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Hoje levantei cedo

Hoje levantei cedo, mas não aconteceu nada. Fui até a praia imaginando encontrar você, mas não havia você. Não havia nem praia. Amanhã vou levantar mais cedo. Quem sabe dou sorte. Quem sabe encontro uma flor entre as pedras do caminho. Dizem que é primavera agora. Dizem que as coisas vão melhorar, que é preciso ter paciência, ter confiança, mas escuto essas coisas desde jovem, desde quando dormia, desde quando assobiava, desde quando você me abraçava.

Preciso consertar o relógio da parede. Tenho vergonha que alguma visita perceba as horas paradas. Não importa que eu nunca receba visitas. Tenho vergonha mesmo assim. O espelho do banheiro também está quebrado. Também não importa que eu nunca me olhe no espelho. Tenho vergonha. Não sei consertar relógios, nem espelhos. E não tenho dinheiro para pagar quem conserte. Não tenho nada, só tenho tempo, tempo de sobra. E vergonha.

De dia as coisas são mais fáceis, ouço um martelo batendo, um rádio ligado, o som do caminhão vendendo cândida. O duro são as noites. Vagueio pelos telejornais mecanicamente. Clic: descobriram estranhos sinais na superfície de Júpiter. Clic: fizeram um novo experimento agrícola em Botucatu. Clic: alguém inventou um aplicativo que monitora o crescimento das unhas do pé. De madrugada assisto a um concurso culinário, depois uma reportagem sobre a cirurgia de costela da Shakira. Bebo muita coca-cola – choca e sem gelo. A geladeira quebrou.

Antigamente tudo funcionava. A geladeira vivia cheia, os banhos eram quentes, a torneira não pingava. Antigamente havia shows, cinema, teatro. Você gostava de tirar os sapatos na chuva, gostava de amigos nos bares, gostava de rir alto, gostava de beijar no elevador. Você nunca foi recatada. As noites passavam rápido, os lençóis amanheciam manchados. De manhã havia cheiro de café. Tinha sempre um gato miando na cozinha e um cachorro latindo no quintal.

Antigamente o ano tinha quatro estações, e você gostava de todas. Acreditávamos na previsão do tempo, fazíamos planos de ano-novo, discutíamos o preço do feijão. Sim, antigamente havia feijão. Você amava o Chico, eu adorava o Caetano. Você declamava Drummond, eu João Cabral. Você queria salvar a floresta, eu os gatos vadios. Você preferia molho branco, eu molho vermelho.

Antigamente as pessoas iam a comícios, faziam aniversário, punham roupa nova, davam presentes. Havia casamentos, separações e reconciliações. Havia nascimentos e batizados. Antigamente havia almoços de domingo, visitas aos doentes, compras de Natal, despedidas na rodoviária, bulício de crianças na porta da escola. Havia loucos nas praças e travestis nas esquinas. Havia passeatas de estudantes. Antigamente havia pecado e perdão.

Antigamente os ponteiros dos relógios andavam. Antigamente eu dormia. Às vezes até sonhava. Agora, depois do último gole de coca-cola morna e choca, desligo a TV e fico deitado esperando o dia clarear. Mas sempre levanto cedo. Pode ser que aconteça alguma coisa. É preciso ter confiança, dizem.

Conde, pombas e urubus

Atrasado para uma reunião, passei por minha mulher e ela sentada à mesa disparou: as pombas são burras. Parei com a mão na maçaneta e perguntei por que. Ora, disse ela, porque deixam que um único e atrevido sabiá lhes roube a comida. A comida é delas, elas que acharam. Aí um sabiá mergulha num golpe e pousa no meio do bando, ergue a comida no bico e bate as asas enquanto elas nem percebem quem as roubou – ficam girando e arrulhando, feito bobas. Eu ia dizer-lhe que essa era uma lei natural, um sabiá ligeiro, sabidamente, leva vantagem diante de pomposas pombas. Mas não falei nada, apenas dei o fora. Depois, fiquei pensando.

