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Na Estante de Lima Barreto

De novo, aparece Julie Lespinasse, a rainha dos salões. Surgem obras de Poe, Gaultier e de Taine – seu autor predileto para assuntos de estética, arte, literatura, história e filosofia. Em meio aos clássicos, desfilam relatos de viagens, música, teatro, pintura e cousas de almanaque. (Anotações sobre localização e características das edições, do próprio Lima).

Continuação da 1a. prateleira – 1a. Estante:

27 – Dominique. Eugène Fromentin.
29 – La Révolution Française. Mignet.
30 – Une Nichée des Gentilshommes. I. Tourgueneff.
31 – La France d’Aujourd’hui. Barret-Wendell.
32 – Fumée. I. Tourgueneff.
33 – Souvenirs d’Enfance et de Jeunesse. E. Renan.
34 – Julie de Lespinasse. M. de Ségur.


35 – La France en 1614. G. Hanotaux.
36 – Sargento-Mor de Vilar. A. Gama.
37 – Diversas novelas. Balzac.
38-40 – Mil e Uma Noites. Galland. (falta 1 vol., só estão 3). Estão na 4a. E., 2a. Prat.
41 – Arte de Furtar. (?) – (Passou para a 4a. Est., 2a. Prat.).
42 – Théâtre Classique. Régnier.
43 – La Religieuse. Diderot.
44 – L’Apprenti Compositeur. J. Claye
45 – As grandes Invenções. Figuier.

2a. Prateleira – 1a. Estante:

46 – Grandezza e Decadenza di Roma. G. Ferrero (1 só volume, o 1o.)
47 – La Vida de Lazarillo de Tormes (em espanhol).
48 – Diderot. A. Reinach.
49 – Descartes. J. Fouillée.
50 – De New York à la Nouvelle-Orleans. Jules Huret.
51 – De San Francisco au Canada. Idem.
52 – Enquête sur l’Invention Littéraire. Idem.
53 – Poésies. A. Chénier.
54 – Paris en Amérique. E. Laboulaye
55 – Le Corrège. Mme. Albana.
56 – Sandro Botticelli. E. Gebhart.
57 – Confessions d’un Enfant du Siècle. Musset.
58 – Physiologie du Goût. B. Savarin. (Passou para 1a. prat., depois do Jules Claye).
62 – Mémoires. Cardinal de Retz. 4 vols.
63 – Précis de Sociologie. Palante.
64 – Évolution et Origine des Espèces. T. Huxley.
65 – Gordon Pym, etc. E. Poe.
66 – Sous le Ciel Vide. J. Boyer.
67 – História da Literatura Portuguesa. Teófilo Braga.
68 – Le Calvaire. O. Mirbeau.
69 – La Femme. Michelet.
70 – Les Jésuites. H. Boehmer.
71 – Histoire d’une Parisienne. O. Feuillet.
72 – Les Végétaux, leur Rôle, etc. Bois et Gadeceau.
73 – La Littérature Française au Moyen-Âge. G. Paris.
74 – Le Bovarysme. J. Gaultier.
75 – As Três Filosofias. L. P. Barreto.
76 – Nouveaux Essais de Critique e d’Histoire. Taine.
77 – Philosophie de l’Art. Taine. 2 vols.
83 – La Littérature Anglaise. Taine. 5 vols.
84-87 – Origens de la France Contemporaine. Taine. 4 vols. (Não está nesta Est., mas na 2a., 4a. Prateleira)
88 – Vie et Opinions de F. T. Graindorge. Taine.

(continua…)

Na estante de Lima Barreto – imagem: Loredano

Um passeio pela biblioteca de Lima Barreto, mulato fluente em francês que sabia o seu lugar na literatura brasileira.
Suba a rua Major Mascarenhas, Vila Quilombo, Rio. Passe pelo o alvoroço de crianças, cachorros e galinhas. Entre na última casa pobre da ladeira pobre. Abra o quarto maior e veja as 5 estantes com 16 prateleiras:

