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Regras de ano novo

Finalmente dezembro acabou, levando com ele 2015 – o ano que não terminava. Dezembro é um mês cheio de manhas e contrastes, eu diria até traiçoeiro. O sujeito está no auge da alegria, tomado pelo espírito do Natal, e de repente lá vem a bomba. Morreu fulano! Morreu sicrana! Terremoto, incêndio, estouro do cartão de crédito! Sim, essas coisas acontecem em qualquer mês, mas não é a mesma coisa. Dezembro nos entorpece de felicidade e depois nos joga no buraco da tristeza. Deveria haver regras contra isso.

Devia ser proibido morrer em dezembro. Com isso, Marilia Pera, Tom Jobim, Einstein, Mandela, John Lennon e Chaplin ainda estariam entre nós. Só haveria nascimentos. Dezembro é fértil em bons nascimentos. Jesus é o caso mais célebre, mas há outros. Eu, por exemplo, nasci no dia 15, junto com Nero, Walt Disney e Pero Vaz de Caminha. Dezembro ainda nos deu Beethoven, Frank Sinatra, Nostradamus, Luiz Gonzaga e Edith Piaf. Também nos deu – e depois tirou – Clarice Lispector, Cássia Eller, Niemeyer, Florbela Espanca e D. Pedro II. Este último não faz tanta falta, mas os demais, quanta coisa boa ainda poderiam ter feito pela humanidade, não fosse a sanha implacável de dezembro.

Outra providência urgente para a felicidade geral dos povos, a meu ver, é a unificação dos calendários. Não faz sentido os cristãos comemorarem a chegada de 2016, enquanto os judeus já vão longe com 5776, os muçulmanos idem com 1438 e os chineses só vão curtir a virada de 4711 lá pelo carnaval. Vivemos num só planeta, debaixo do mesmo sol e da mesma lua, já é hora de sincronizarmos nossas folhinhas e contarmos o tempo a partir de um evento único e importante para todas as civilizações. Opções é o que não faltam. Pode ser a descoberta do fogo, ou a invenção da roda, ou a domesticação das galinhas. A redução de custos seria enorme, principalmente para as empresas multinacionais, que fariam um só cartão com o mesmo ano-novo para todos os seus clientes – e uma única vez durante o ano. Nas redes sociais, pela primeira vez na vida, todo mundo estaria na mesma página. Nem Zuckerberg sonhou tão alto.

Poderíamos aproveitar a unificação de datas e alterar também o padrão das mensagens de fim de ano. Acho que “próspero ano novo” e “que tudo se realize no ano que vai nascer” podem ser tolerados, mas eu aboliria de vez qualquer menção a “entes queridos” – apesar de reconhecer que é uma expressão bastante útil, aplicável a inúmeros tipos de afetos: o ente querido pode ser o cachorro, a vizinha, o carro, até mesmo um membro da família. O problema é que ela soa muito séria, parece mais um voto de pêsames. Sem as amarras dessa sisudez, todos seriam mais livres para criar novos augúrios, como fez um adorável amigo meu: desejou um ano “animadão e charmoso” para os seus entes queridos.

Nessas novas regras, estariam mantidos os pulinhos de sete ondas do mar, a sopa de lentilhas, os gomos de romã e os fogos de artifício. Mas seriam eliminados, em definitivo, os rojões e a musiquinha da Globo – essas coisas do século passado que assustam os animais, ferem os ouvidos e interferem no equilíbrio cósmico. E o especial de fim de ano seria sempre com um artista diferente, começando com Chico Buarque. Feliz novo ano novo!

Querido Papai Noel

Eu nunca escrevi uma carta pro senhor. Pra falar a verdade (a gente sempre tem que falar a verdade, né?) eu nunca escrevi uma carta. Mas hoje estou sem whatsapp e não tem outro jeito. Me desculpe então se esta não for uma carta bonita e certinha como aquelas que o senhor tá acostumado a receber.

Não vou mentir dizendo que este ano fui super bonzinho, obediente e não fiz nada nada nada de errado. Na escola eu fui bom aluno, só teve uma vez que colei na prova de matemática, peguei chocolate do Serginho e joguei o iphone novo da Bianca na privada, porque ela ficava exibindo ele e me deu muita raiva, porque o meu pai ainda não comprou um novo pra mim porque ele não tá podendo viajar.