E pensei mais antes de escrever, porque passarinho é lance de cronista profissional, o que não é o meu caso, um reles escriba não remunerado. O socialista Rubem Braga, por exemplo, usou e abusou de passarinhos. Quando queria dar uma estocada mais funda, atacava de passarinho. Uma vez fulminou o mais poderoso industrial da época – o conde Matarazzo – com um mísero passarinho. O passarinho bicara o peito do conde para furtar-lhe uma medalhinha presa na lapela. Braga tomou o partido da ave, porque um passarinho, argumentou, canta e voa, enquanto um conde industrial não sabe gorjear nem voar. O industrial gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, das máquinas de aço e de carne que trabalham para ele. O industrial gorjeia com o dinheiro que entra e sai dos seus cofres. Um passarinho não é industrial, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho – escreveu ele.

Muitos acreditam que Braga queria ser um passarinho, mas sua vida nunca foi orientada para isso. Ele queria ser um urubu, porque é maior e mais triste. E tem o bico mais forte. Um urubu, explicou, teria arrancado o coração do conde em vez de tirar-lhe apenas a medalhinha. Braga era um sujeito doce, mas politicamente era um black bloc. No texto contra o magnata, ele diz que a vida é estar num bonde, falando ao motorneiro. É essencial falar ao motorneiro, afirma. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então, ele orienta didaticamente, o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

O que isso tem a ver com o sabiá e a burrice das pombas? Ora, tudo. No reino humano, pequenos sabiás também não fazem mal a ninguém. Quando crescem, param de roubar trocados da avó, nutella do supermercado, toca-fitas usados. O problema é quando o sabiazinho se torna um sabiazão que quer roubar tudo e mandar em todo mundo, daqueles que acham que as pombas nunca enxergam nada e sempre deixam que lhes tirem a comida, a casa, a saúde, a coragem, o riso, e por fim, até a liberdade de arrulhar.

Quando isso acontece, é sinal que o sabiá ladrão ocupou o lugar do motorneiro e se faz de surdo. Às pombas só resta tomar-lhe o bonde das mãos e comê-lo picadinho com farofa. Mas as pombas nada fazem a não ser ficar girando com os olhos pro chão, dando cabeçadas e arrulhando indignadas. Assim como Rubem Braga, também prefiro ser uma ave, em vez de conde. Menos pomba. Pomba não. As pombas definitivamente são burras. E o bico não presta pra nada.

O beijo de Lamourette

Ontem adormeci na poltrona, assistindo ao noticiário político, e comecei a sonhar com sessões de tribunais, quedas de ministros, ordens de prisão, delatores, traições e tumultos. Quando vi, estava numa rua estranha, no meio de uma passeata estranha. Todos vestiam roupas esquisitas e berravam palavras de ordem em francês. Percebi que estava em 1792, no meio do Terror da Revolução Francesa.

A turba que me arrastava estava enfurecida pelo alto preço do pão e boatos sobre uma conspiração para matar os pobres de fome. De repente, a multidão pegou um alto político, linchou-o, degolou-o e desfilou com sua cabeça sobre uma lança, a boca cheia de dólares falsos como sinal de cumplicidade na conspiração. Em seguida, um outro grupo de amotinados capturou uma mulher de olhos esbugalhados, que era esposa do infeliz político, e fizeram-na marchar pelas ruas com a cabeça do marido na frente do seu rosto, cantando “beija, beija”. Depois eles mataram e degolaram também a mulher, arrancaram seu coração e atiraram-no para os lados do prédio da prefeitura. A seguir retomaram o desfile com as cabeças do casal espetadas em lanças. Ela com os olhos mais esbugalhados do que nunca, e a boca também cheia de dólares falsos.

Consegui escapar por uma ruela escura, e no instante seguinte, me vi na Câmara Federal, em Brasília. O plenário estava dividido em duas alas, esquerda e direita, como na Assembléia Nacional da Revolução Francesa. Vestidos à moda do século XVIII, os deputados se engalfinhavam, quase chegando aos tapas. No momento mais aceso do debate, surge um deputado de província chamado Adrien Lamourette. Ele tem uma solução a propor: o amor. Amor fraterno. O amor pode curar tudo, pode superar qualquer divisão, diz Lamourette aos membros da Assembléia, acrescentando que todos os seus problemas derivavam de uma única fonte: o facciosismo. Eles precisavam de mais fraternidade. Ao ouvirem isso, os deputados, que um minuto antes estavam se agarrando pelo pescoço, levantaram-se e começaram a se abraçar e beijar como se suas diferenças políticas pudessem ser varridas numa onda de amor fraterno. Empolgados e lançando vivas às suas famílias, todos juram fraternidade e chegam a convidar o rei-presidente, que repete o juramento. O plenário vai à loucura. A Revolução está salva! Vive la nation!

