tribo, de cidade em cidade, de país em país, chegamos até aqui. Agora, estamos no limiar de uma tribo planetária. Talvez seja esta uma grande, nova e verdadeira páscoa, em qualquer dos seus três significados: a época da fecundação e germinação, a passagem para a terra prometida, o renascimento do homem e do seu espírito.

Errar humano era

Para mim, uma das coisas marcantes em “Fahrenheit 451” é quando, na parte final, as pessoas memorizam livros inteiros, guardando na cabeça o que estavam proibidas de ter em papel. Eu via nisso mais do que uma vitória contra a opressão. Era a garantia de que a memória poderia salvar-nos da barbárie, preservando a cultura e a arte num local (sempre quis escrever esta palavra) inexpugnável: nossas mentes. Ah, que conforto imaginar que para alimentar o espírito e a inteligência não precisaríamos de papel, nem de livros, nem de palavras impressas. Não precisaríamos de nada além de nós mesmos, suprema autonomia e liberdade. A única tecnologia necessária seria aquela que a natureza nos deu gratuitamente em forma de neurônios e sinapses.

Por isso fiquei estarrecido ao ler em “Para onde nos leva a tecnologia” (editora Bookman, 380 pgs.) de Kevin Kelly, que estamos transferindo nossa memória para a rede digital. O advogado não precisa mais saber em que artigo enquadrar um crime. O médico não precisa memorizar receitas, ou as causas de dores nas costas. Ninguém tem que saber inglês para descobrir que “Lolita, light of my life” é um belo exemplo de aliteração, e também a frase que abre o inesquecível livro de Nabokov. Minha mulher não precisa mais lembrar onde deixou os óculos. Basta que todo mundo tenha à mão um celular conectado à web.

E que os óculos tenham um chip, não é? – acrescentará você. Pois eles terão muito mais que um chip, ligadíssimo leitor. Na verdade, serão mais do que óculos – essa velharia inventada no século 1 (obrigado, Google). Já existem óculos que filmam e fotografam plugados na internet. Futuramente, seguindo as tendências dos softwares de tecnologias vestíveis, poderão ter localizadores espaciais, visão de raios X, infravermelho e sequenciadores de DNA que emitirão alertas sobre eventuais danos causados aos seus genes pela luz, poluição ou leitura de textos como este.

Essas profecias high-tech nunca me preocuparam. Sempre achei que não estaria vivo quando inventassem bonés captadores de pensamentos alheios. Mas a taxa de expansão tecnológica está acelerando velozmente: a eletricidade levou 75 anos para chegar a 90% dos americanos; o celular apenas 20. Logo haverá robôs humanóides trabalhando como economistas, psicólogos e geriatras; dando concertos musicais; filosofando e escrevendo poesia. É possível que no meu funeral, a missa seja rezada por um androide ecumênico.

Como cinquentão, sinto um prazer egoísta ao pensar que a memória não será tão valorizada, nem sinal de juventude e inteligência. Mas sinto calafrios ao imaginar os efeitos a longo prazo, onde engenhocas diabolicamente inteligentes poderão dominar sem esforço uma legião de humanos com cérebros atrofiados, incapazes de uma idéia brilhante com mais de dez volts. Sem falar nos erros e idiotices que as supermentes tecnológicas fatalmente irão cometer. Aliás, já estão cometendo. Ontem levei uma bronca federal por ter esquecido o aniversário de uma grande amiga. Falha do Facebook que não me lembrou, expliquei a ela. Safei-me fácil e suspirei aliviado: não é que ser um desmemoriado tem lá suas vantagens?

Os chatos da Via-Láctea

Conheço poetas e escritores que escrevem crônicas mas não as divulgam na internet. Talvez por considerarem que esse gênero não seja arte, ou algo que valha a pena ser lido. Ou talvez duvidem que alguém vá ler um catatau de três mil caracteres. Mencionam essa atividade meio a contragosto, constrangidos, como se dissessem sou contador do Colégio Marista, ou escriturário da prefeitura – trabalhos dignos, mas que para um literato representam desvios do caminho artístico.