O meu pai falou que essas coisas não tem importância e que o senhor não ia achar que eu sou ruim só por causa disso. Ele falou que todo mundo cola na prova, que o Serginho precisava mesmo comer menos chocolate e que o pai da Bianca podia comprar trocentos iphone pra ela. E se não comprasse, ele comprava.

Meu pai também falou que eu não fiz bulliyng quando ficava imitando guincho de baleia na cara do Julinho Baleia, nem quando ficava rindo e chamando o Denis de florzinha, nem quando desenhava a Sofia com cara de bruxa na lousa e na porta do banheiro. Ele falou que o Julinho era gordo mesmo e que se não gostasse de ser chamado de baleia ele devia emagrecer em vez de ficar comendo feito um porco. Meu pai também falou que era bom eu chamar o Denis de florzinha, que eu tava fazendo um bem pra ele, porque assim o Denis ficava mais esperto e tomava jeito de macho. E a Sofia ele disse que menina feia tem que aprender a se arrumar e se enfeitar se não quiser ser chamada de bruxa, porque nossa! ela parece mesmo uma bruxa, o senhor tem que ver.

Eu também chamei a Bia de gostosa um montão de vezes mas o meu pai falou que isso é normal nos homens, e que a Bia é que fica provocando a gente usando aquelas roupas curtinhas mostrando o fundilho. Até os meninos da outra série ficam olhando pras pernas dela e mandando beijinho pra ela.

Aqui em casa eu também faço tudo certinho, viu? Só não arrumo os brinquedos nem meu quarto porque tem a arrumadeira que arruma. Eu trato todo mundo bem, até a Joana cozinheira que é de cor eu nunca chamei ela de negra. As vezes eu chamo ela de macaca mas ela sabe que é de brincadeira e nunca reclamou. Meu pai também chama ela de macaca quando ela não está perto. Minha mãe fala que cozinheira boa tem que ser de cor e a Joana é a melhor de todas. Por isso que ela tá com a gente mas ela não dorme lá em casa como os outros.

O senhor deve estar morrendo de curioso prá saber que brinquedo eu vou pedir, né? Só que eu não vou pedir brinquedo não. Olha, não fica chateado. Eu tenho brinquedo muito melhor que esses que o senhor tem aí. O que eu quero é outro tipo de presente. Queria que o senhor trouxesse o meu pai prá passar o natal em casa com a gente. É uma injustiça o que estão fazendo com ele. O senhor sabe que ele só fez o que todo mundo faz se quiser ser rico aqui no Brasil. Minha mãe fala que só pobre não faz e por isso é pobre. Foram os inimigos dele que armaram essa pra ele. Se o senhor puder trazer ele eu juro que é só este ano, viu? Ele vai fazer delação prá botar os inimigos dele na cadeia e no natal que vem ele já tá em casa. E aí nós vamos prá Miami comprar tudo o que eu quiser.

A estratégia do espinho

Admiro quem se mantém fiel a costumes. Gente que ao longo da vida conserva a mesma profissão, o mesmo hobbie, o mesmo corte de cabelo. Uma vez ouvi um velho escritor dizer que se orgulhava de sempre ter usado camisas brancas. Essa estabilidade me dá uma sensação de segurança e de firmeza. Parece-me uma espécie de honestidade, de fidelidade a princípios, de saber o que se quer da vida. Gosto de pessoas assim, mas nunca fui assim.

Vivo mudando de gostos, de jeitos, de afazeres. Já trabalhei como auxiliar de escritório, de almoxarifado, de geólogo. Fui professor de datilografia, bancário, jornalista, auditor. Aprendi a lidar com enxada e foice, a dirigir trator e cuidar de horta. Acreditei em Deus e em Seus filhos. Curti rock, música caipira e um pouco de jazz; mais tarde tive uma paixão fugaz por óperas e música clássica.