Acordei com o coração aos pulos, minha mulher me chacoalhando, querendo saber que negócio de beijo era aquele. Expliquei-lhe que caí no sono e misturei o noticiário da TV com cenas da Revolução Francesa, que li num antigo livrinho de história. Ainda bem que não somos franceses, disse ela – se fôssemos, ia faltar guilhotina para dar conta de todos os picaretas deste país.

Minha mulher, como sempre, estava cheia de razão. Os franceses não brincam em serviço. Na época da Revolução, viraram o mundo do avesso. Além da violência das revoltas populares, eles mudaram os nomes dos meses, a medição do tempo e do espaço, a moda, as formas de tratamento, os nomes das ruas e das próprias pessoas. Queriam confiscar as terras da igreja, e eleger os padres. O Estado podia legislar sobre a igualdade, a liberdade e – por estranho que pareça – sobre a fraternidade.

No Brasil já começamos a mudar alguns nomes de avenidas, mas ainda falta muita coisa. Falta abolir o tratamento de “doutor”, por exemplo. Revoltas nas ruas também já temos, mas são muito comportadas, parecem mais um passeio de domingo. Precisamos de mais força, mais vigor. Não digo linchamentos e uma degolazinha ou outra. Apenas mais energia, impor um pouco de respeito, talvez usando bumbos para marcar o passo e os corações, como se faz em alguns países. Quem sabe, depois disso, poderemos chegar, um dia, ao beijo de Lamourette.

Renascimento à brasileira

Desocupado leitor, dizem que depois dos cinquenta, se você acorda sem nenhuma dor, é porque está morto. Hoje acordei assim, mas ao invés de morto, me senti vivo como há muito não sentia. O único incômodo foi uma sensação de estar na época errada, em alguma década do século passado. Imagine Don Alonso Quijano despertando como Don Quixote, mas sem deixar de ser Don Alonso. Em seus delírios como Cavaleiro da Triste Figura, o pobre fidalgo acreditava estar num tempo antigo, vivendo no presente. Pois eu acredito estar no presente, vivendo um tempo antigo.

O noticiário e as pessoas na padaria dizem que estamos numa nova era, uma espécie de Renascimento, mas abro a revista semanal e vejo uma reportagem sobre a primeira-dama interina do País, igualzinha àquelas que a revista Manchete fazia dos concursos de Miss Universo em 1960. Só faltou o maiô com salto alto, e a moça dizer que seu livro de cabeceira era o Pequeno Príncipe; mas essas coisas ficam subentendidas, mesmo para maus entendedores como eu.

Entro na Internet para conferir o discurso do presidente interino, e surge à minha frente um baixinho igual ao Rui Barbosa, com a cara dura de botox, o cabelo brilhando de gumex, a despejar frases afetadas e incompreensíveis. Senti-me um Sancho Pança tentando decifrar a fala empolada de seu amo. A coisa piorou quando olhei a foto do tal interino com seu novo gabinete. Sabia que já tinha visto aquela cena, mas não lembrava onde. Aí uma alma caridosa postou na rede: era a posse do marechal baixinho Castelo Branco, em 1964, rodeado por seus ministros. Todos homens, todos ricos, todos brancos. E todos velhos. Meu sangue gelou de vez quando vi que o governo interino adotaria o slogan “ordem por base e o progresso por fim”, exatamente como fez a República Velha há 126 anos, isto é, mutilando o lema criado por Auguste Comte, que tinha o “amor por princípio”. Mais um governo sem princípios, disse aos meus dois botões. Mas com muitos fins, responderam eles.

Até a bandeira nacional usada na nova propaganda é antiga, modelo 1964-68, e ouço dizer que a embaixada brasileira na França cancelou a projeção de um documentário sobre nossos impunes torturadores, alegando tratar-se de um tema “delicado”. Tirando a delicadeza da forma, é a velha e brutal censura renascendo das cinzas.