O pior é que mesmo grandes cronistas desdenham da crônica. Rubem Braga escreveu que gostaria de ganhar a vida de outro jeito, “não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…”.   Para ele, melhor seria fazer algo de “sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa”.

Braga criticava o espírito do homem urbano moderno, em contraste com a simplicidade e pureza da vida rural. Cada um a seu modo, todos os grandes cronistas analisaram a condição humana, com doses variadas de humor, ironia e lirismo. Essas coisas me ocorrem devido à reedição de “O amor acaba” (Cia. das Letras, 280 pgs.) volume de crônicas de Paulo Mendes Campos, a maioria publicada na revista Manchete, uma mistura de Caras e Veja dos anos 60 e 70.

PMC, como era chamado entre os amigos, também renegou sua vida de cronista. Já passado dos cinquenta, disse que gostaria de ter sido filólogo. E num desabafo, escreveu que “a vida não vale uma crônica”. Se você não tiver receio de olhar o homem como ele é, recomendo vivamente os textos de Paulinho – o rebento mais erudito, mordaz e bebedor da safra mineira que gerou Fernando Sabino, Otto Lara Rezende e até o capixaba Rubem Braga.

Há quem pergunte por que não se fazem mais crônicas como as de PMC. Creio que é porque nossos cronistas estão presos nas impressões e flagrantes do cotidiano. E porque a vida moderna – com sua pressa e superficialidade – não permite reflexões sobre as mazelas da vida moderna, como o tédio, o culto à aparência, a felicidade consumista.

Se o mundo continuar assim, num futuro breve não saberemos mais olhar um quadro. Apenas “curtir” uma foto. Só conseguiremos ler quarenta caracteres, e conversar por meio de torpedos. Ironias e metáforas serão banidas da linguagem.

Só restará pão sobre pão, e queijo sobre queijo. Esqueça as pedras, elas não são politicamente corretas. Cumprindo uma profecia de Paulinho Mendes Campos, seremos “os chatos da Via-Láctea”.

Não sei como estará a poesia nesse mundo, nem se haverá poesia. Mas gosto de imaginar que haverá crônicas. E cronistas que não se envergonharão de ser cronistas, e mesmo não sendo poetas, conseguirão ser poéticos de vez em quando. Com esse mínimo de farinha, farão bolinhos que atrairão comensais incautos em jornais, redes sociais, blogs. O sabor da massa infectada vai trazer à memória desses comedores frases e lembranças de um mundo antigo, pré-digital, onde cronistas ancestrais usavam camisas de mangas curtas e diziam coisas como “precisamos apenas viver – sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão”.

 

Velhos novatos

Todo mundo sabe que a melhor coisa da aposentadoria é ter tempo prá fazer coisas que não faríamos se ainda fôssemos escravos do mundo do trabalho. Algumas são muito comuns, e quase todo iniciante no ócio começa por elas a sua trilha rumo ao vazio das horas – também chamado de liberdade. Essas atividades revelam muito do que somos, ou tentamos continuar a ser, e nos reservam surpresas agradáveis e desagradáveis, como tudo na vida.

Três horas diárias de caminhada e musculação costuma ser a ação mais frequente dos novos velhos. É fácil identificá-los: exibem alto grau de tecnologia embarcada, usam tênis novos, preferem asfalto quente e duro à terra fresca e macia, gostam de andar no contrafluxo e ignoram as regras básicas de trilhas e pistas. Não gostam de ser ultrapassados, acreditam estar sozinhos no mundo, e exageram na dose de esforço. Em pouco tempo sentem a fúria dos joelhos e a vingança dos calcanhares. Descobrem que não há resultados mágicos, e que proteínas importadas prometem mas não fazem milagres. Mancando, eles percebem que entrar em forma exige disciplina e paciência. Requer mais força de vontade do que física. E dói.

Outra atividade habitual dos novatos é a caça ao passado. Abrem um perfil no Facebook e lançam-se numa busca frenética de antigos amigos e antigas amigas, tentando reviver aventuras, emoções, amores. Alguns chegam a procurar antigas professoras, mas raramente dão sorte, a maioria delas já desencarnou.

