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O signo da honestidade

Estou fazendo um programa de auto-desenvolvimento que recomenda, entre outros itens, a prática da honestidade. Falo sério, não é ironia. E honestamente, também não é fácil. Se eu vivesse na Finlândia ou na Suíça, onde ninguém vigia bancas de jornais, acho que seria mais tranquilo. Mas aqui, na terra do jeitinho e da lei de Gérson, a experiência é dolorosa.

A falta de honestidade não é a única cicatriz da minha face mr.Hyde. Segundo os astrólogos, por ter nascido sagitário, sou geneticamente fútil, esnobe, presunçoso, grosso, desbocado, insensível, controlador, extremista e irresponsável. De nada adiantou a natureza ter me dado a benção de ser também um cara expansivo, espontâneo, generoso, justo, otimista, alegre, idealista, sincero, aventureiro e motivador. O lado negro da minha força, com seu excesso de auto-confiança, desmorona tudo isso numa tacada sem escrúpulos. Ou seja, eu me acho “o cara”, gosto de jogar e adoro um golpe baixo. Portanto, leitor, tome cuidado. Todo esse blá-blá-blá – o exercício da honestidade me obriga a dizê-lo – pode ser uma engenhosa armação para conquistar sua simpatia e reforçar aquilo que mais gosto do meu lado “bom”: ser adorado por todos.

Após meses de esforços honestos, com várias melhorias e recaídas, já consigo devolver troco a maior, respeito filas, não me aproprio de idéias alheias, e reduzi drasticamente o número de mentiras, mentirinhas e mentironas. Às vezes me arrependo e a vontade de matar bate forte, como outro dia, no mercado municipal. Por falha da balança, a vendedora cobrou a menos um punhado de 100 gramas de goji berry – frutinha tibetana da moda, que ela vendia a preço de ouro: R$ 170 o quilo. Apontei-lhe o erro a meu favor, paguei o valor correto e marchei em frente, sorrisão na cara, embriagado de honesta felicidade. Logo descobri, porém, que do lado de fora do mercado a iguaria chinesa era vendida a R$ 90 o quilo. E a qualidade era superior. Fiquei mais vermelho que um goji. Tive que usar todo meu auto-controle para não cair de joelhos e estapear o rosto gritando “vai, dom Quixote do Jabaquara, quebrar a cara no Moinho Velho!”

O problema maior é que a honestidade não é uma questão de signo. Ela atinge todo o zodíaco, e é fácil identificar sua ausência nos outros. Principalmente naqueles que deveriam zelar por ela, como membros da imprensa, juízes, fiscais, conselheiros dos tribunais de contas (na Roma Antiga, o poeta Juvenal já indagava: “e quem vigia os vigias?”). Também é fácil justificar pequenos – e até grandes – deslizes, argumentando que “ninguém consegue ser 100% honesto”. O duro mesmo é resistir às tentações, às oportunidades. Não entrar em leva de saques durante greve da PM. O duro é ser um centauro certinho, enquanto peixes nadam em águas turvas; ser uma virgem cercada de escorpiões; um carneiro dócil numa manada de touros ferozes.

O duro é ficar firme mesmo se sentindo frouxo, otário, ingênuo, idiota. Felizmente, não compro goji berry todo dia. Mas falando francamente, o mais difícil não é ser honesto com os outros. É ser honesto comigo mesmo. Este é o mais elevado estado da arte. É o que separa os grandes dos pequenos. O que produz seres livres do medo de vigiar e punir. Sei que nunca chegarei lá, mas um dia, talvez, quem sabe, conseguirei chegar perto. Conseguirei usar meu arco e minhas flechas para o bem. Conseguirei escrever somente verdades. E não trapacear um centavo com o leão.