Como sou um otimista incorrigível, creio que esse presente bizarro vai acabar ressuscitando também alguma coisa boa do passado. Por isso, vesti minhas calças vermelhas, tirei do guarda-roupa meu casaco de general cheio de anéis, e agora estou aqui, na frente da TV, tomando uma fanta com gosto de crush, esperando que o Michel Teló se transforme no Taiguara; o Arnaldo Jabor, no Glauber Rocha; e o Malafaia, no Don Helder Câmara. Talvez seja sonhar demais, mas quem garante que a Suzana Vieira não vire uma Leila Diniz? Ou que o Romero Britto não se torne um Portinari, e o meu Palmeiras, uma nova Academia do futebol?

Tantas possibilidades, tantas esperanças. E tantos medos também. Confesso que estou com medo de começar a acreditar no Jornal Nacional. Tenho medo de achar que a cultura é descartável, que a Terra é plana, que somos descendentes de Adão e Eva, e que a corrupção acabou. Só espero conseguir atravessar este dia estranho e maluco sem fazer nenhuma besteira. Tipo imaginar que estou combatendo gigantes, e sair por aí destruindo esses moinhos de vento esquisitos que surgiram nas ruas de uns tempos para cá.

Nem Cuba nem Miami

Definitivamente, sou um egoísta incorrigível. Achei que os anos tinham me curado dessa doença infantil da alma, mas qual!, sempre que meu bem estar é ameaçado, ela ataca impiedosamente. Peguei-me novamente enfermo ao ver o festival de intolerância que assola o país. E se der merda?, pensei. E se os extremistas – de direita ou esquerda, tanto faz – acabarem levando a melhor nessa onda de ódio onde ninguém ouve ninguém? O que fazer se a nossa pobre, feia, suja e malvada democracia for pro beleléu? Ora, pra quê se preocupar, respondeu meu ego já febril, você não vai mudar as coisas, deixe que esse povinho se exfloda, se a ala dita dura endurecer vá morar no Uruguai.

Ah, o Uruguai!, suspirei entregando-me ao surto egoístico. Berço de Gardel, do tango, do doce de leite e do churrasco. País onde as quatro estações comparecem todo ano, derrubando as folhas no outono, florescendo na primavera, congelando a água no inverno e torrando nos verões de 40 graus com sol até as 22 horas. Perambular pelas ramblas do Rio de la Plata, curtir o magnífico por do sol nas águas do Rio de la Plata, pescar aos domingos no Rio de la Plata, sentir a brisa do Rio de la Plata com seu perfume de mate e murmúrio de milonga longinqua.

Uruguai, terra do futebol, o primeiro campeão do mundo – em cima da Argentina. Lá, a palavra maracanazo significa vitória e glória, não derrota e infâmia. Lá, nostalgia é uma coisa bacana, não cafonice. Lá, exibir a última novidade de consumo desperta pena, não admiração. Lá, os jovens gostam dos velhos e os velhos gostam dos jovens. Lá não tem subidas, o país é inteirinho plano. As baladas começam às 2 da madrugada. E o carnaval dura 40 dias.

O Uruguai já aprovou o aborto e o casamento gay. A maconha é livre e o tabaco é quase ilegal, se não for proibido de vez agora que o oncologista Tabaré Vasquez reassumiu a presidência. A comissão da verdade é de verdade – e de justiça. Uma frente de centro-esquerda, liderada por uma mulher (Mónica Xavier), governa o país há 10 anos e ficará pelo menos 15 anos no poder. Sem se corromper, sem fazer alianças com corruptos e sem cair no populismo. O uruguaio não gosta de ostentação nem de estrelismos. É uma gente discreta e sossegada. “Bajo perfil”, como eles dizem. Ou “low profile”, como dizem os ingleses e americanos.

O povo uruguaio chegou ao cúmulo de transformar a crítica político-social em expressão artística. Ele se manifesta nas ruas, cantando e dançando ao som do coro-teatro das murgas e do batuque do candombe, em vez de vociferar sozinho no feicibuque ou xingar e bater panelas – como fazem seus selvagens vizinhos argentinos e brasileiros. O Uruguai produziu, enfim, José Mujica, a sua mais completa tradução.