Muitos desses reencontros são feitos de forma tateante. Surgem dúvidas de como o outro está, o que faz, o que ainda pensa e sente. E principalmente, se ainda se lembra da relação. Geralmente, após esses titubeios iniciais, o papo engrena e ocorre uma grande troca de recordações, animadas por kkkkkks e elogios mútuos. Outras vezes, principalmente entre ex-amantes, um investiga cuidadosamente a página do outro e decidem ficar no limite de um silencioso e seguro curtir. Em outras, descobre-se que antigos defeitos ficaram ainda maiores, ou que a pessoa mudou tanto que não é possível qualquer reaproximação. Em número menor, existem casos em que o velho jeito de ser continua intacto – se não melhorado – e os velhos laços são reatados com firmeza. O reencontro mais comum é aquele que dá vida real a personagens queridas que povoavam nossa memória, e quase duvidávamos que tivessem realmente existido. É estranho, mas sempre agradável, ver como esses seres do passado renascem no presente, belos, imperfeitos, e ainda gostando da gente.

Em meus começos de aposentado, passei por todas essas fases. Hoje faço coisas impensáveis aos que ainda labutam no frenesi diário. Leio livros que deveria ter lido há muito tempo, como “As Mil e Uma Noites”, “Caninos Brancos”, “Moby Dick”. Dedico horas de negociação para cortar vinte reais na fatura do telefone. Investigo temas como o fim dos buracos-negros. Pesquiso – com assombro e deslumbramento – o significado da web semântica. Faço exercícios sem querer virar super-homem. Olho o passado com mais calma e menos fantasias – sei que o Facebook não é túnel do tempo, nem vidente de esquina: não traz amores de volta. Planejo fazer o caminho de Santiago de Compostela. Na volta, compro um tênis novo. E me arrisco a ser confundido com um velho novato.

Enredados

O Facebook tá virando coisa de velho. Nos últimos dois anos, nos EUA, o número de usuários entre 13 e 17 anos caiu 25%, enquanto o de velhos acima de 50 anos subiu mais de 80%. Antes, a rede era dominada (31%) por jovens entre 18 e 24 anos. Agora, mais de 30% são senhores e senhoras entre 35 e 54 anos. Mais do que envelhecer, o Face está a caminho da morte. Segundo pesquisas,  deverá perder 80% dos usuários até 2017, e depois desaparecer como o Orkut e o MySpace.

Faço parte do contingente de tiozinhos que entrou na rede nos últimos anos, e está contribuindo para afugentar a meninada. Também pertenço ao grupo de extermínio que vai abandonar de vez o canal, tão logo surja outra rede menos moralista e policialesca.

Se você usa o Face para postar frases de auto-ajuda, fotos de comida ou de pets, provavelmente nunca enfrentou a mão pesada do senhor Zuckerberg. Mas experimente postar uma foto do Davi, de Michelangelo, ou da Maja Desnuda, de Goya (nem vou falar da Origem do Mundo, de Courbet). O risco de censura e suspensão do seu perfil é enorme. Basta que qualquer debilóide o denuncie por conteúdo ofensivo ou pornográfico. E não adianta você argumentar que aquilo é arte. O Face não sabe o que é arte. Tenho um amigo fotógrafo que foi censurado e suspenso por causa de uma foto de indiozinhos nus jogando bola.

Alguns criticam também a invasão comercial do Face. Qualquer canal com milhões de pessoas na internet vai sempre atrair interesses comerciais. Faz parte do jogo. Mas tem que ter limites. Não suporto receber mensagens comerciais ou sugestões de curtir produtos e empresas em meu mural. Nem autorizo o uso dos meus dados e preferências pessoais por terceiros. E fico possesso ao ver aquelas propagandas oportunistas plantadas bem ao lado das setas da barra de rolagem, à espreita de cliques inadvertidos.