Imagine

Imagine um dia normal, dia de sol, festa de luz, você está saindo do dentista, da igreja, da padaria, quando uma turba enfurecida fecha-lhe a passagem com paus, pedras, punhos, olhos vermelhos, aos gritos de pega!, esfola!, mata!, e tudo é tão rápido que quando pensa em correr você já está rodeado por todos os lados, igualzinho aqueles pesadelos onde você sabe que está num pesadelo, só que não é pesadelo a primeira paulada em seu rosto, nem a segunda, nem a terceira, tampouco são de sonho as mãos que agarram seus cabelos, torcem seus braços, rasgam suas roupas, ou os pés que chutam suas pernas, seu estômago, sua boca, sua cabeça já caída na rua, uma rua real como o sangue que cega seus olhos, entope seu nariz, sufoca sua garganta, impede seus pensamentos, sua voz, só não impede o ouvido de ouvir os gritos, os xingamentos, o som seco das pancadas, tuf!, das pedras, tuf!, dos ossos se quebrando, e bem ao longe, como um sonho dentro do sonho, alguns pedidos de chega!, já deu!, vozes distantes falando pelo-amor-de-deus acendem no seu peito uma esperança irreal, uma vontade tremenda de levantar-se e correr de volta prá dentro da padaria, da igreja, do dentista, da realidade, imagine, a ilusão de escapar, de fugir, de chegar alguém, um amigo, um conhecido, a polícia que seja, ou então um médico, alguém que saiba que esse cheiro de urina e merda é natural em situações extremas, você viu na TV o que acontece com animais, mas você não é animal, você quer entender, saber porque, e por que você?, por que justamente você?, a pergunta gira dentro da sua cabeça, sua cabeça gira no corpo, seu corpo gira na multidão, a multidão gira, rosna, grita, morde, rasga como cardume de piranhas, como matilha de lobos, como correição de saúvas, como um organismo único que às vezes parece acalmar-se, aí você tenta falar algo, tenta erguer-se do chão, mas o organismo volta a se mexer agressivo, retorce os dentes, a pancadaria recomeça, agora sem dor, sem vozes, sem ruído algum, parece que sua alma saiu do corpo e está assistindo tudo, mas não é sua alma, porque você ainda consegue sentir cheiro, um cheiro ruim, uma catinga de medo, suor, ódio, e sangue que agora se mistura com cuspe e forma uma baba grossa que escorre pelo nariz, vaza pela boca, desce gosmenta pela garganta, sangue muito mais grosso e quente do que aquele de dente arrancado, de topada no nariz, um sangue salgado, igual água do mar, bate uma vontade imensa de beber água, você tenta pedir água mas a voz não sai, nada sai de dentro de você, o mundo ficou lá fora, tudo virou um delírio lá fora, você vê seu corpo flutuando bem devagar ao lado de uma bíblia, de um saquinho de pão quente, de uma TV fora do ar, da conta de luz, do smartphone do seu filho, de uma muda de gerânios, do diploma da faculdade, do gato se lambendo ao sol, do sol que apita como sirene de ambulância, de uma ambulância que apaga e acende seus faróis, de uns faróis que apagam e acendem atrás de um rosto, de um rosto que pergunta quantos dedos você vê, imagine, um rosto, imagine, uma pergunta, imagine um rosto que pergunta, imagine quantos você você vê.

Conversa de mulher

Vivi a maior parte da minha vida no meio de mulheres, conheço mulheres, lido com mulheres, e – como disse Rubem Braga a respeito de livros – sou capaz de distinguir uma mulher à primeira vista no meio de quaisquer outros seres, sejam animais, vegetais ou minerais. Autênticos ou imitações.

Cresci paparicado, protegido, amado e também criticado por mulheres. Fui criado num mundo cheio de calcinhas no banheiro, grampos em cima da pia, potes destampados, band-aids pelo chão e objetos desaparecidos. As perguntas que mais ouvi na vida foram “cadê…?”, “onde foi parar…?” e “alguém viu…?” Minha infância foi povoada por bobs e impregnada pelo cheiro de laquê, esmalte e acetona. Desde cedo aprendi a diferença entre um dia normal e um daqueles dias. Também aprendi que choro e riso, tristeza e alegria, são coisas naturais da vida, às vezes quase simultâneas.

