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O escritor imaginário

O escritor imaginário imagina que é escritor. É uma síndrome comum, que geralmente acomete as vítimas na adolescência e perdura pela vida afora conforme a gravidade de cada caso. A maioria consegue curar-se quando o mundo começa a impor responsabilidades, como trabalhar, casar, pagar o apartamento e o carro usado, mas a verdade é que ninguém, uma vez atingido pela enfermidade, se recupera plenamente.

Existe escritor imaginário que imagina escrever poesias, contos, romances inclusive. Às vezes, consegue até publicá-las. Quando isso acontece, e muita gente ama ou odeia, mas todos devoram a obra fresca no mercado, estamos diante do escritor imaginário de sucesso real, o chamado sucesso de público. Como um bruxo, ele não apenas imaginou-se escritor, mas fez milhões de pessoas imaginarem a mesma coisa. Paulo Coelho é o mais bem sucedido caso desse tipo. Nunca antes na história deste País alguém conseguiu, como ele, vender tanto a tantos, durante tanto tempo. Particularmente, não acho isso ruim, e duvido que haja brasileiro que não se envaideça um tiquinho, mesmo cuspindo de lado, em ser compatriota de Dom Paulete, nosso mago imortal, definitivo e muito bem biografado.

Outro escritor imaginário imagina que ser escritor é publicar livros. Paga do próprio bolso pequenas edições (que só os amigos compram), na noite de autógrafos (paga do próprio bolso) capricha nas dedicatórias, e tempos depois fica chocado ao ver sua obra jogada no canto de um sebo, na pilha do 1,99, com dedicatória, manchas secas de champanhe e tudo. Com o bom senso enfraquecido pela síndrome, ele imagina que publicar um livro é elevar-se acima dos mortais, é tornar-se um messias, um herói, alguém capaz de transformar em beleza o horror da vida, de revelar os mistérios do mundo, de enxergar com um só olhar todo o universo.

Há, de fato, escritores que conseguem essas proezas. São os casos mais graves e incuráveis da síndrome. Sua doença consiste em ganhar – ou perder – a vida escrevendo. Escrevem relatórios, projetos, monografias, contratos, matérias de jornais, campanhas, anúncios, cartões de natal, às vezes até obras em nome de outros. E na calada da noite, ou ao raiar do dia, ou sempre que estão sozinhos – a louça lavada e o computador finalmente sem ninguém –  escrevem o que eles imaginam que um verdadeiro escritor escreve. Escrevem contos, versos, peças, novelas. Poucos chegam ao heroísmo de um bom romance, é verdade, mas muitos estão se dando razoavelmente bem usando a internet como escrivaninha. Vários deles – alguns entrados nos cinquenta – nunca publicaram um livro sequer, mas continuam imaginando que são escritores, continuam escrevendo e sofrendo e arfando em busca do aleph de todos os significados, que surge na noite e desaparece no dia, presente e inalcançável como os amores do passado; aquela palavra, frase ou verso capaz de – como dizia um escritor inglês – dar uma sensação do que há na vida de complexo, terrível, resplandecente e nebuloso.

Dia desses, descobri mais um tipo de escritor imaginário: o cronista. Isso mesmo. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues? Todos escritores imaginários que imaginávamos escritores. Ao contrário do que pensavam esses doentes, crônica não é literatura. Se fosse, estaria entre os gêneros do concurso literário anual da Fundação Biblioteca Nacional, instituído pelo Ministério da Cultura, que premia com R$ 30 mil – R$ 21.000 sem impostos – obras e autores pela sua qualidade literária, originalidade e contribuição à cultura do país. Ela, justamente ela, o produto brasileiro mais apreciado no exterior depois do futebol, dos travecos e dos corruptos endinheirados, está fora do rol do Minc. Pelo que se vê no edital, a crônica não preenche os requisitos de uma boa literatura, não traz nenhuma contribuição à geléia geral da nossa cultura, como faz e deve fazer a literatura de verdade, seja de que gênero for. Para os sagazes governantes culturais, a crônica – assim como teatro e biografias, também excluídos do negócio – não é de verdade. É apenas uma literatura imaginária, feita por escritores imaginários, revisada e publicada por editores imaginários, e lida por você, meu atento e imaginário leitor.