Todas essas coisas me passavam pela cabeça, invadida pela cruel doença. Ah, o Uruguai!; gemia eu, delirando de egoísmo. Depois, aos poucos, a febre foi cedendo. Lembrei dos pobres infectados que foram para Miami e vivem presos em condomínios fechados, vivendo à base de relógios e iphones, sem conseguir se desgrudar do Brasil. Já pensou, chegar no Uruguai e ficar estocando doce de leite pra trazer pro Brasil? Melhor segurar as pontas um pouco mais. Verás que um filho teu não foge à luta, assobiei. Afinal, pode ser que a dita dura seja uma dita branda. Também pode ser que tudo acabe em pizza. Ou não, cutucou-me o egoísmo.

Folia de previsões

Alegria de cronista é acertar de vez em quando uma previsãozinha. Há mais de um ano, quando Eike Batista despencou do 7o para o 100o lugar entre os mais ricos do mundo, escrevi que a falência estava à vista, e duvidava que ele se desfizesse de um único bem – ao contrário do Barão de Mauá, que ao falir leiloou tudo o que tinha, foi morar de aluguel e não deu prejuízo a ninguém. Uma pena, eu dizia, porque adoraria dar um lance no carrão que Eike guardava na sala. Dito e feito. Foi preciso força policial para tirar uns míseros celulares daquele que se proclamava um dos homens mais generosos do mundo.

Animado por essa profecia certeira, atrevo-me a fazer outras previsões para este ano que começa depois do carnaval. Prevejo que a Petrobrás não será privatizada, e seus papéis subirão como foguete após o saneamento da Lava Jato. Se eu tivesse um dinheirinho sobrando, faria como o mega-especulador George Soros: compraria PETR4 hoje mesmo. Ou então venderia minha quitinete em Miami, compraria uma mansão em Cuba – ainda estão baratíssimas – e desfrutaria do paraíso que aquela ilha vai ser em breve.

Uma previsão é particularmente dolorosa para mim: o Palmeiras não será campeão este ano. Mas vai dar a volta por cima, e disputar a Libertadores. Não ganharemos nenhum Oscar agora, nem depois, e nem depois. Em compensação, Paolla Oliveira continuará a nos dar alegrias na tela, e os surfistas a nos dar orgulho no esporte.

O compromisso com a verdade me obriga – mesmo correndo o risco de estragar a festa de alguns foliões – a falar de coisas polêmicas que vejo em minha bola de cristal. A primeira: não haverá impeachment da presidente. Por vários motivos, mas principalmente porque a maioria dos políticos, empresários e a grande mídia não vão embarcar nessa onda. Fugirão da raia não por simpatias com Dilma ou com seu desastrado governo, mas por medo. Alegarão o risco de uma ruptura democrática de consequências imprevisíveis – que existe de fato – mas o motivo verdadeiro é o medo dos impeachments em cascata, incontroláveis e capazes de ceifar todos os governadores e prefeitos metidos em encrencas. Vejo também que Dilma não vai renunciar. Se renunciar, não será Dilma.

Outra imagem visível em minha bola de cristal: o próximo presidente do Brasil será… Luis Inácio Lula da Silva. Pela simples razão de não existir, agora e nos três anos vindouros, alguém capaz de derrotá-lo nas urnas. O sobrinho de Tancredo é um político provinciano, que não ganha em sua própria província. O governador de São Paulo não sairá vivo do atoleiro seco em que se meteu, e se sair, será atropelado por um cartel de trens. Marina é uma esperança, mas como uma Penélope morena, nunca acaba de tecer sua rede. Eduardo Campos era uma ameaça real, mas o destino tolheu-o em pleno vôo. Assim, vejo o sapo barbudo voltando nos braços do povo e malhado pela imprensa, feito Getúlio. A única diferença é que não terá opositores com a altura de Carlos Lacerda. Mesmo que tenha ao seu lado pessoas com a baixeza de Gregório Fortunato.

Segundo minha experiência de futurólogo, fortes chuvas de gente e trovoadas de gritos podem alterar essas previsões políticas. Mas esse tipo de chuva cívica, ultimamente, só tem caído no Paraná. No resto do país a estiagem é desoladora. Viro e reviro minha bola de cristal, mas só consigo enxergar chuvas de confetes. E mais de mil palhaços no salão.