Vieram de mulheres meus primeiros estímulos para ler e para escrever. De mulheres recebi as primeiras noções de indignação e solidariedade. Conheci mulheres operárias, artistas, camponesas, intelectuais. Mulheres guerrilheiras e mulheres policiais. Algumas livres, outras cativas. Algumas fortes, outras frágeis. Em todas, a mesma busca de carinho e de aventura. O mesmo fascínio pelo riso e pela virilidade. O  olhar observador, o encantamento pela vida. A mesma fome de viver e a mesma generosidade. A mesma delicadeza. Até naquelas com as asas cortadas, o corpo ferido e a alma mutilada. Naquelas sem futuro. Aquelas garotas com bebês de verdade porque não os tiveram de brinquedo.

Lennon disse que a mulher é o negro do mundo. Tenho minhas dúvidas. Os negros se emanciparam no século 19. As mulheres se libertaram do estatuto jurídico de inferioridade somente no século 20.

A primeira tentativa de cidadania feminina surgiu na Revolução Francesa, que pregava, entre outras coisas, o direito da mulher subir ao cadafalso. Ironicamente, a França foi um dos últimos países a permitir o voto feminino:  só o fez depois da Segunda Guerra.

No Brasil, até 1970, mulheres precisavam da autorização do marido para abrir conta em banco.  Aqui elas avançam em setores estratégicos, incluindo o judiciário, mas ainda tem presença minúscula na política: menos de 10% das cadeiras do Congresso. Somos governados por uma presidenta, mas ainda falta muito para chegarmos perto da Islândia ou da Noruega, países com a maior igualdade de gênero do mundo.

Até lá, vamos vivendo essa vidinha machista, limitada e antiquada. Até onde enxergo, não vejo mulheres buscando vingar as injustiças históricas que sofreram e sofrem. Acho que elas buscam uma posição econômico-social igualitária, um mero reconhecimento da sua contribuição para o desenvolvimento humano, sem inverter o sistema de dominação.

Falta a nós, homens, coragem para esse reconhecimento. Falta-nos hombridade para dizer a elas: valeu, meninas! Eu mesmo recebi muito das mulheres. Mas nem sempre retribuí à altura. Ao contrário, as pessoas que mais machuquei na vida foram mulheres. Com os homens aprendi a ser homem. Com as mulheres aprendo a ser um homem melhor. Se ainda não melhorei o suficiente, a culpa, definitivamente, não é delas. Eu é que sou meio loiro.

Enfim rico

Decidi ser rico. Não suporto mais essa vida de pobreza e escravidão. O simples ato de tomar essa decisão já me fortaleceu e iluminou. Fui invadido por uma paz interior. Quase sinto carinho pela humanidade. Percebi, finalmente, que meus grilhões não estão nos pés, e sim na cabeça. Serei rico e livre, como imagino que era há muito tempo atrás. Ou talvez nunca tenha sido.

Vou vender meus carros e meu apê com vista pro Ibirapuera. Cancelarei meus seguros, plano de saúde, cartão de crédito, telefones, TV a cabo, assinaturas de jornais e revistas, internet, conta bancária, academia. Apagarei meus perfis nas redes sociais. Jogarei fora o filtro Europa, o laptop, o celular, a impressora, o tablet, a balança eletrônica, o ipod, a tv digital, a máquina de nespresso, o home theater, a escova dental elétrica, o creme esfoliante. Manterei apenas o microondas e os aparelhos de som e DVD. Pro lixo meus dez pares de sapato, trinta gravatas, seis ternos, três casacos, vinte camisas e duas gavetas entupidas de camisetas. Demitirei a empregada, o personal training, o fisioterapeuta e o psicólogo.

Nunca mais ligações de telemarketing, nunca mais reuniões de condomínio, nunca mais horário no cabeleireiro, nunca mais cartões fidelidade, filas em supermercados, propagandas sob a porta. Nem IPVA, cadastros, IPTU, formulários. Adeus multas federais, estaduais e municipais. Pontuações na carteira e licenciamentos vencidos, adeus.