Estante 1 – 1a. prateleira

– Cartas. Mlle. Lespinasse
– Origines et Descendance de l’Home. Haeckel et Bolche.
– Mèlanges d’Economie Politique. Bastiat. 2 vols.
– Eneida. Virgilio (en italiano)
– La Cousine Bette. Balzac
– L’Anthropologie. Topinard
– L’Individu et les Diplômes. Abel Faure
– Pléiades. Gobineau
– O Abolicionismo. J.Nabuco
– Littérature Française. Charles andré
– Idem. Gèruzez. 2 vols.
– Idem. Brunetière. (não está nesta estante; está na 2a., 3a. prateleira).
– La Bible d’Amiens. Ruskin
– Confessions. Rousseau
– Oeuvres. Racine
– Civilizaçao Ibérica. O. Martins
– Pensées. Pascal
– Eugénie Grandet. Balzac
– Caractères. La Bruyère.

(continua em outro passeio…)

Sacis

Gostei da campanha na internet, que celebra o dia das bruxas à brasileira, com o saci-pererê de símbolo e mascote (“Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional!”).

Aderi à onda mais por superstição do que intenção. Pela manhã, vi um post da campanha no facebook de um amigo. À tarde, notei que outro amigo tinha trocado sua foto de perfil por um saci. À noite, ao fazer palavras cruzadas, deparei-me com “entidade folclórica de cachimbo”, quatro letras. No dia seguinte, no café da manhã, quase engasgo ao ler na coluna de obituários: “O saci-pererê japonês” – homenagem a Toshiro Ono, dono do Saci-Pererê, histórico restaurante e casa de shows paulistana, onde Baden Powell e outros ícones deram muita canja. Achei que quatro avisos do negrinho travesso em menos de 24 horas eram demais, mesmo para um descrente como eu. Corri para o computador e compartilhei o post do amigo. Só depois me dei conta de que era uma campanha.

Nada tenho contra estrangeiros nem estrangeirismos, desde que a palavra ainda não tenha sido aportuguesada. Outro dia, desatento, escrevi stress e meu querido e zeloso editor corrigiu para estresse. Assim é que deve ser, pois a língua é a base da nossa cultura. Antigamente, as inovações culturais eram levadas de um povo a outro pelas pessoas, e geralmente eram manifestações que não existiam na nova terra, ou adaptações que juntavam elementos de uma cultura e outra. Nossas festas e personagens folclóricos são resultado do caldo social brasileiro, que mistura negros, índios e portugueses. O saci é um caso típico de mitologia miscigenada. Nascido como lenda indígena, era um curumim moreno, com rabinho, muito endiabrado. Com a chegada dos africanos, virou um negrinho, ganhou cachimbo e perdeu uma perna, lutando capoeira. Por fim, os portugueses colocaram-lhe o gorro vermelho.

Atualmente, surgem pretensas novidades trazidas pelo interesse comercial e disseminação de produtos culturais, sem contato povo a povo. É o caso do halloween, que vemos no cinema, TV e livros americanos, e nosso espírito de colonizados tenta copiar – consumindo em shoppings uma parafernália de artefatos estranhos à nossa história, às nossas raízes, ao nosso jeito de ser. Isso corrói nossa cultura e nos enfraquece como povo. Esse é o xis da questão.

Já temos nosso dia das bruxas, animado por caveiras e mulas-sem-cabeça, além do próprio saci. Quando menino, fiz muita caveira de abóbora com vela, lençol branco e tudo. Colocávamos em cima de muros, terrenos baldios, portas de cemitérios. Era só travessura, e era uma gostosura. Pra que halloween? A única coisa em comum com o dia do saci (31 de outubro) é a abóbora, um legume meio universal.

Talvez eu esteja ficando velho, ranzinza e xiita nacionalista. Pode ser que o halloween derrote nosso esperto saci. Se isso acontecer, proponho ao menos o aportuguesamento do nome para “raluim”. Mas não respondo por mim. Se um grupo de crianças americanizadas tocar minha campainha, sou capaz de uma travessura das grossas.

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Há 90 anos, morria no Rio de Janeiro Afonso Henriques de Lima Barreto, autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” – romance que inaugurou o modernismo na literatura brasileira, dez anos antes da Semana de 22. Escrevo no dia 1o. de novembro de 2012, quinta-feira, dia desse aniversário. Não vejo na mídia qualquer menção à data. Espero que os cadernos culturais do fim de semana tragam algo. Lima Barreto escreveu romances, contos, crônicas, folhetins, memórias. “Nasci sem dinheiro, mulato e livre”, dizia. Dono de um estilo objetivo, coloquial e inovador para a época, despertou a admiração dos modernistas de São Paulo, mas nunca se filiou a qualquer corrente literária. Alinhou-se, porém, ao movimento socialista e libertário.