Solidariedades

O mundo tem andado cheio de solidariedade ultimamente. A demanda é tão grande que o povo não dá conta, às vezes corre para o lado da França e não escuta os gritos de socorro que surgem na África. Tem gente se solidarizando com aquilo que discorda – e que até ontem combatia à força de balas. Alguns produzem – e vendem – camisetas de apoio, solidarizam-se com tamanho estardalhaço e marketing, que aparecem mais do que os solidarizados. Outros, enfim, embarcam na solidariedade meio a contragosto, empurrados, cheios de ressalvas e senões.

Não sou contra grandes manifestações de solidariedade, ao contrário, acho-as necessárias, indispensáveis mesmo. Mas gosto das ajudas pequenas, anônimas, desinteressadas. Dessas que levam a gente pro céu, sem escalas. São gestos miúdos, rápidos, quase invisíveis. Tem que estar muito atento, ou dar sorte, pra perceber.

É o caso do Julião, o velho flanelinha da padaria perto de casa. Está sempre vestido com camisa branca, calça preta, tênis e óculos escuros. Usa uma gravata preta surrada, um quepe mais surrado ainda e berimbelas (aquelas divisas amarelo-negras nos ombros), igualzinho piloto de Boing. Chama todo mundo de doutor, manobra carro velho e BMW novinha, é um gentleman. Por causa desse jeito e da vestimenta, achava-o meio soberbo, querendo diferenciar-se. Até que um dia, num relance, flagreio-o em ação: saiu da padaria ligeiro, cruzou a calçada parecendo que ia atender algum doutor e, furtivamente, como se fosse droga, passou um pequeno embrulho a um mendigo na sarjeta. Dias depois, vi-o passar dois embrulhos a um jovem casal maltrapilho e de olhos esbugalhados. Uma noite, foram três pacotes enfiados na sacola imunda de uma velha. Antes de Julião chegar no pedaço, o gerente da padaria costumava expulsar os pedintes porque incomodavam a distinta freguesia. Agora eles ficam quietos esperando uma atenção do manobrista, e vão embora assim que os sorrateiros embrulhos com restos de lanches, salgadinhos ou comida, lhes chegam às mãos. Sem alarde, às vezes sem nem agradecer, porque Julião lhes vira as costas como se nada tivesse acontecido.

Outro caso interessante ocorreu também próximo à minha casa. Numa tarde de domingo abrasador, em pleno racionamento de água, vi um vigia da estação da SABESP entregar, por cima do muro, um galão de 3 litros a uma prostituta. Achei que a mulher fosse beber, mas ela puxou rapidamente o vestido pelos ombros e, completamente nua, sob o sol inclemente, banhou-se à francesa no meio da calçada. Despejou o último litro na cabeça e soltou um ahhhh de puro prazer. Aparentemente limpa e visivelmente refrescada, vestiu novamente a roupa, devolveu o galão vazio ao vigia – um tiozinho magro, velho, num uniforme encardido – e partiu em busca de novos clientes, reclamando do calor, do governo, da seca e da falta d’água insuportáveis.

Não sei o que Julião ganha com seus gestos, nem como convenceu o dono da padaria que seria melhor dar aos pedintes o que pediam, em vez de combatê-los. Também não sei se o vigia da estação de águas é parente ou amigo da encalorada prostituta. Mas sei que eles não são indiferentes. Sei que conseguiram subir um degrau na miséria da vida, mas não esqueceram os que ficaram no degrau inferior. Sei que usam seus pequeninos cargos e poderes para ajudar, e não para pisotear, quem está abaixo deles. Sem fazer barulho, e sem esperar nada em troca.

Um novo começo

Cronista às vezes precisa antecipar assuntos para não deixar que virem jornal velho na data do próximo texto. É o caso desta última crônica do ano, escrita e publicada antes do Natal e do ano-novo. Do Natal não tenho muito a dizer, exceto relembrar que quando crianças acreditamos em Papai Noel, depois nos tornamos Papai Noel e por fim acabamos parecidos com Papai Noel. Então é Natal, e ponto final.

Mas gostaria de falar algumas coisas sobre este ano que passou. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que 2014 começou no ano passado. Foi em 2013 que começamos a gritar nossa insatisfação e a exigir mudanças. Foi ali, também, que mostramos nossa união em torno do que não queremos, e percebemos sinais da nossa desunião sobre aquilo que queremos. Em 2014, esses sinais viraram evidências, levaram a união pro brejo, e do brejo trouxeram o que há de mais sombrio – e verdadeiro – em nosso jeito de ser.