Liberto dessas misérias modernas, terei tempo e cabeça para as verdadeiras riquezas da vida. Vou me dedicar ao convívio com pessoas e ao debate de idéias. Almoçarei com amigos e jantarei com a família. Vou andar à pé pela cidade, visitar museus, assistir a filmes, concertos, teatros. Ler poesia. Tomar café e jogar conversa fora nas livrarias e botecos. Fazer feira com sacola de mão. Ler poesia. Conhecer lugares históricos. Sentar na sarjeta. Olhar as formigas. Ler poesia. Escrever cartas. Assinar um abaixo-assinado. Cantar num coral. Estudar as sabedorias da lentidão: perseverança, respeito e prudência. Ler poesia. Dobrar uma esquina por causa de um som ou uma borboleta amarela. Entrar numa manifestação de rua. Dividir o sanduiche com um viralata. Ler poesia. Abraçar, ouvir, sorrir, beijar. Consertar coisas quebradas. Ajudar a menina black bloc a se esconder. Ver a lua nascer e o sol se por –  em silêncio, lendo poesia.

Terei o mínimo de coisas, para desfrutar ao máximo da vida. Serei rico em felicidade e afetos reais, não em quantidade de amigos virtuais. Serei rico o suficiente para ir até a pequena chácara no Uruguai onde vive Pepe Mujica, e dizer ao ex-tupamaro: gracias, viejo, por mostrar que é possível chegar aos 80 anos sem trair a rebeldia, e que lutar continua sendo importante. E principalmente, por me fazer ver que pobre não é o que tem pouco, e sim o que necessita infinitamente muito, e deseja e deseja mais e mais.

Enredados

O Facebook tá virando coisa de velho. Nos últimos dois anos, nos EUA, o número de usuários entre 13 e 17 anos caiu 25%, enquanto o de velhos acima de 50 anos subiu mais de 80%. Antes, a rede era dominada (31%) por jovens entre 18 e 24 anos. Agora, mais de 30% são senhores e senhoras entre 35 e 54 anos. Mais do que envelhecer, o Face está a caminho da morte. Segundo pesquisas,  deverá perder 80% dos usuários até 2017, e depois desaparecer como o Orkut e o MySpace.

Faço parte do contingente de tiozinhos que entrou na rede nos últimos anos, e está contribuindo para afugentar a meninada. Também pertenço ao grupo de extermínio que vai abandonar de vez o canal, tão logo surja outra rede menos moralista e policialesca.

Se você usa o Face para postar frases de auto-ajuda, fotos de comida ou de pets, provavelmente nunca enfrentou a mão pesada do senhor Zuckerberg. Mas experimente postar uma foto do Davi, de Michelangelo, ou da Maja Desnuda, de Goya (nem vou falar da Origem do Mundo, de Courbet). O risco de censura e suspensão do seu perfil é enorme. Basta que qualquer debilóide o denuncie por conteúdo ofensivo ou pornográfico. E não adianta você argumentar que aquilo é arte. O Face não sabe o que é arte. Tenho um amigo fotógrafo que foi censurado e suspenso por causa de uma foto de indiozinhos nus jogando bola.

Alguns criticam também a invasão comercial do Face. Qualquer canal com milhões de pessoas na internet vai sempre atrair interesses comerciais. Faz parte do jogo. Mas tem que ter limites. Não suporto receber mensagens comerciais ou sugestões de curtir produtos e empresas em meu mural. Nem autorizo o uso dos meus dados e preferências pessoais por terceiros. E fico possesso ao ver aquelas propagandas oportunistas plantadas bem ao lado das setas da barra de rolagem, à espreita de cliques inadvertidos.

Meus chiliques, entretanto, são inúteis enquanto vigorar o AI-5 digital criado pelo então senador Eduardo Azeredo em 1999 (sim, ele mesmo, o ex-presidente do PSDB, criador do mensalão mineiro), que – em nome de uma falsa segurança – impõe censura, detenção e um sistema de vigilância na rede. Está em aprovação no Congresso uma nova legislação que irá regular a neutralidade, a privacidade, a retenção de dados, a função social da internet e a responsabilidade civil de usuários e provedores. Mas isso não é prioridade para nossos nobres legisladores. Nem a espionagem de Obama teve força para agilizar o processo.