Meus chiliques, entretanto, são inúteis enquanto vigorar o AI-5 digital criado pelo então senador Eduardo Azeredo em 1999 (sim, ele mesmo, o ex-presidente do PSDB, criador do mensalão mineiro), que – em nome de uma falsa segurança – impõe censura, detenção e um sistema de vigilância na rede. Está em aprovação no Congresso uma nova legislação que irá regular a neutralidade, a privacidade, a retenção de dados, a função social da internet e a responsabilidade civil de usuários e provedores. Mas isso não é prioridade para nossos nobres legisladores. Nem a espionagem de Obama teve força para agilizar o processo.

Segundo analistas, os jovens estão debandando do Face porque seus pais, tios e avós invadiram o espaço e melaram a festa da galera – que está migrando em peso para o Twitter, o Instagram e o WhatsApp. Está certo, a moçada quer distância dos velhotes. Mas o problema geracional é uma questão menor, diante dos padrões medievais e ditatoriais que vigoram em nosso ciberespaço. De um lado, o Grande Irmão seguindo todos os meus passos. De outro, Torquemada censurando e punindo meus gestos.  Minha sensação ao entrar no Face não é a de entrar numa rede do futuro. É a de cair numa armadilha do passado.

GRANDE PEQUENA MÍDIA – foto: SelvaSP

Curti a autobiografia de Felipe Neto, o brasileiro mais famoso da internet. Aos 27 anos, ele já construiu um império: controla metade do Youtube brasileiro, e seus vídeos estão entre os mais acessados do mundo. A genialidade do rapaz atraiu gigantes norte-americanos. Fiquei morrendo de inveja. Pensei em virar um webstar, mas decidi continuar em jornais impressos. Aqui sou mais lido (espero) do que na internet. Lá tem muita liberdade, mas ninguém lê texto. A galera gosta mesmo é de fotos e vídeos. Num jornal, se você tem editores sensíveis e audaciosos como os meus, também é possível dizer coisas como na net.

Posso falar palavrões, por exemplo. Sei que termos chulos – mesmo aqueles usados na linguagem cotidiana, como merda ou caralho – adquirem uma força adicional quando escritos com todas as letras. Mas há sentidos que só eles conseguem expressar. Embucetar, por exemplo, significa que algo ficou tão complicado que não há solução aparente. Tente achar outro verbo para dizer isso. Se encontrar, me diga.

Também posso descer a lenha na grande mídia. Desde os protestos de junho, estou com uns gritos entalados na garganta. Segurei-os porque as próprias manifestações combateram as coberturas tendenciosas e preconceituosas. Lembram do vexame do Jabor? Segundo Mino Carta, nosso jornalismo é o pior do mundo. Mas se acha o melhor, acrescento. Só seremos um país sério quando jornalistas pagarem por seus crimes de imprensa. E quando deixarmos de ser reféns das quatro famílias que dominam a informação nacional. Minha pouca inteligência se sente ultrajada toda vez que abro um jornalão, vejo uma revistinha ou ligo a TV. Não é estranho uma mídia que se acha acima do bem e do mal? E isso no Brasil, onde o mal é tão banal? Na capacidade de manipular fatos, o Grande Irmão orwelliano era um ingênuo perto da grande imprensa tupiniquim.

Voltei a sentir coceiras na garganta com o noticiário sobre a importação de médicos. Quanta parcialidade, quanta mentira, quanto preconceito! Tudo para atacar um programa que pode render votos ao governo. E o povão que se lasque. FHC foi o primeiro presidente a trazer médicos cubanos para o Brasil, sob os aplausos da mídia “apartidária”. Sinto engulhos quando penso nisso.

Apesar de tudo, acho que o Brasil está mostrando mais a sua cara. Estamos percebendo que somos bonitinhos, mas ordinários. O reino da mentira e do fingimento. Achamos feio falar palavrão, mas deitamos e rolamos no sexo. Dizemos não ter preconceitos, e somos um dos paises mais injustos do mundo. Defendemos a vida de ursinhos panda na China, mas não a de crianças abandonadas em nossas ruas. Somos autoritários, mas posamos de democratas. Pregamos o politicamente correto e praticamos o moralmente incorreto. Pareceu-me que o desmascaramento de comportamentos hipócritas era um dos focos dos protestos de junho. E continua forte, na pauta dos novos comunicadores da internet. Se estivesse no Youtube, eu diria: demorou, porra!