Os esquecidos

Hoje é o encerramento da maior festa literária do Brasil, realizada em Parati por uma editora inglesa. O homenageado deste ano, Millor Fernandes, dispensa comentários: é um daqueles imortais que foi e será, sem nunca ter sido. Eu gostaria de ter ido na festa apenas por três jornalistas-escritores: o brasileiro Sérgio Augusto, o norteamericano David Carr, e o mexicano Juan Villoro. Um não tem nada a ver com o outro – mas escrevem muito bem e produzem encanto literário.

Sérgio Augusto é o último jornalista cultural sobrevivente do Pasquim, ainda na ativa, com uma coluna semanal no Estadão. Fazia a santíssima trindade intelectual do jornal, junto com Paulo Francis e Ivan Lessa – já falecidos. Millor reinava à parte, talvez um pouco acima deles. Sérgio é um deleite para a inteligência, navega com simplicidade, elegância e humor pelas águas da literatura, do cinema, da música, do teatro, da política, da filosofia, do showbizz, da história enfim.

David Carr é uma das estrelas do New York Times, com extensa ficha médica e policial, devido ao seu histórico de alcoolismo, drogas, sexo e encrencas. Só conseguiu se manter limpo e sóbrio depois de revisitar o próprio passado, numa reportagem auto-biográfica. Ele nada mais fêz do que o Quarto Passo dos Alcoólicos Anônimos, isto é, um minucioso e destemido inventário de si mesmo. O resultado não é recomendável para leitores de estômago sensível. O próprio NYT sentiu engulhos ao saber que tinha na folha de pagamento um cinquentão traficante, alcoólatra, explorador de mulheres, viciado em crack, que escreveu sua história não para ajudar a humanidade, mas para salvar a si mesmo de uma outra – e mortal – recaída. Além de brilhante, Carr é honesto, demasiadamente honesto.

Juan Villoro é um mexicano criado em Berlin e torcedor do Barcelona. Talvez seja o maior escritor mexicano vivo. Uma das raras pessoas a merecer de Roberto Bolaño uma dedicatória num conto, Villoro é um cronista sarcástico e um corajoso narrador da violência social em seu país, capaz de produzir histórias infanto-juvenis e críticas ácidas ao universo das redes digitais – segundo ele uma armadilha que está atraindo milhões de jovens e destruindo a capacidade intelectual desta geração e das próximas também.

Eu colocaria esses três numa possível academia internacional de letras. Villoro, aliás, acaba de ser nomeado para o Colégio Nacional, espécie de ABL mexicana. Mas para mim, essas agremiações não contam. São todas fruto de “um pacto entre espíritos amigos”, como dizia Graça Aranha. Semana passada alguns leitores deploraram o fato de existirem não-escritores na Academia. Infelizmente, a mazela é internacional. Segundo Josué Montello, desde que Richelieu fundou a Academia Francesa, “só se é acadêmico andando nas boas graças oficiais”.

Minha Academia Internacional teria milhares de membros, vivos e mortos, todos fora das “boas graças oficiais”, como Rimbaud, Lima Barreto, Ginsberg, Leminski, Ana Cristina César, Poe, Zé Mauro de Vasconcellos, Hilda Hilst, Carver e outros menos cotados. Todos usariam pseudônimos, como os membros da Academia dos Esquecidos, a primeira fundada no Brasil em 1724: Obsequioso, Nubiloso, Ocupado, Menos Ocupado, Laborioso, Vago, Venturoso. Tratariam a literatura como resistência humana. Tratariam de temas frívolos, brincariam de poesia concreta, escreveriam sátiras e acrósticos. E fariam com que a fantasia, a alegria, o afeto, a aventura e a rebeldia jamais fossem esquecidos.