Segundo analistas, os jovens estão debandando do Face porque seus pais, tios e avós invadiram o espaço e melaram a festa da galera – que está migrando em peso para o Twitter, o Instagram e o WhatsApp. Está certo, a moçada quer distância dos velhotes. Mas o problema geracional é uma questão menor, diante dos padrões medievais e ditatoriais que vigoram em nosso ciberespaço. De um lado, o Grande Irmão seguindo todos os meus passos. De outro, Torquemada censurando e punindo meus gestos.  Minha sensação ao entrar no Face não é a de entrar numa rede do futuro. É a de cair numa armadilha do passado.

Novo ano, velhos fantasmas

Achei que este seria o último réveillon da minha cardíaca e ofegante paulistinha de 14 anos. De uns seis meses para cá, a saúde dela piorou muito, e este seria o primeiro foguetório que enfrentaria fragilizada – e sozinha, pois eu e minha mulher ganhamos uma ceia num hotel e só voltaríamos para casa no dia seguinte. Temos outra cachorra, de 3 anos, mas de pouca valia: também é medrosa e uiva desesperadamente quando fica sozinha. Saímos de casa com os corações apertados.

Aperto parece uma boa palavra para definir 2013. Ficou uma sensação de que foi um ano de dificuldades, como se grandes tragédias tivessem acontecido. Mas olhando friamente, 2013 foi bastante igual a 2012, 2011, 2010. Desemprego? Normal. Inflação? Ainda normal. Tsunamis? Nem cheiro. Incêndio teve o da boate Kiss, mas foi no longínquo começo do ano. Até que não foi um ano ruim e teve muita coisa inédita. Teve a eleição de um papa argentino, as passeatas de junho que chacoalharam o país, e outras coisas que você já viu nas retrospectivas.

Apesar disso, a sensação geral é de aperto no coração. Como se tivéssemos passado o ano preparados para uma ameaça terrível que subitamente virou pó – como a cocaína dos Perrella. Que ameaça era essa? Ora, a mesma que retornaráem 2014: a idéia de que o país está falido, que estamos em crise, que nada funciona, nada vai dar certo. E nada percebemos porque viveríamos sob um manto de mentiras. Essa bolha de ilusão, grita diariamente a grande imprensa, vai estourar a qualquer momento, revelando o mundo dantesco onde estaríamos mergulhados.

Mergulhados na magnífica ceia do hotel, eu e minha mulher olhávamos – os rostos felizes, os abraços calorosos, os brindes espumantes –  e sinceramente não víamos crise alguma. Ao regabofe seguiu-se um baile animadíssimo. Dançamos e pulamos como nunca, queimando as calorias da orgia gastronômica. Dormimos  saciados, embalados pelo doce espoucar dos fogos que festejavam nossa felicidade.

No dia seguinte, no café da manhã, minha mulher disse que estava com medo de chegar em casa e encontrar nossa velha amiga durinha no chão. Se for só isso, eu disse, tudo bem (tenho o vício de usar o humor negro para enfrentar o medo). O pior – emendei –  é se, ao ver a paulistinha morta, a mais nova começou a uivar, não deixou os vizinhos dormirem, e tiveram que chamar os bombeiros prá arrombar a porta e salvar a pobre – abandonada pelos donos cruéis em pleno bombardeio aéreo de réveillon. Pura invenção, mas plausível. E possível.

Voltamos voando prá casa. A culpa gigantesca, o coração miudinho. Nenhum sinal de bombeiros. Subimos, abrimos a porta. Duas línguas alegres nos receberam. Nenhuma ocorrência grave. Só alguns xixis debaixo da mesa. Fiquei pensando como a anunciada tragédia nacional – e nossa crença nela – se parece com esse episódio, ou seja, o medo de suposições. Não sei como espantar os fantasmas que povoam as mentes dos brasileiros. Mas no próximo réveillon, vou tacar dramin nas cachorras. Algo me diz que a paulistinha ainda tem muitos anos novos pela frente. E eu quero curti-los sem medos de fantasmas.

Acredite se quiser

Acho que o ano deveria ter apenas nove meses. Além de mais compatível com o ciclo de gestação humana, ficaríamos livres de novembro, dezembro e janeiro – meses em que nada acontece, e quando acontece é desgraça natural. O último mês do ano seria outubro, quando ocorrem as coisas que realmente importam para o mundo.