Retratou como ninguém a hipocrisia, o racismo, o autoritarismo e a violência das elites dominantes da Primeira República brasileira. Atacou o rebuscamento da forma, o conteúdo vazio e a mediocridade dos escritores que deleitavam a nascente burguesia nacional. Investiu contra os barões da mídia e jornalistas consagrados.

Foi, enfim, um verdadeiro saci das letras, cometendo diabruras, azucrinando a vida e desafinando no coro dos contentes bem vestidos e alimentados. Pagou caro por sua ousadia. Almejava o reconhecimento do seu talento, mas nunca o alcançou. Hoje, é considerado um dos maiores escritores brasileiros, ao lado de Machado, Graciliano e outros. “Ou a literatura me dá o que mereço, ou me mata”, escreveu. A literatura matou-o em 1o. de novembro de 1922, aos 41 anos, de alcoolismo, gripe e colapso cardíaco. E indiferença.

Bruzundanga

Lima Barreto criou há quase 100 anos a “República da Bruzundanga”, país onde reinava a desigualdade social, o mau uso do bem público, a incompetência e outras mazelas. Para o cronista,  “pode ser definida a feição geral da sociedade da Bruzundanga com a palavra – medíocre”. Vale a pena examinar algumas questões levantadas pelo mulato carioca, e as formas de luta que ele propunha.

Apesar de não ter sua importância reconhecida pelas elites “culturais” brasileiras, Lima continua atualíssimo. No momento (agosto, 2013) há uma peça em cartaz no Rio (“Lima Barreto, ao Terceiro Dia”) que recupera sua trajetória e idéias. Houve outra montagem na década de 90, dirigida por Aderbal Freire-Filho, com Milton Gonçalves no elenco.

Os políticos, dizia Lima, “são o pessoal mais medíocre que há na Bruzundanga. Pensam ser de carne e sangue diferentes do resto da população”. Uma vez no poder, “tratam não de atender as necessidades do povo, não de lhes resolver os problemas vitais, mas de enriquecerem e firmarem a situação dos seus descendentes e colaterais. Não há homem influente que não tenha trinta parentes ocupando cargos no Estado; não há político que não se ache no direito de deixar para seus filhos, netos, sobrinhos, gordas pensões pagas pela República”.

Em Bruzundanga há uma “nobreza doutoral constituída por cidadãos formados nas escolas chamadas superiores, as de medicina, direito e engenharia. Parece que não há aí nenhuma nobreza; que esses cidadãos vão exercer uma profissão como outra qualquer. É um engano. Em qualquer outro país isto pode se dar; na Bruzundanga, não. Lá, o cidadão que se arma de um título desses obtém privilégios especiais. O doutor anteposto ao nome tem, na Bruzundanga, o efeito do dom na Espanha. O doutor tem prisão especial, mesmo em se tratando dos mais repugnantes crimes, e não pode ser preso como qualquer um (….) O povo vive sugado, esfomeado, maltrapilho, para que algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora rendimentos de outra e qualquer origem”.

Lima Barreto era brutal, às vezes. Mas não se atirava à ação direta. Não promovia greves nem quebrava bondes. Era profundamente black, mas não era bloc. Ficava nas crônicas incendiárias e nas conversas de cafés e livrarias. Aconselhava que se usasse contra os poderosos as armas da ironia. “Nada de violência, nem de barbaridades. Troça e simplesmente troça, para que tudo caia no ridículo. O ridículo mata e mata sem sangue”. Lima fotografou o nascimento da nossa república, e revelou seus males congênitos. Se pudesse ver como Bruzundanga ficou ainda mais ridícula e cruel na maturidade, talvez aconselhasse uma arma diferente da ironia. Mas que matasse. Mesmo sem sangue, vá lá.