A morte dos imortais

Nossos imortais estão morrendo à razão de um por semana. Nos últimos 25 dias, foram-se o poeta Ivan Junqueira, o buda ditoso João Ubaldo e o encantado Ariano Suassuna. Isso nunca aconteceu antes. Depois da Copa, o mundo perdeu o respeito pelo Brasil. Qualquer um – inclusive a morte e o ministro de Israel – acha que pode nos enfiar reveses e desaforos à vontade.

O pior é que na Academia Brasileira de Letras a média atual de idade (excetuando três moços abaixo dos 70) é de 80 anos. Existem quatro imortais com mais de 90, e um centenário: o advogado Evaristo de Moraes Filho. Está fácil para a morte fazer mais quatro ou cinco gols, igualando e até superando a marca alemã.

Forçada por essas nefastas circunstâncias, a ABL terá que renovar o time. Tenho pouquíssimas expectativas quanto a isso. Como a Seleção, ela só vai repor jogadores, sem alterar os critérios de escalação e sem mexer na forma de jogar. Continuará a ser um convescote de octogenários ligados ao poder, mas que pouco – ou nada – tem a ver com literatura de verdade. As exceções existem, e apenas confirmam a regra.

Não me refiro somente a Sarney e FHC, exemplos notórios dessa aberração, nem a Nelson Pereira dos Santos e Ivo Pitanguy – grandes em suas áreas, mas sem nada que os autorize a sentar nas cadeiras de Castro Alves e Euclides da Cunha. Também me repugnam as escolhas de não-escritores completamente desconhecidos. Como o professor de filosofia Tarcísio Padilha, membro da Escola Superior de Guerra e filho de político, que ocupa a cadeira de Álvares de Azevedo e Guimarães Rosa. Ou a professora de literatura Cleonice, que senta no lugar de Cláudio Manuel da Costa. Ou então um comentarista de rádio e TV, escolhido para a cadeira de Cassiano Ricardo apenas porque escreveu dois livretos de (má) reportagem contra… o PT!

Tem muita mosca na sopa de letrinhas brasileira. O próprio presidente da ABL – o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti – é um ilustre desconhecido. Escreveu exata meia dúzia de livros e traduziu outro tanto, mas duvido que sua obra justifique a ocupação do assento de Martins Pena e Artur Azevedo. Criticar um imortal sem tê-lo lido pode ser um pecado mortal. Talvez eu esteja errado, talvez Geraldo seja um beletrista de boa cepa. Ok, vou ler “O Mandiocal de Verdes Mãos” e, se for o caso, me penitencio.

Em vez de um chá de anciãos, a Academia poderia ser um polo de discussão e promoção das letras brasileiras. Segundo o professor Antonio Cândido, a literatura é fundamental para a humanização, esse “processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”

Aos 96 anos (completados esta semana), Cândido não é acadêmico. Ainda bem. Não corre o risco de alimentar o índice de mortalidade dos efêmeros imortais da ABL – mais preocupados com seus jogos de poder e vaidade do que em distribuir quotas de humanidade à população.

Na Estante de Lima Barreto

De novo, aparece Julie Lespinasse, a rainha dos salões. Surgem obras de Poe, Gaultier e de Taine – seu autor predileto para assuntos de estética, arte, literatura, história e filosofia. Em meio aos clássicos, desfilam relatos de viagens, música, teatro, pintura e cousas de almanaque. (Anotações sobre localização e características das edições, do próprio Lima).

Continuação da 1a. prateleira – 1a. Estante:

27 – Dominique. Eugène Fromentin.
29 – La Révolution Française. Mignet.
30 – Une Nichée des Gentilshommes. I. Tourgueneff.
31 – La France d’Aujourd’hui. Barret-Wendell.
32 – Fumée. I. Tourgueneff.
33 – Souvenirs d’Enfance et de Jeunesse. E. Renan.
34 – Julie de Lespinasse. M. de Ségur.