A humanidade não seria o que é, se em outubro não tivessem nascido Gandhi, Lennon, Colombo, Oscar Wilde, Nietzsche, Picasso, Drummond e Vinícius de Moraes. Sem falar de minha filha e minha sogra. Outros grandes perderam a vida neste mês, como Chopin, Guevara, Janis e Maria Antonieta. Ah, dirá você, todo mês nasce e morre gente importante! Concordo, mas note como o elenco de outubro tem um brilho mais intenso, mais radical que os demais. Perfeito Fortuna sintetizou esse ímpeto numa frase definitiva: “outubro ou nada!”

Outubro é revolucionário. É o mês das revoluções chinesa e soviética, sem falar da revolução de 1930 – que enterrou nossa República Velha. Nesse mês, o homem voou pela primeira vez, rompeu a barreira do som, entrou em órbita da Terra e vestiu o primeiro smoking. De quebra, Colombo descobriu a América. Não sei em que ano faremos contato com extraterrestres, ou descobriremos vida em outro planeta. Mas será em outubro.

Eu sei o que você está pensando. Sim, agosto também é um mês do caralho. Sim, a bomba atômica teve grande impacto, os japoneses que o digam. Claro, Nixon renunciou em agosto. Jânio também, é verdade. Em agosto Getúlio se matou e JK se estrepou. Mês de cachorro louco, mangalô três vezes. Estamos juntos, é um mesinho forte, reconheço. Mas nunca produziu eventos da magnitude de outubro, capazes de mudar o mundo – para o bem ou para o mal. Não, não vou falar do crack da bolsa em 1929. Nem da coroação de dom Pedro I. Para liquidar o assunto, sugiro apenas que você pesquise em que mês foi lançado o Ford T.

Por esses motivos, sempre desconfio – a priori – da importância de uma coisa quando ela não acontece em outubro. Esse oba-oba em torno da prisão dos mensaleiros, por exemplo. Não consigo acreditar que isso signifique o fim da corrupção, da impunidade e da injustiça no Brasil. Nem o começo de um novo tempo com mais igualdade, respeito, solidariedade e tolerância. Tampouco a construção de uma república forte, onde as instituições funcionem de forma ética e competente.

As enxurradas de ódio entre o “bem” e o “mal”, o comportamento midiático do judiciário, a conduta justiceira da mídia, o oportunismo dos golpistas de plantão, tudo me faz duvidar dessa campanha da moralidade. Não acredito que se o mal contaminou o bem, então, automaticamente, o bem tenha contaminado o mal. Sei que há muita gente genuinamente indignada, gente honesta que não tolera mais abusos. Mas na condução do movimento, na orquestração da revolta, sinto um cheiro fétido e ouço o rosnar de lobos sob o balido alegre das ovelhas.

Além desses sinais de alerta, existe também um ceticismo atávico que habita o fundo do meu ser, e me leva a concordar com uma frase que está circulando na internet: vamos acabar na barbárie – se tivermos sorte. Mas o que realmente me faz achar que tudo continuará como dantes, se não pior, no quartel de abrantes – é que isso está acontecendo em novembro. Se estivéssemos em outubro, juro que eu acreditaria. Acho.