Não vou chover no molhado, dizer que somos racistas, que adoramos uma corrupçãozinha, que temos preconceito contra pobres, que amamos somente nosso egoísmo, que nos achamos a última bolacha do pacote. Uma bolacha arrogante, inculta e não bela, mas a última do pacote. Prefiro chover num terreno que já recebeu uns bons chuviscos, mas ainda precisa de muita água pra ficar encharcado: nossa natureza violenta e autoritária, construída sob séculos de regimes dominadores, opressores e dizimadores dos mais fracos. Uma cultura que nasceu com as primeiras matanças de índios, cresceu durante o escravismo, atingiu a maturidade na república, e chegou ao auge com o regime militar.

Com o movimento das diretas-já e o fim da ditadura, tivemos a falsa impressão de atingir um nível civilizatório um pouquinho mais elevado – aquele que respeita, pelo menos, a lei e o próximo. Nos últimos 24 anos, exercitamos a democracia, a legalidade e a diversidade de ideias. Treinamos reciclagem de lixo, coleta de cocô do cachorrinho, respeito à faixa de pedestre. Chegamos a eleger presidentes um operário e uma mulher ex-guerrilheira. Violência e autoritarismo? Somente casos isolados, como massacres de presidiários e de menores de rua, alguns mendigos incendiados, um gay esfaqueado aqui, um ativista baleado acolá.

Aí chegamos em 2014, e acabou-se o que nem era tão doce. De repente, o debate vira agressão, amigo vira inimigo, irmão desconhece irmão. A democracia de novo é uma coisa chata, a legalidade é intolerável, não atende nossas vontades. Não há argumentos, somente ataques. Alguns pedem a volta dos militares, outros ameaçam ir para Miami. A violência e o autoritarismo mostram sua cara nas ruas, na TV, nas rádios – e principalmente nas redes sociais. Os mais exaltados vão a manifestações públicas com revólver na cinta.

Alguns acham que voltamos ao começo, mas acho que nunca saímos dele. Este ano nos mostramos do jeito que realmente somos. Sem a maquiagem da cordialidade, de país abençoado por Deus, de seguidores da ordem e do progresso. Talvez a violência e o autoritarismo não sejam uma exclusividade nacional, e sim próprios da natureza humana. Que sejam, então, praticados à luz do dia, e não sob as sombras de negociatas e conciliações impostas pelo mais forte, como sempre aconteceu em nossa história. Seria um excelente novo começo. E 2015 seria, de fato, um ano novo. Talvez até feliz.

Um sonho

Eu tenho um sonho que um dia o feijão não será feijão e o sonho não será sonho; que um dia os animais voltarão a falar, e desta vez os escutaremos; que o lirismo será servido no café da manhã; que haverá café da manhã; que haverá manhãs; que as lendas se tornarão realidade; que os duendes se tornarão lendas; que contar histórias fará parte do currículo escolar; que todos os professores de matemática saberão ensinar matemática; que o pecado será pecado; que haverá recitais de ópera debaixo dos viadutos, um dia.

Eu tenho um sonho que os homens ficarão grávidos; que as mulheres terão desejo todo dia e toda noite, exceto em finais de campeonato; que serão abolidas as tardes de domingo e algumas manhãs de segunda-feira; que toda rua terá jabuticabeiras e toda praça terá um chafariz, além de bancos com encosto; que os vendilhões serão expulsos do templo; que não existirão templos, nem pastores, nem ovelhas. Sonho que Deus, um dia, não ouvirá mais as nossas preces, porque não haverá mais preces; que Ele poderá, enfim, jogar pelada nos terreiros da Terra; e que a matéria escura se revelará aos povos.

Sonho que o riso será sagrado; que o primeiro beijo será sagrado; o primeiro amor será sagrado e o último também; serão sagrados o canto do sabiá e o lamento do urutau. Sonho que um dia entenderemos os vegetais e os minerais, e eles nos explicarão o sentido da vida; que saberemos falar alemão, italiano e javanês; saberemos todos dançar balé moderno; conseguiremos um dia lavar louça e cantar; e ficar em silêncio diante da lua, dos desertos, das estrelas e das ondas do mar.