35 – La France en 1614. G. Hanotaux.
36 – Sargento-Mor de Vilar. A. Gama.
37 – Diversas novelas. Balzac.
38-40 – Mil e Uma Noites. Galland. (falta 1 vol., só estão 3). Estão na 4a. E., 2a. Prat.
41 – Arte de Furtar. (?) – (Passou para a 4a. Est., 2a. Prat.).
42 – Théâtre Classique. Régnier.
43 – La Religieuse. Diderot.
44 – L’Apprenti Compositeur. J. Claye
45 – As grandes Invenções. Figuier.

2a. Prateleira – 1a. Estante:

46 – Grandezza e Decadenza di Roma. G. Ferrero (1 só volume, o 1o.)
47 – La Vida de Lazarillo de Tormes (em espanhol).
48 – Diderot. A. Reinach.
49 – Descartes. J. Fouillée.
50 – De New York à la Nouvelle-Orleans. Jules Huret.
51 – De San Francisco au Canada. Idem.
52 – Enquête sur l’Invention Littéraire. Idem.
53 – Poésies. A. Chénier.
54 – Paris en Amérique. E. Laboulaye
55 – Le Corrège. Mme. Albana.
56 – Sandro Botticelli. E. Gebhart.
57 – Confessions d’un Enfant du Siècle. Musset.
58 – Physiologie du Goût. B. Savarin. (Passou para 1a. prat., depois do Jules Claye).
62 – Mémoires. Cardinal de Retz. 4 vols.
63 – Précis de Sociologie. Palante.
64 – Évolution et Origine des Espèces. T. Huxley.
65 – Gordon Pym, etc. E. Poe.
66 – Sous le Ciel Vide. J. Boyer.
67 – História da Literatura Portuguesa. Teófilo Braga.
68 – Le Calvaire. O. Mirbeau.
69 – La Femme. Michelet.
70 – Les Jésuites. H. Boehmer.
71 – Histoire d’une Parisienne. O. Feuillet.
72 – Les Végétaux, leur Rôle, etc. Bois et Gadeceau.
73 – La Littérature Française au Moyen-Âge. G. Paris.
74 – Le Bovarysme. J. Gaultier.
75 – As Três Filosofias. L. P. Barreto.
76 – Nouveaux Essais de Critique e d’Histoire. Taine.
77 – Philosophie de l’Art. Taine. 2 vols.
83 – La Littérature Anglaise. Taine. 5 vols.
84-87 – Origens de la France Contemporaine. Taine. 4 vols. (Não está nesta Est., mas na 2a., 4a. Prateleira)
88 – Vie et Opinions de F. T. Graindorge. Taine.

(continua…)