Balzac S/A

DSCN2524Ao ler Balzac, de Johannes Willms, ocorreu-me que se vivesse hoje o escritor francês seria rico. Podre de rico. Talvez não um top ten da Forbes. Mas provavelmente estaria entre os 100 maiores. Por um motivo simples: sua inacreditável capacidade de gerar riqueza midiática. Não porque produzia e fazia produzir, com disposição napoleônica e em escala industrial, romances, contos, folhetins, crônicas, teatro, crítica, projetos, bate-bocas, casos amorosos, anedotas, notícias, caricaturas, processos judiciais e – de forma mais industrial ainda – dívidas. Mas principalmente porque ele criou e recriou inúmeros produtos e formatos da indústria editorial, jornalística, gráfica e publicitária.
Balzac inventou o romance moderno. São devedores dele: Proust, Joyce, Rosa, Borges, entre outros. Sua linguagem está viva até hoje. Segundo pesquisa de Franklin Jorge, “lavagem de dinheiro” e “laranja” são gírias balzaquianíssimas. “Tia”, para homossexual de meia-idade, também. Ele escrevia para o plebeu, para o aristocrata, para o militar. Também era lido pela burguesia, embora não fosse seu target (Honoré era monarquista e antirrevolucionário). Chegou a ter uma boa agente literária – Louise de Brugnol – mas a pobre labutava também como governanta, mãe, enfermeira e amante. Nessa ordem. Balzac a chamava de “mulher-cão”. Se tivesse agentes profissionais, Balzac teria vendido mais que Paulo Coelho e J.K. Rowling juntos.
Depois, inventou o folhetim – o cavalo a vapor que bombou as primeiras engrenagens jornalísticas, depois a máquina do rádio e agora a indústria da TV. Ele mesmo não conseguiu adaptar-se à narrativa fracionada, nem criar os ganchos que o formato exige. Ironicamente, quem mais lucrou à época foi um inimigo jurado de Balzac, Eugène Sue, um dos primeiros mestres do “gancho”. Depois vieram Glória Magadan, Dias Gomes, Aguinaldo Silva…
Empresário gráfico, Balzac criou o bolsilivro. Infelizmente, um fracasso de vendas, pois as limitações gráficas tornavam o formato quase ilegível. Com essa invenção, ele amargou sua primeira falência. Atualmente, teria enchido os bolsos com Brigitte Monfort, FBI, Colt, Sabrina e similares.
Balzac inventou o político de massas midiático quando nem havia política de massas. Tentou eleger-se com base na sua popularidade, mas a maioria dos seus fãs não eram eleitores. Antes de 1848, só votava na França quem pagasse a fortuna de 200 francos anuais de impostos. Num regime político de massas, entretanto, Honoré nocautearia Schwarzenegger. Daria um banho em Cicciolina.
Era um marqueteiro nato. Viveu de merchandising quando a propaganda ainda engatinhava. Seu alfaiate, Buisson, recebeu cinco inserções na Comédia Humana. Em troca, crédito ilimitado para o caríssimo fashion balzaquiano. Despesas com festins em restaurantes da moda? Receitas de merchandising. Os fictícios Lucien de Rubempré e Henry de Marsay, eram habitués das mesmas casas que seu criador. Só o Rocher de Canale, um dos templos gastronômicos da época, é mencionado 39 vezes na Comédia.
Balzac inventou também o marketing promocional. Fez de si próprio um personagem famosíssimo, mas não conseguiu administrá-lo. Volta e meia, misturava o homem e o personagem, a realidade e a aparência. E dava com os burros n’água. Um apoio psicológico e uma consultoria de imagem competentes o teriam transformado num produto valiosíssimo. Talvez superior a Dali, se tivesse Gala. Ou Caetano, se tivesse Paulinha.
Por fim, Balzac inventou os direitos autorais. Ele escreveu a base da lei francesa de 1854 e também redigiu um código literário que regulamentava o direito dos autores perante editores – transformado em lei 12 anos após sua morte. Honoré deve ter chacoalhado seus endividados ossos na cova. Quando vivo, nunca viu a cor (só o cheiro, uma vez) de uma comissão. Hoje em dia, os direitos autorais giram bilhões de dólares ao redor do mundo.
Proust dizia que a grande arte leva uma geração para ser aceita. Balzac sacou isso antes, ao perceber que só ficaria rico quando não precisasse mais. Em abril de 1842, ele escreveu: “é preciso transcorrer meio século até que uma coisa grande seja, enfim, compreendida”. Proust – que não dependia da sua pena para viver – escrevia em busca do tempo perdido. Para Balzac, tempo era money. Ele escrevia em busca da grande tacada. Pena que não viveu para ver as tacadas milionárias que se tornaram suas obras, suas invenções, suas lutas, sua vida. Daria para construir uma holding: Balzac S/A.

