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O obituarista que amava poesia

Ele foi escrivão de cartório, acostumado às linhas e entrelinhas de certidões, testamentos, procurações e outros papeis necessários para tornar mais reais e verdadeiras a vida, a morte, as avenças e as desavenças entre os homens.

Teve arroubos de poeta quando jovem, e chegou a adotar nom de plume: Tasso. Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais…mais outra…enfim dezenas – declamava ao pular da cama nas manhãs azuis da adolescência, inflamado pela alma parnasiana.

Na maturidade, trocou o nom de plume por um carimbo com vistosa assinatura. Não se casou, nem teve filhos. Aposentou-se depois de 40 anos de trabalho burocrático, cumpridos com zelo, responsabilidade e dores na coluna.

Logo deu-se conta que viveria mais do que o esperado, e a pensão do INSS não seria suficiente para carregá-lo até a cova com dignidade. Tentou fazer uns bicos como corretor de seguros e atendente de telemarketing, mas não levava jeito. A vida foi ficando difícil.

Começou a frequentar velórios para reforçar a alimentação. A tática era infalível. Caminhava vagarosamente até o caixão, deitava um olhar compungido no cadáver, abraçava o parente que mais chorava, distribuía leves acenos com a cabeça e postava-se ao lado do café e das bolachas. Em lugares melhores sempre havia leite, chá, pão de queijo. Às vezes, salgadinhos. E balas, de sobremesa.

A idéia que mudou sua vida e a morte de muita gente surgiu-lhe de ouvir conversas sobre as histórias dos defuntos, entre uma coxinha e um ovinho de amendoim. Escreveu três modelos – para homem, mulher e criança – entrou numa funerária e propôs o negócio: obituários de trinta linhas, por duzentos reais e 30% de comissão, vendidos junto com o pacote das flores, caixão, maquiagem, decoração e bifê. Entrega em dois dias, tempo hábil para impressão e distribuição na missa de sétimo dia, além de eventual publicação em jornais e outros usos.

Fechou o primeiro mês com cinco vendas, todas entregues no prazo. Usou o dinheiro para pagar anúncios em jornais e ampliar as parcerias com funerárias. Em seis meses já recebia cinco pedidos por dia, sete dias por semana. Implantou pagamentos a prazo e carnês para compras antecipadas, com descontos para planos familiares.

Tornou-se especialista no elogio das qualidades humanas. Um mestre em descobrir grandezas nas vidas pequenas e transformar grandes vidas em vidas maiores ainda. Dizia que seus obituários não eram um produto, e sim aves parnasianas em revoada: Vai-se a primeira pomba…
Vai-se outra mais…mais outra…enfim dezenas. Também gostava de dizer que se as pombas retornam aos pombais no final do dia, os sonhos de juventude que bateram asas e fugiram – ao contrário do lamento do poeta – podem sim voltar ao ninho do coração.

Abriu trezentas filiais e expandiu as operações para países vizinhos. Nos últimos tempos, afastou-se da presidência da empresa, escreveu um best seller de negócios e passou a dar concorridos cursos e palestras de empreendedorismo, onde analisava as profundas ligações entre visão de oportunidades, técnicas de gestão, inovação e versos de Olavo Bilac.

Morreu no sábado, de acidente vascular cerebral seguido de infarto. Não deixou familiares nem herdeiros, apenas saudosos funcionários que escreveram – no prazo – este obituário.

Os chatos da Via-Láctea

Conheço poetas e escritores que escrevem crônicas mas não as divulgam na internet. Talvez por considerarem que esse gênero não seja arte, ou algo que valha a pena ser lido. Ou talvez duvidem que alguém vá ler um catatau de três mil caracteres. Mencionam essa atividade meio a contragosto, constrangidos, como se dissessem sou contador do Colégio Marista, ou escriturário da prefeitura – trabalhos dignos, mas que para um literato representam desvios do caminho artístico.

O pior é que mesmo grandes cronistas desdenham da crônica. Rubem Braga escreveu que gostaria de ganhar a vida de outro jeito, “não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…”.   Para ele, melhor seria fazer algo de “sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa”.

Braga criticava o espírito do homem urbano moderno, em contraste com a simplicidade e pureza da vida rural. Cada um a seu modo, todos os grandes cronistas analisaram a condição humana, com doses variadas de humor, ironia e lirismo. Essas coisas me ocorrem devido à reedição de “O amor acaba” (Cia. das Letras, 280 pgs.) volume de crônicas de Paulo Mendes Campos, a maioria publicada na revista Manchete, uma mistura de Caras e Veja dos anos 60 e 70.

PMC, como era chamado entre os amigos, também renegou sua vida de cronista. Já passado dos cinquenta, disse que gostaria de ter sido filólogo. E num desabafo, escreveu que “a vida não vale uma crônica”. Se você não tiver receio de olhar o homem como ele é, recomendo vivamente os textos de Paulinho – o rebento mais erudito, mordaz e bebedor da safra mineira que gerou Fernando Sabino, Otto Lara Rezende e até o capixaba Rubem Braga.