Balzac S/A

DSCN2524Ao ler Balzac, de Johannes Willms, ocorreu-me que se vivesse hoje o escritor francês seria rico. Podre de rico. Talvez não um top ten da Forbes. Mas provavelmente estaria entre os 100 maiores. Por um motivo simples: sua inacreditável capacidade de gerar riqueza midiática. Não porque produzia e fazia produzir, com disposição napoleônica e em escala industrial, romances, contos, folhetins, crônicas, teatro, crítica, projetos, bate-bocas, casos amorosos, anedotas, notícias, caricaturas, processos judiciais e – de forma mais industrial ainda – dívidas. Mas principalmente porque ele criou e recriou inúmeros produtos e formatos da indústria editorial, jornalística, gráfica e publicitária.
Balzac inventou o romance moderno. São devedores dele: Proust, Joyce, Rosa, Borges, entre outros. Sua linguagem está viva até hoje. Segundo pesquisa de Franklin Jorge, “lavagem de dinheiro” e “laranja” são gírias balzaquianíssimas. “Tia”, para homossexual de meia-idade, também. Ele escrevia para o plebeu, para o aristocrata, para o militar. Também era lido pela burguesia, embora não fosse seu target (Honoré era monarquista e antirrevolucionário). Chegou a ter uma boa agente literária – Louise de Brugnol – mas a pobre labutava também como governanta, mãe, enfermeira e amante. Nessa ordem. Balzac a chamava de “mulher-cão”. Se tivesse agentes profissionais, Balzac teria vendido mais que Paulo Coelho e J.K. Rowling juntos.
Depois, inventou o folhetim – o cavalo a vapor que bombou as primeiras engrenagens jornalísticas, depois a máquina do rádio e agora a indústria da TV. Ele mesmo não conseguiu adaptar-se à narrativa fracionada, nem criar os ganchos que o formato exige. Ironicamente, quem mais lucrou à época foi um inimigo jurado de Balzac, Eugène Sue, um dos primeiros mestres do “gancho”. Depois vieram Glória Magadan, Dias Gomes, Aguinaldo Silva…
Empresário gráfico, Balzac criou o bolsilivro. Infelizmente, um fracasso de vendas, pois as limitações gráficas tornavam o formato quase ilegível. Com essa invenção, ele amargou sua primeira falência. Atualmente, teria enchido os bolsos com Brigitte Monfort, FBI, Colt, Sabrina e similares.
Balzac inventou o político de massas midiático quando nem havia política de massas. Tentou eleger-se com base na sua popularidade, mas a maioria dos seus fãs não eram eleitores. Antes de 1848, só votava na França quem pagasse a fortuna de 200 francos anuais de impostos. Num regime político de massas, entretanto, Honoré nocautearia Schwarzenegger. Daria um banho em Cicciolina.
Era um marqueteiro nato. Viveu de merchandising quando a propaganda ainda engatinhava. Seu alfaiate, Buisson, recebeu cinco inserções na Comédia Humana. Em troca, crédito ilimitado para o caríssimo fashion balzaquiano. Despesas com festins em restaurantes da moda? Receitas de merchandising. Os fictícios Lucien de Rubempré e Henry de Marsay, eram habitués das mesmas casas que seu criador. Só o Rocher de Canale, um dos templos gastronômicos da época, é mencionado 39 vezes na Comédia.
Balzac inventou também o marketing promocional. Fez de si próprio um personagem famosíssimo, mas não conseguiu administrá-lo. Volta e meia, misturava o homem e o personagem, a realidade e a aparência. E dava com os burros n’água. Um apoio psicológico e uma consultoria de imagem competentes o teriam transformado num produto valiosíssimo. Talvez superior a Dali, se tivesse Gala. Ou Caetano, se tivesse Paulinha.
Por fim, Balzac inventou os direitos autorais. Ele escreveu a base da lei francesa de 1854 e também redigiu um código literário que regulamentava o direito dos autores perante editores – transformado em lei 12 anos após sua morte. Honoré deve ter chacoalhado seus endividados ossos na cova. Quando vivo, nunca viu a cor (só o cheiro, uma vez) de uma comissão. Hoje em dia, os direitos autorais giram bilhões de dólares ao redor do mundo.
Proust dizia que a grande arte leva uma geração para ser aceita. Balzac sacou isso antes, ao perceber que só ficaria rico quando não precisasse mais. Em abril de 1842, ele escreveu: “é preciso transcorrer meio século até que uma coisa grande seja, enfim, compreendida”. Proust – que não dependia da sua pena para viver – escrevia em busca do tempo perdido. Para Balzac, tempo era money. Ele escrevia em busca da grande tacada. Pena que não viveu para ver as tacadas milionárias que se tornaram suas obras, suas invenções, suas lutas, sua vida. Daria para construir uma holding: Balzac S/A.