Barões, bailarinas e piratas

Aprendi com um amigo filósofo que Deus não gosta de pureza, nem de perfeição. Quem gosta disso é o Diabo. Lembre-se de Hitler matando em nome da raça pura. Deus gosta de mistura. Imagine se o carbono não se misturasse com o hidrogênio. Jamais chegaríamos a Isis Valverde ou Scarlett Johansson. Grande, Deus.

Graças a Deus, portanto, somos impuros, imperfeitos e cometemos erros. Em nossa história recente, muito figurão que errou ou pareceu errar, foi julgado por isso – de forma inédita no Brasil. Uns foram punidos, outros absolvidos, como convém à prática da justiça. Banqueiros, empresários, políticos, altos executivos, juízes, bispos e bispas, fazendeiros, delegados de polícia, ministros, cartolas do futebol, marqueteiros, até um presidente da República – todos sentaram no banco dos réus, e tiveram atos e atitudes avaliados. Até mesmo militares de alto coturno estão hoje sob cerco judicial.

Mas ainda existe um tipo de figurão intocado pela lei e pela justiça. São os últimos representantes do nosso passado colonial e monárquico: os chamados “barões da mídia”, donos de grandes jornais, revistas e TVs. Eles consideram qualquer duvidazinha ou questionamento um crime de censura, e cobrem-se com o sagrado manto da liberdade de expressão, armados até os dentes. Ninguém chega perto, ninguém tasca. Com isso, colocam-se acima de qualquer suspeita, o que já é muito, muito suspeito.

Julgam-se 100% éticos, perfeitos, puros, imparciais e infalíveis. Acho que nem o Papa, os Inquisidores – ou a Bailarina, de Chico Buarque – chegam a tanto. O pior é que toda mídia trabalha sob forte pressão de três conflitos de interesse: os anunciantes, as fontes de informação e os gostos e preferências dos jornalistas, editores e donos dos jornais. Isso é normal, inerente à profissão e à indústria da informação. Segundo Thomas Murray, “conflito de interesses é uma situação que engendra a tendência ou a tentação de chegar a um juízo tortuoso, tomar medidas tortuosas ou aconselhar tortuosamente”. Será que até hoje nenhum barão, editor ou repórter caiu nessa tentação? Nunca deu uma pisadinha sequer – tendo uma plantação de jacas sob os pés?

A verdade é que alguns pisam, mas encobrem isso de várias formas. Uma delas é o medo dos seus ataques, que afasta os questionadores. Outra, é o uso da idéia medieval do palimpsesto, um pergaminho onde se raspa o escrito anterior e se grava outro, sobrepondo-os. Modernamente, serve para apagar e corrigir erros. A revista Veja fez isso quando aconselhou a seus leitores que Demóstenes Torres era o paladino da moralidade e da ética. Pouco depois, o senador afundou na lama de Carlinhos Cachoeira. Veja fez de conta que a entrevista não existiu, colou outra matéria por cima (meio sem pé nem cabeça, chamada “As águas do cachoeira”), e manteve a pose de infalível.

A imparcialidade e a isenção jornalísticas são mitos que não cabe discutir aqui. Toda matéria passa um aconselhamento, que direciona a cognição e o raciocínio do leitor – para o bem ou para o mal. Existem mil técnicas para isso. O uso de cores, a posição de uma foto ou texto na página, a aplicação de um verbo ou nome, o sentido de um título. Por exemplo: Marconi Perillo, governador de Goiás pelo PSDB, tinha oito ou dez suspeitas de envolvimento com Cachoeira. O governador do DF pelo PT, Agnelo Queiroz, tinha umas três. Na Folha de S.Paulo, as denúncias contra Agnelo – apesar de menores – vinham em primeiro lugar, enquanto as de Perillo  vinham abaixo. A mensagem torta: Agnelo estava mais envolvido que Perillo, mesmo que os fatos mostrassem o contrário.

Outro exemplo: na semana passada, Veja anunciou declarações “exclusivas” de Marcos Valério sobre o mensalão. Parecia entrevista, mas era um apanhado de fontes não identificadas, onde amigos de Valério diziam que ele teria dito que… Na capa toda vermelha, o publicitário teve os olhos pintados de preto, o ângulo da foto afunilava seu queixo e imprimia no leitor a imagem do Cão, sem precisar de barbicha e chifrinhos.  Valério negou todas as declarações, em vão. Os grandes jornais repercutiram “os fatos”, validando-os. Somente Carlos Heitor Cony, grande jornalista e escritor, escreveu na Folha que não acreditava na história, e que a matéria de Veja era inominável.