Gosto de pescar e tenho fotos que atestam a captura de dourados e pintados, mas estaria mentindo se dissesse que sou pescador. Colecionei maços de cigarro, bolinhas de gude e peões. Até hoje sei jogar peões e pegá-los com a mão. Não perdi a pontaria com estilingue e espingardas, e creio que – em caso de necessidade – ainda saberia derrubar com segurança uma peroba ou um ipê. E depois, lavrar seu tronco com o machado e colocá-lo em alguma cumeeira.

Essas lembranças me vem à cabeça nesta época do ano, quando todos falam em mudar e melhorar suas vidas. Também já pratiquei rituais de ano-novo, pendurei desejos em árvores e esperei ansioso por mudanças – que vieram, mas não eram exatamente aquelas que pedi. Por isso, apesar das constantes alterações em minha vida, não acredito mais em mudanças de ano-novo. Ao voltar da viagem de Natal, olhei as contas a pagar debaixo da porta e tive certeza que o ano velho continuava. Lembrei dos inúmeros compromissos e problemas que transferi para janeiro, como se a virada do ano fosse resolvê-los, e percebi que eles apenas se somaram a novos problemas. Lembrei-me, enfim, que nada mudaria e que no fundo não gosto de pessoas imutáveis, embora as admire.

Reconciliado com minha natureza instável, desempacotei o presente de Natal que ganhei de um amigo: um cabeça-de-frade, aquele cacto em forma de bola que dá uma única flor aureolada em cima, como tonsura num frade gorducho. Segui as instruções do meu amigo cactista e acomodei-o cuidadosamente num vaso. À noite, comecei a pesquisar sobre esses seres que apesar de viverem com pouca água e muito sol, são sensíveis, produzem flores belíssimas – e também não gostam de movimentos e mudanças.

Ontem fui a um hipermercado de plantas e comprei mais dois exemplares. Minha mulher olhou de soslaio. É para fazerem companhia ao fradinho, justifiquei, sentindo que ela sentia o surgimento de uma nova fase em minha vida. Ou nova mania, como ela diz.

O importante é que tenho algo novo para curtir nesse 2015 que promete muito calor e pouca água. Pode ser que os cactos sejam uma mania passageira, e em 2016 já tenham ido embora da minha vida. Nesse caso, deixarão saudades e pelo menos um ensinamento: a estratégia dos espinhos, que eles usam para se defender. E também para respirar.

Um novo começo

Cronista às vezes precisa antecipar assuntos para não deixar que virem jornal velho na data do próximo texto. É o caso desta última crônica do ano, escrita e publicada antes do Natal e do ano-novo. Do Natal não tenho muito a dizer, exceto relembrar que quando crianças acreditamos em Papai Noel, depois nos tornamos Papai Noel e por fim acabamos parecidos com Papai Noel. Então é Natal, e ponto final.

Mas gostaria de falar algumas coisas sobre este ano que passou. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que 2014 começou no ano passado. Foi em 2013 que começamos a gritar nossa insatisfação e a exigir mudanças. Foi ali, também, que mostramos nossa união em torno do que não queremos, e percebemos sinais da nossa desunião sobre aquilo que queremos. Em 2014, esses sinais viraram evidências, levaram a união pro brejo, e do brejo trouxeram o que há de mais sombrio – e verdadeiro – em nosso jeito de ser.

Não vou chover no molhado, dizer que somos racistas, que adoramos uma corrupçãozinha, que temos preconceito contra pobres, que amamos somente nosso egoísmo, que nos achamos a última bolacha do pacote. Uma bolacha arrogante, inculta e não bela, mas a última do pacote. Prefiro chover num terreno que já recebeu uns bons chuviscos, mas ainda precisa de muita água pra ficar encharcado: nossa natureza violenta e autoritária, construída sob séculos de regimes dominadores, opressores e dizimadores dos mais fracos. Uma cultura que nasceu com as primeiras matanças de índios, cresceu durante o escravismo, atingiu a maturidade na república, e chegou ao auge com o regime militar.