Na estante de Lima Barreto – imagem: Loredano

Um passeio pela biblioteca de Lima Barreto, mulato fluente em francês que sabia o seu lugar na literatura brasileira.
Suba a rua Major Mascarenhas, Vila Quilombo, Rio. Passe pelo o alvoroço de crianças, cachorros e galinhas. Entre na última casa pobre da ladeira pobre. Abra o quarto maior e veja as 5 estantes com 16 prateleiras:

Estante 1 – 1a. prateleira

– Cartas. Mlle. Lespinasse
– Origines et Descendance de l’Home. Haeckel et Bolche.
– Mèlanges d’Economie Politique. Bastiat. 2 vols.
– Eneida. Virgilio (en italiano)
– La Cousine Bette. Balzac
– L’Anthropologie. Topinard
– L’Individu et les Diplômes. Abel Faure
– Pléiades. Gobineau
– O Abolicionismo. J.Nabuco
– Littérature Française. Charles andré
– Idem. Gèruzez. 2 vols.
– Idem. Brunetière. (não está nesta estante; está na 2a., 3a. prateleira).
– La Bible d’Amiens. Ruskin
– Confessions. Rousseau
– Oeuvres. Racine
– Civilizaçao Ibérica. O. Martins
– Pensées. Pascal
– Eugénie Grandet. Balzac
– Caractères. La Bruyère.

(continua em outro passeio…)

O show da literatura

Até meados do século passado, a literatura e a arte foram muito presentes em nossas cidades. Atualmente, isso ainda acontece. Mas falo de vilarejos nos cafundós do Judas. Hoje, qual é o programa cultural numa aldeola do Brasil? Michel Teló berrando no alto-falante da pracinha. Jovens curtindo cerveja e um pancadão nos subwoofers de seus carangos.

Entre 1910 e 1950, não era assim. Quase todos os lugarejos tinham “Casas de Machado de Assis” ou “Círculos Literários” que promoviam eventos disputadíssimos. A moda começou no Rio. Sem TV e com o rádio engatinhando, as conferências literárias eram o grande show. Segundo Lima Barreto, a conferência exige saber nas letras, habilidade no tratar o assunto e elegância na exposição. E no Brasil, ganhou exigências adicionais: desembaraço e graça do expositor, capricho no vestuário, além de beleza e sedução pessoal. O poeta Olegário Mariano (autor de “Papo pro ar” – “Não quero outra vida pescando no rio de jereré…”) possuía todos esses atributos. Em 1920, Olegário escreveu um poema sensual chamado “A cigarra”, usando o inseto como metáfora de mulher.  A coisa virou febre. O poeta recebia caixas e caixas de cigarras secas que –  de norte a sul do Pais – suas fãs lhe mandavam. Ganhou mais cigarras do que Wando recebeu em calcinhas. Desesperado, matou a bichinha num poema fúnebre chamado “O enterro da cigarra”. Piorou. Passou a recebê-las também em caixõezinhos.

Recentemente, caiu-me às mãos o livro “Homens e Coisas de Mirassol”, de Ariovaldo Correa, publicênciaado em 1960. Mirassol, no interior de São Paulo, também teve uma “Casa de Machado de Assis”, e recebeu vários literatos. Um deles, Agripino Grieco, o temido crítico, esteve lá duas vezes, em 1938 e 1944. Grieco fez conferências por mais de 20 anos, Brasil afora. Sarcástico, investia contra os modernistas – particularmente Drummond (“esse moço rabisca umas frases duras, enigmáticas e conclui de modo cabalístico: ‘desconfio que escrevi em poema!’ – ao que eu adianto logo: os mineiros são muito desconfiados!”). Era um showman. O auditório delirava, aplaudindo-o no meio da fala. Nessas turnês, os literatos também agiam como fertilizadores, incentivando novos autores. Em Mirassol, Grieco encantou-se com a poesia de Miguel Cione, um farmacêutico. Criticou-lhe “a modéstia, essa terrível inimiga da gente do interior” e estimulou Cione a publicar os poemas. Mas o boticário manteve-os na gaveta. Ariovaldo Correa, o cronista, não se conteve: “deveria haver sanções para punir criminosos dessa natureza: artistas puríssimos que não acreditam no próprio talento…”.