Na estante de Lima Barreto – imagem: Loredano

Um passeio pela biblioteca de Lima Barreto, mulato fluente em francês que sabia o seu lugar na literatura brasileira.
Suba a rua Major Mascarenhas, Vila Quilombo, Rio. Passe pelo o alvoroço de crianças, cachorros e galinhas. Entre na última casa pobre da ladeira pobre. Abra o quarto maior e veja as 5 estantes com 16 prateleiras:

Estante 1 – 1a. prateleira

– Cartas. Mlle. Lespinasse
– Origines et Descendance de l’Home. Haeckel et Bolche.
– Mèlanges d’Economie Politique. Bastiat. 2 vols.
– Eneida. Virgilio (en italiano)
– La Cousine Bette. Balzac
– L’Anthropologie. Topinard
– L’Individu et les Diplômes. Abel Faure
– Pléiades. Gobineau
– O Abolicionismo. J.Nabuco
– Littérature Française. Charles andré
– Idem. Gèruzez. 2 vols.
– Idem. Brunetière. (não está nesta estante; está na 2a., 3a. prateleira).
– La Bible d’Amiens. Ruskin
– Confessions. Rousseau
– Oeuvres. Racine
– Civilizaçao Ibérica. O. Martins
– Pensées. Pascal
– Eugénie Grandet. Balzac
– Caractères. La Bruyère.

(continua em outro passeio…)

Margarida

Primeiro chegou a carteira com encosto e tampão diferentes, de madeira mesmo, só que bem mais altos. Puseram no primeiro lugar da fileira que ficava encostada nas janelas. Ninguém podia sentar. É do aluno novo, falaram. Problema nas costas, segredou o professor de química. Um aleijado, previu o Vacabrava. A carteira ficou um tempão lá, acho que semanas, vazia que nem trono.

Quando ninguém mais tava nem aí, ele chegou trazido pela diretora. Veio andando, mas andava duro, o pescoço preso num colar de gesso que não deixava abaixar nem virar a cabeça. A diretora falou que o nome dele era Lúcio, que tinha feito uma operação e ia ficar daquele jeito por uns tempos. Ele sentou na cadeira bem devagar, se ajeitou, pôs um livro no tampão, esticou os braços pra frente, depois prá baixo, virou o corpo prá diretora e falou tudo bem, a carteira tava aprovada. Ele não falou nada prá nós e não olhou prá ninguém, mas todo mundo ficou olhando prá ele e olhando um pro outro e cochichando adoidado.

Acho que o problema era os olhos dele. Eram verdes, bem verdes, às vezes mais claros, às vezes mais escuros, e fuzilavam quando ele ficava bravo. Ou foi o olhar de cima, com o pescoço esticado. O jeito de falar também não ajudava: a voz era grossa mas ele falava de soquinho e meio mandão, que nem a professora de matemática. Prá piorar, enturmou com as meninas, que ficaram todas loucas com aqueles olhos dele e protegiam ele como se estivesse dodói.

Começou no recreio. Margarida, o Betão falou. Margarida, o Vacabrava repetiu. Mar-ga-ri-da, Mar-ga-ri-da, todo mundo berrou e riu muito. O apelido nunca mais saiu. Uma vez o Betão foi surrupiar um caderno dele e levou uma reguada na mão que não foi mole. O Betão quis tomar na marra, mas ele segurou o caderno com tanta força e faiscou o olho verde de um jeito que o Betão recuou. Noutra vez ele enfrentou uns dez no alto da escadaria, de costas pros degraus, bem na beiradinha, o corpo teso, a cabeça erguida, se defendendo só com a régua na mão e o olhar. Depois disso, começaram a respeitar mais. Nunca nenhum menino ficou amigo dele, e ele só entrava nos grupos das meninas. Foi Margarida, Margô até o fim, mesmo depois quando tirou o colar do pescoço e ficou meio igual a todo mundo, apesar de nunca ter tido uma namorada que a gente tivesse visto.

Contei essa história prá minha irmã, quando ela me disse que trabalhava com ele no centro espírita, que era o melhor médium de lá, que tinha uma energia especial nos olhos, que vinha gente do Brasil inteiro tratar com ele, que tinha casado muito bem, que tinha dois filhos lindos e educadíssimos, que era advogado, que cozinhava divinamente, que estava muito bem de vida, que tinha ficado super-contente de saber que ela era minha irmã, que queria me ver da próxima vez que eu fosse na casa dela e que o menino mais velho dele tava sofrendo muito mas muito mesmo por causa desse negócio de bullying, coitado.