Com o movimento das diretas-já e o fim da ditadura, tivemos a falsa impressão de atingir um nível civilizatório um pouquinho mais elevado – aquele que respeita, pelo menos, a lei e o próximo. Nos últimos 24 anos, exercitamos a democracia, a legalidade e a diversidade de ideias. Treinamos reciclagem de lixo, coleta de cocô do cachorrinho, respeito à faixa de pedestre. Chegamos a eleger presidentes um operário e uma mulher ex-guerrilheira. Violência e autoritarismo? Somente casos isolados, como massacres de presidiários e de menores de rua, alguns mendigos incendiados, um gay esfaqueado aqui, um ativista baleado acolá.

Aí chegamos em 2014, e acabou-se o que nem era tão doce. De repente, o debate vira agressão, amigo vira inimigo, irmão desconhece irmão. A democracia de novo é uma coisa chata, a legalidade é intolerável, não atende nossas vontades. Não há argumentos, somente ataques. Alguns pedem a volta dos militares, outros ameaçam ir para Miami. A violência e o autoritarismo mostram sua cara nas ruas, na TV, nas rádios – e principalmente nas redes sociais. Os mais exaltados vão a manifestações públicas com revólver na cinta.

Alguns acham que voltamos ao começo, mas acho que nunca saímos dele. Este ano nos mostramos do jeito que realmente somos. Sem a maquiagem da cordialidade, de país abençoado por Deus, de seguidores da ordem e do progresso. Talvez a violência e o autoritarismo não sejam uma exclusividade nacional, e sim próprios da natureza humana. Que sejam, então, praticados à luz do dia, e não sob as sombras de negociatas e conciliações impostas pelo mais forte, como sempre aconteceu em nossa história. Seria um excelente novo começo. E 2015 seria, de fato, um ano novo. Talvez até feliz.

De novo

De novo o Natal. De novo o ano novo. De novo iremos pensar – por alguns momentos – que milagres existem, que somos irmãos, que pertencemos a uma grande e amorosa fraternidade cristã. Mesmo que 2/3 do mundo estejam fora dessa irmandade. De novo acreditaremos que o futuro será melhor. E desejaremos que todos tenhamos paz, harmonia e prosperidade. Mesmo que a violência, a discórdia e a miséria arranhem nossa porta.

Depois de quase 60 anos, estou ficando cansado dessas esperanças natalinas. Pior ainda, as coisas me parecem mais confusas do que nunca. Vejo pessoas que defendem os direitos de cachorrinhos, vacas e peixes, mas ignoram ostensivamente crianças famintas e abandonadas. Vejo símbolos da justiça e igualdade na prisão, enquanto símbolos da corrupção e da desigualdade passeiam livremente por aí. Vejo gente que acredita que fadas e duendes protegem as águas e florestas, quando é evidente que essas entidades medievais são ruinzinhas de serviço e inúteis perante o avanço da moderna degradação ambiental.

Vejo amigos que marcharam juntos nas jornadas de junho se estranharem nas redes sociais, uns atirando pela esquerda, outros atirando pela direita. Vejo coisas diferentes – e opostas – serem colocadas no mesmo saco. Enquanto alguns confundem crises de lideranças com crises de idéias, e anunciam a todo momento a morte da “liberté, égalité, fraternité”, eu penso nas palavras de Norberto Bobbio como se fossem uma oração: “O impulso em direção a uma igualdade cada vez maior entre os homens, é irresistível. Cada superação desta ou daquela discriminação, com base na qual os homens dividiram-se em superiores e inferiores, em dominadores e dominados, em ricos e pobres, em patrões e escravos, representa uma etapa do processo de civilização. Jamais como em nossa época foram postas em discussão as três fontes principais de desigualdade: a classe, a raça e o sexo”.

Também recorro a um outro mantra – este de Claudio Willer – quando ouço dizer que a arte e a rebeldia não fazem mais sentido: “Proclama-se a toda hora o ‘fim’ e a ‘derrota’ das vanguardas; fim do surrealismo; fim da beat, fim da contracultura, derrota das rebeliões juvenis. Como isso é reacionário. Fim, coisa nenhuma: esses movimentos e autores produziram informações relevantes, muitas das quais ainda por serem examinadas e entendidas; impulsionaram avanços reais; ignorá-los é modo de isolar o que incomoda a conservadores e àqueles que não admitem que a marcha da história deixe de obedecer a um paradigma determinista”.