Outro peso-pesado em Mirassol foi José Lins do Rego, que lá aportou em 1944. Falou sobre o humor nordestino. A saudação foi feita por Ariovaldo, com grande erudição e entusiasmo. Zé Lins agradeceu a acolhida num bilhete, ao voltar para o Rio.

Episódios como esses ocorreram em muitas cidadezinhas, durante essa época. Mas em Mirassol sucedeu algo raro, diferente, que colocou a cidade, em definitivo, na história da literatura brasileira. Aconteceu quando era um povoado no meio da mata, sem igreja matriz nem casa alguma de Machado de Assis.

Em 1921, instalou-se lá o médico sergipano Ranulfo Prata, recém-formado no Rio, onde fizera relações nos meios intelectuais e literários. Prata escreveu “Navios Iluminados”, que retrata a dura vida dos estivadores do porto de Santos. Suas pesquisas sobre o cangaço, reunidas no livro “Lampião”, serviram de base para o roteiro do clássico filme  “O Cangaceiro”. Casou-se em Mirassol. Quem pediu a mão da noiva foi Jackson de Figueiredo, escritor e filósofo sergipano que fundou o movimento católico leigo no Brasil – de onde saíram Tristão de Athayde, Gustavo Corção e outros.

Prata era admirador e amigo de Lima Barreto, e se afligia com a penúria e sofrimento do escritor – já internado duas vezes por alucinações alcoólicas. Decidiu trazê-lo para Mirassol. Pensava curá-lo à base de leite, literatura e ar puro. Em 1o de abril de 1921, Lima Barreto embarcou feliz num trem da Central, seduzido pela aventura e pelo nome pitoresco do povoado. Era a terceira viagem que fazia na vida. Antes, visitara Juiz de Fora em 1910, e Ouro Fino em 1916. Mas foram fugas e atropelos. Agora – com despesas pagas pelo amigo Prata – viajava de verdade, num vagão de primeira classe, escritor consagrado. Parou em São Paulo onde conheceu pessoalmente Monteiro Lobato, seu novo editor. Escreveu três crônicas descrevendo a viagem (“Até Mirassol”) e outras duas narrando a estadia (“Dias de Roça” e “Generosidade”). Trouxe livros para resenhar, revisões para fazer, etc. Foi recebido com alegria e fraternidade. Vendeu seus livros a preço de custo aos mirassolenses. Ficou dois meses na cidade. No primeiro, não bebeu, travou amizades, ia ao cinema. Observava o desmatamento, a invasão do café, a grilagem das terras, lia e escrevia. Aí, pediram-lhe uma conferência literária em Rio Preto, cidade maior e vizinha. Lima tremeu. Nunca fizera uma conferência na vida. Tinha pânico de auditórios. Mas não podia frustrar os amigos. Elaborou a conferência como se fosse seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (onde concorreu – em vão – por três vezes). Ironizou o show das conferências e sintetizou o que pensava sobre literatura, arte e estética – usando como referência seus filósofos prediletos, e como exemplo prático, o “Crime e Castigo” do amado Dostoievski.

Tudo pronto, chegou o grande dia. Sairiam em carreata rumo a Rio Preto. Mas na hora da largada, cadê o Lima? Alucinado, Prata vasculhou a vila até encontrar o amigo num boteco – sem a menor condição de jogo. Lima não conseguiu vencer o medo. Depois disso, entregou-se novamente à cachaça, até que Ranulfo Prata embarcou-o de volta para o Rio, onde morreria dezoito meses depois. A conferência que escreveu em Mirassol, chamada “O Destino da Literatura”, ficou conhecida como seu testamento literário. Ali ele afirma que a literatura não é a beleza plástica da forma e da técnica. Ela serve para unir os homens, estabelecendo uma “harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas, aparentemente as mais diferentes, mas semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos”. Lima Barreto voltou para o Rio talvez pensando na mesma frase com que fechou sua crônica na viagem de ida: “e continuamos a correr sobre os trilhos da Central, dentro da escuridão da noite que, se é mãe do Crime e do Vício, é também a intermediária mais perfeita entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca”.