Rupert Murdoch, “barão” mundial da mídia, foi ao parlamento inglês explicar grampos que seus funcionários fizeram ilegalmente. No Brasil, segundo a PF, a revista Veja usou gravações ilegais feitas pela quadrilha de Cachoeira, em troca de notícias favoráveis aos bandidos. O chefe de Veja em Brasília – Policarpo, que ainda não teve um triste fim – até pediu um grampinho especial ao bando. Roberto Civita, dono de Veja, não explicou as “medidas tortuosas” de seus funcionários. Ao contrário, foi defendido por outros barões, em nome da velha liberdade de imprensa. Um dos maiores jornalistas brasileiros, Claudio Abramo, dizia que o jornalismo é o exercício diário da inteligência, da coragem e do caráter. Muitos profissionais e donos de jornais compartilham dessa ideia. Resta chamar à responsabilidade aqueles que cedem à tentação de fugir desse rumo. Não é vergonha, e vai nos livrar da síndrome de bailarina infantil, perfeita, pura, sem defeitos. O espetáculo da nossa mídia será mais humano. E muito melhor.  Além de mudar em definitivo a imagem cunhada por Lima Barreto: “não há nada tão parecido como um pirata antigo e um jornalista moderno”.

Cezar Bergantini

Setembro/2012

O show da literatura

Até meados do século passado, a literatura e a arte foram muito presentes em nossas cidades. Atualmente, isso ainda acontece. Mas falo de vilarejos nos cafundós do Judas. Hoje, qual é o programa cultural numa aldeola do Brasil? Michel Teló berrando no alto-falante da pracinha. Jovens curtindo cerveja e um pancadão nos subwoofers de seus carangos.

Entre 1910 e 1950, não era assim. Quase todos os lugarejos tinham “Casas de Machado de Assis” ou “Círculos Literários” que promoviam eventos disputadíssimos. A moda começou no Rio. Sem TV e com o rádio engatinhando, as conferências literárias eram o grande show. Segundo Lima Barreto, a conferência exige saber nas letras, habilidade no tratar o assunto e elegância na exposição. E no Brasil, ganhou exigências adicionais: desembaraço e graça do expositor, capricho no vestuário, além de beleza e sedução pessoal. O poeta Olegário Mariano (autor de “Papo pro ar” – “Não quero outra vida pescando no rio de jereré…”) possuía todos esses atributos. Em 1920, Olegário escreveu um poema sensual chamado “A cigarra”, usando o inseto como metáfora de mulher.  A coisa virou febre. O poeta recebia caixas e caixas de cigarras secas que –  de norte a sul do Pais – suas fãs lhe mandavam. Ganhou mais cigarras do que Wando recebeu em calcinhas. Desesperado, matou a bichinha num poema fúnebre chamado “O enterro da cigarra”. Piorou. Passou a recebê-las também em caixõezinhos.

Recentemente, caiu-me às mãos o livro “Homens e Coisas de Mirassol”, de Ariovaldo Correa, publicênciaado em 1960. Mirassol, no interior de São Paulo, também teve uma “Casa de Machado de Assis”, e recebeu vários literatos. Um deles, Agripino Grieco, o temido crítico, esteve lá duas vezes, em 1938 e 1944. Grieco fez conferências por mais de 20 anos, Brasil afora. Sarcástico, investia contra os modernistas – particularmente Drummond (“esse moço rabisca umas frases duras, enigmáticas e conclui de modo cabalístico: ‘desconfio que escrevi em poema!’ – ao que eu adianto logo: os mineiros são muito desconfiados!”). Era um showman. O auditório delirava, aplaudindo-o no meio da fala. Nessas turnês, os literatos também agiam como fertilizadores, incentivando novos autores. Em Mirassol, Grieco encantou-se com a poesia de Miguel Cione, um farmacêutico. Criticou-lhe “a modéstia, essa terrível inimiga da gente do interior” e estimulou Cione a publicar os poemas. Mas o boticário manteve-os na gaveta. Ariovaldo Correa, o cronista, não se conteve: “deveria haver sanções para punir criminosos dessa natureza: artistas puríssimos que não acreditam no próprio talento…”.