Há quem pergunte por que não se fazem mais crônicas como as de PMC. Creio que é porque nossos cronistas estão presos nas impressões e flagrantes do cotidiano. E porque a vida moderna – com sua pressa e superficialidade – não permite reflexões sobre as mazelas da vida moderna, como o tédio, o culto à aparência, a felicidade consumista.

Se o mundo continuar assim, num futuro breve não saberemos mais olhar um quadro. Apenas “curtir” uma foto. Só conseguiremos ler quarenta caracteres, e conversar por meio de torpedos. Ironias e metáforas serão banidas da linguagem.

Só restará pão sobre pão, e queijo sobre queijo. Esqueça as pedras, elas não são politicamente corretas. Cumprindo uma profecia de Paulinho Mendes Campos, seremos “os chatos da Via-Láctea”.

Não sei como estará a poesia nesse mundo, nem se haverá poesia. Mas gosto de imaginar que haverá crônicas. E cronistas que não se envergonharão de ser cronistas, e mesmo não sendo poetas, conseguirão ser poéticos de vez em quando. Com esse mínimo de farinha, farão bolinhos que atrairão comensais incautos em jornais, redes sociais, blogs. O sabor da massa infectada vai trazer à memória desses comedores frases e lembranças de um mundo antigo, pré-digital, onde cronistas ancestrais usavam camisas de mangas curtas e diziam coisas como “precisamos apenas viver – sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão”.

 

Decálogo

Natália, uma amiga poeta, postou na internet uma deliciosa brincadeira: ela construiu dez imagens usando sempre o número dez (dez palavras, dez estrelas, dez acasos, …), e o resultado ficou dez. Gosto muito de expressões com significados abertos. Há quem diga que a poesia é a conciliação de opostos, e eu concordo. Mas nem sempre o poeta trabalha usando esse meio, ou com esse fim. No caso de minha amiga, sua intenção foi jogar imagens no ar, e deixar que a imaginação de quem lê faça o resto. O número dez não é aleatório. Ele é a quantidade das leis divinas, e o número de dedos que temos nas mãos e nos pés. É a base do nosso sistema métrico, e também o número do equilíbrio emocional e da chance de salvação (contamos até dez para não explodir de raiva, ou para dar tempo de alguém fugir e se esconder). Dez identifica a melhor garota ou o melhor garoto da turma, e no caso da minha amiga, serviu como uma luva para seu intento poético. Meu objetivo aqui não é ser poeta, e sim mostrar como uma imagem aberta é rica de significados, e como a intensidade poética aumenta quando opostos se aproximam. Inspirado pela idéia de Natália, construí dez imagens e acrescentei dez possibilidades de significados em cada uma. Se você quiser, descubra outros sentidos além desses dez, ou crie seu próprio decálogo. Chame os amigos e diga que é um jogo que você inventou. Pode ser um exercício interessante, principalmente nesses tempos de ódios digitais e balas, bombas e pedras. Tempos em que todos falam, ninguém se entende e não há poesia que concilie os opostos.

I –    dez gritos: de alegria, de dor, de prazer, de medo, de alerta, de ódio, de frescura, de socorro, de gol, parados no ar.

II –  dez gotas: de sangue, de veneno, de bálsamo, de cólera, de lágrimas, de chuva, de chanel no. 5, de suor, de ácido, da poção mágica, de água no cantil.

III – dez minutos: de vida, de amor proibido, de desatino, de horror, de oração, de delírio, de burrice, para a chegada, para a partida, para o fim.

IV –  dez passos: para a felicidade, para o abismo, para a vitória, para a derrota, no ar, para o cadafalso, para o sucesso, dobles, bêbados, para a liberdade.

V  –  dez linhas: de despedida, de amor, censuradas, de um náufrago, inacabadas, em branco, tortas, delirantes, obscenas, suicidas.

VI –  dez olhares: famintos, de cigana oblíqua, incendiados, gelados, hipnóticos, cúmplices, de desprezo, enlouquecidos, fixos, esgazeados.

VII-  dez caminhos: suaves, da roça, de ferro, do bem, do mal, da glória, da perdição, da salvação, cruzados, sem volta.

VIII- dez dias: inesquecíveis, para esquecer, de sol, de festa, de chuva, entre a vida e a morte, em silêncio, de procura, de rebeliões, à deriva no mar.

IX –  dez noites: de sonhos, de pesadelos, cósmicas, insones, sem versos, sem amor,  de luxúria, solitárias, com galos, à deriva no mar.

X  –  dez versos: sem rimas, sem métrica, sem lógica, com abismos, com pedras, sem caminhos, viscerais, com fome, com uivos, sem sentido.