Eu tenho um sonho que um dia nenhum cadeirante levará porrada por causa da sua ideologia – e se levar, a justiça será feita. Sonho que nenhum nordestino será chamado de nordestino; que a mulher não será o negro do mundo, nem o negro; que nenhum índio vestirá roupas; que nenhuma criança será violentada; que todo gay um dia será gay gay gay; que aceitaremos o novo e não destruiremos o velho; que o sexo, a morte e o pum serão naturais como a água, a terra, o fogo e o ar.

Eu ainda tenho um sonho. Tenho um sonho que um dia pegaremos nossas vidas nas mãos; que voltaremos a ser legiões nas ruas; que voltaremos a acreditar em sonhos; que enxurradas de alegria inundarão as cidades e os campos e lavarão as manchas da nossa intolerância, do nosso medo, da nossa mesquinhez, da nossa indiferença, da nossa arrogância, da nossa cegueira, da nossa vaidade, da nossa estupidez.

Eu tenho um sonho. E mil pesadelos.

Explosões

Estou achando este começo de século bem chinfrim, comparado ao anterior. Os primeiros anos do século 20 foram enlouquecedores, um terremoto cósmico que chacoalhou a ciência, a arte, a política, a sociedade, a tecnologia, as crenças e as descrenças.

O surgimento de novas invenções só se compara à explosão de vida no Cambriano – quando, aparentemente do nada, brotou uma multidão de novas formas de vida que povoam o planeta até hoje, apesar dos humanos. Em pouco mais de trinta anos, nasceram e cresceram o cinema, o rádio, o automóvel, o avião, a lâmpada, o telefone, a TV. Trocamos o velho Deus construtor pela brilhante idéia do Big Bang, deixamos de usar as coxas e passamos a fazer as coisas na esteira de produção. Descobrimos que estamos navegando sobre o planeta aboletados em placas tectônicas, e que tudo na vida é relativo – inclusive o tempo e o espaço.

As artes refletiam esse turbilhão de descobertas, esse novo jeito de olhar as coisas, de sentir o mundo, um mundo errático, dissonante, esquisito, onírico, disforme, híbrido, sem paz, com a vida e a morte eternamente em luta. Música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, tudo explodiu. A loucura deixou de ser anormal. O amor deixou de ser puro, e o sexo, impuro. Deixamos de acreditar que Édipo e Electra eram meras ficções da dramaturgia grega, e começamos a ver nossos pais e mães com olhos mais realistas. E concupiscentes.

Países entraram em convulsão, fustigados por revoluções sociais e políticas. Burgueses e trabalhadores assumiram seu papel de novos donos do mundo, e o planeta começou a dividir-se em capitalista e comunista. No começo do século 20, sociedades igualitárias não eram um sonho, mas transformações reais que envolveram bilhões de pessoas.

Até meados do século, esses movimentos se ramificaram, deram novos frutos e depois se acalmaram. Na música, por exemplo, brotaram o jazz, o swing, o rock, a bossa-nova. A ciência descobriu a expansão cósmica, os buracos negros e a matéria escura que preenche o universo. O 14-Bis se transformou na Apollo 11, o átomo pariu um cogumelo atômico, o transistor do rádio virou o chip do tablet. E… parou por aí. O novo começou a ficar velho. Aquilo que não estagnou, ou ruiu ou degenerou. Depois de viajar à Lua, recuamos para umas voltinhas aqui na Terra mesmo. Os países comunistas viraram ditaduras; o estado do bem estar social capitalista, uma crueldade insustentável. O rock e a bossa-nova, nem convém falar.

Neste século 21 parece que as explosões terminaram. Até agora, o único estrondo deveras estarrecedor aconteceu em 11 de setembro de 2001. Prometia um início vibrante, alguns trocadilhistas diriam bombástico, mas do ponto de vista explosivo nada mais aconteceu. Minha tendência pessimista é achar que não vai acontecer mais nada no mundo, que até o Fantástico vai acabar, que a história está morta, como disse um historiador.

Mas depois, penso nos embates entre ocidente e oriente, lembro das jornadas de junho, vejo a ousadia dos movimentos sociais, olho para jovens secundaristas segurando o primeiro megafone, agitando a primeira bandeira, beijando com a língua rebelde a primeira companheira – e percebo que as cargas explosivas estão todas aí. Esperam apenas o momento, a centelha oportuna para serem detonadas.