Outro peso-pesado em Mirassol foi José Lins do Rego, que lá aportou em 1944. Falou sobre o humor nordestino. A saudação foi feita por Ariovaldo, com grande erudição e entusiasmo. Zé Lins agradeceu a acolhida num bilhete, ao voltar para o Rio.

Episódios como esses ocorreram em muitas cidadezinhas, durante essa época. Mas em Mirassol sucedeu algo raro, diferente, que colocou a cidade, em definitivo, na história da literatura brasileira. Aconteceu quando era um povoado no meio da mata, sem igreja matriz nem casa alguma de Machado de Assis.

Em 1921, instalou-se lá o médico sergipano Ranulfo Prata, recém-formado no Rio, onde fizera relações nos meios intelectuais e literários. Prata escreveu “Navios Iluminados”, que retrata a dura vida dos estivadores do porto de Santos. Suas pesquisas sobre o cangaço, reunidas no livro “Lampião”, serviram de base para o roteiro do clássico filme  “O Cangaceiro”. Casou-se em Mirassol. Quem pediu a mão da noiva foi Jackson de Figueiredo, escritor e filósofo sergipano que fundou o movimento católico leigo no Brasil – de onde saíram Tristão de Athayde, Gustavo Corção e outros.

Prata era admirador e amigo de Lima Barreto, e se afligia com a penúria e sofrimento do escritor – já internado duas vezes por alucinações alcoólicas. Decidiu trazê-lo para Mirassol. Pensava curá-lo à base de leite, literatura e ar puro. Em 1o de abril de 1921, Lima Barreto embarcou feliz num trem da Central, seduzido pela aventura e pelo nome pitoresco do povoado. Era a terceira viagem que fazia na vida. Antes, visitara Juiz de Fora em 1910, e Ouro Fino em 1916. Mas foram fugas e atropelos. Agora – com despesas pagas pelo amigo Prata – viajava de verdade, num vagão de primeira classe, escritor consagrado. Parou em São Paulo onde conheceu pessoalmente Monteiro Lobato, seu novo editor. Escreveu três crônicas descrevendo a viagem (“Até Mirassol”) e outras duas narrando a estadia (“Dias de Roça” e “Generosidade”). Trouxe livros para resenhar, revisões para fazer, etc. Foi recebido com alegria e fraternidade. Vendeu seus livros a preço de custo aos mirassolenses. Ficou dois meses na cidade. No primeiro, não bebeu, travou amizades, ia ao cinema. Observava o desmatamento, a invasão do café, a grilagem das terras, lia e escrevia. Aí, pediram-lhe uma conferência literária em Rio Preto, cidade maior e vizinha. Lima tremeu. Nunca fizera uma conferência na vida. Tinha pânico de auditórios. Mas não podia frustrar os amigos. Elaborou a conferência como se fosse seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (onde concorreu – em vão – por três vezes). Ironizou o show das conferências e sintetizou o que pensava sobre literatura, arte e estética – usando como referência seus filósofos prediletos, e como exemplo prático, o “Crime e Castigo” do amado Dostoievski.

Tudo pronto, chegou o grande dia. Sairiam em carreata rumo a Rio Preto. Mas na hora da largada, cadê o Lima? Alucinado, Prata vasculhou a vila até encontrar o amigo num boteco – sem a menor condição de jogo. Lima não conseguiu vencer o medo. Depois disso, entregou-se novamente à cachaça, até que Ranulfo Prata embarcou-o de volta para o Rio, onde morreria dezoito meses depois. A conferência que escreveu em Mirassol, chamada “O Destino da Literatura”, ficou conhecida como seu testamento literário. Ali ele afirma que a literatura não é a beleza plástica da forma e da técnica. Ela serve para unir os homens, estabelecendo uma “harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas, aparentemente as mais diferentes, mas semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos”. Lima Barreto voltou para o Rio talvez pensando na mesma frase com que fechou sua crônica na viagem de ida: “e continuamos a correr sobre os trilhos da Central, dentro da escuridão da noite que, se é mãe do Crime e do Vício, é também a intermediária mais perfeita entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca”.