Essas idéias me revigoram.  Quando dou por mim, já estou pensando mais no futuro do que no passado, acreditando mais na força da história do que na capa da Veja. De novo, sinto ímpetos de botar uma capucha, pegar uma lata de spray e sair procurando pedras no meio do caminho. De novo a poesia parece necessária e transformadora. De novo, lutar faz sentido. De novo a vontade de cantar. De novo é Natal e ano-novo. De novo tudo. Ou nada.

NATAL – foto: SelvaSP

Nunca fui muito adepto de datas festivas ou comemorativas. Sou imune a dia dos pais, das mães, da criança, dos namorados. Se depender do meu bolso pra faturar algum nesses dias, o comércio morre de fome. Atualmente, nem a folia do carnaval me contagia mais. Mas então é Natal, e aí meu coração balança.

Tem coisas natalinas que não agüento mais, como o eterno show de Roberto Carlos, ou o vozeirão da Simone entoando a versão brasileira de “Happy Christmas (War is Over)” de John Lennon. Outras coisas não me agradam, mas tolero. Olho de soslaio os cartõezinhos do entregador de jornal e do coletor de lixo, mergulhado no dilema de dar ou não esmolas. Sempre acabo soltando uns trocados, afinal – justifico – não é esmola, e sim uma gratificação de Natal.

Também não gosto do consumismo, nem da felicidade obrigatória que o espírito natalino impõe. Simpatizo com aqueles que odeiam o Natal e sofrem nessa data, incapazes de se contaminar com a alegria esfuziante dos filhos de papai Noel. Não é fácil. Já passei natais solitários, e não recomendo a ninguém. O bombardeio de amor, risos, abraços, bondades, generosidades e solidariedades entre os homens é de matar. Talvez esse seja o único dia do ano em que, para sobreviver, é melhor estar mal acompanhado do que só.

Na infância dos nossos bisavós, não era bem assim. Celebrava-se o nascimento do deus menino com fervor religioso, indo `a missa, adorando o presépio e praticando o amor que o Nazareno pregou. Evidentemente, tudo com um toque humano. Num dos seus melhores contos – Missa do Galo – Machado de Assis narra a cena de um rapazote de 17 anos que, enquanto aguarda a hora da missa, numa casa adormecida, vê-se envolvido numa situação deliciosamente erótica com uma mulher de 30, casada e meio beata. Como sempre em Machado, a ironia é fina, as coisas são e não são, e no final não acontece nada.

No poema “O que fizeram do Natal”, Drummond também descreve as mudanças no comportamento natalino: “As beatas ajoelharam / e adoraram o deus nuzinho / mas as filhas das beatas / e os namorados das filhas / foram dançar black-bottom / nos clubes sem presépio”.

Mas como eu dizia, diante do Natal meu coração balança como um sino de Belém. Quando nasci, fazia tempo que a Coca-Cola tinha vestido com suas cores o velho papai Noel, e o vil metal subjugara os sentimentos nobres. `A medida em que a data se aproxima, porém, surgem-me lembranças da infância e adolescência, numa mistura de sons, luzes, cheiros e acontecimentos. Como o primeiro cachorro-quente, embalado por “Jingle Bells” e saboreado nas Lojas Americanas, quando ainda não eram apenas Americanas. Ou brincar com o brinquedo novo, no dia seguinte (só se ganhava brinquedo no aniversário e no Natal, e olhe lá). Dançar coladinho com as primas, depois da ceia. O primeiro beijo de língua, aplicado por uma prima mais velha e experiente. Esses foram alguns dos maiores milagres que Natal que testemunhei.

Atualmente, fujo dos shoppings apinhados de gente ensacolada, dos bares e restaurantes infestados de confraternizações de empresas. Mudo de canal quando a ceia natalina invade minha novela preferida. Mas gosto de passear `a noite pelas ruas enfeitadas, vendo as luzes coloridas e deixando os sons me avivarem a memória. Momentaneamente, sou invadido por fiapos de um antigo espírito. Não olho para os adultos. Observo as crianças. Reconheço em seus olhos e sorrisos o mesmo encantamento que já vivi e – por mais que me esforce – não sinto mais.