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Festa no céu

Aos 95 anos, morreu esta semana o historiador marxista inglês Eric Hobsbawm, considerado um dos mais brilhantes intelectuais do século XX. A mídia nacional e internacional destacou que o pensamento do mundo ficou mais pobre. Acho que a coragem e a alegria também empobreceram. Li Hobsbawm na faculdade de história. Ficávamos felizes quando o texto era dele, porque a leitura era prazeirosa. Escrevia simples, preocupado em descobrir e mostrar novos detalhes, novas visões e significados. Não gostava de exibir a vasta erudição, nem se prendia a firulas teórico-metodológicas – duas pragas acadêmicas que ainda nos assolam.

Em 1984, integrei um grupo de alunos que pediu a destituição de uma antiga e antiquada professora da PUC-SP. Pressionada, a escola abriu inscrições para novos docentes. Um dos aprovados foi Nicolau Sevcenko, hoje titular da Universidade Harvard e aposentado pela USP. Nicolau tinha dividido com Hobsbawm uma sala do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Londres. No último dia 3, na Folha de S.Paulo, ele narra como o velho vermelho, generosamente, o ajudou em suas pesquisas, e como o acossava com suas críticas, “como um grande mestre diante de um calouro num tabuleiro de xadrez”. Para Nicolau, “num mundo de moralidade dissolvente e corrosão sistemática do conhecimento erudito, a ausência de Hobsbawm soa como um colapso”.

Conheci Hobsbawm pessoalmente em 2003, durante a primeira FLIP-Festa Literária Internacional de Parati. Pedi seu autógrafo num velho exemplar de “As Origens da Revolução Industrial”, publicado em 1979 pela editora Global. A fila parou. Ele não sabia que era publicado no Brasil há tanto tempo. Folheou o livrinho cheio de anotações, examinou a edição, quis saber em qual escola eu tinha me formado. Depois, esbarramos pelas ruas e botecos de Parati. Eu receoso de ser chato, ele sempre gentil, sorridente, atencioso. Notei que tinha no cinto um chaveiro com o distintivo do PT. Disse-me que a explicação estava em sua autobiografia (“Tempos Interessantes”, que eu trazia debaixo do braço, e ainda nem começara a ler). Achei que fosse teorização, mas Hobsbawm nunca teorizava. Em suas memórias, ele dedica um capítulo de quase trinta páginas às viagens que fez à America Latina e ao Brasil, desde o início dos anos 60. Considerava o surgimento e crescimento do PT nos anos 80 um dos fenômenos políticos mais importantes do continente – embora ainda recente e sem condições de melhor julgamento. O chaveiro servia-lhe como lembrança dos momentos junto à militância do partido, do debate em praça pública que participou em Porto Alegre, dos encontros tocantes que tivera com Lula. Ele sabia que o comunismo estava morto, mas nunca perdeu o espírito de luta. “Não nos desarmemos – escreveu – mesmo em tempos insatisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho”.

Além da coragem, Hobsbawm carregava uma imensa alegria. Adorava música. Escreveu “A História Social do Jazz”, prefaciada no Brasil por Luis Fernando Veríssimo, velho parceiro de jam sessions. Seu disco preferido era “Sargent Peppers” dos Beatles. Nas matérias sobre sua morte, chamou-me a atenção o episódio narrado pela socióloga americana Saskia Sassen. Quando estavam no auge os movimentos Occupy Wall Street, em Nova Iorque, e Los Indignados, na Espanha, ela comentou com Hobsbawm: “bom, não?”. Ele respondeu sem hesitar: “sem festa, nada é bom”. Parece uma tirada espirituosa, uma frase brincalhona, mas o velho Hobs não brincava em serviço. Com uma só martelada, um pancadão de Pink Floyd, demoliu toda a seriedade, ou caretice, do movimento the wall.

Não sei quais exemplos históricos ele tiraria da cartola, mas associei festa com música e lembrei de alguns casos que conheço relativamente bem. A Marselhesa, agitando a Revolução Francesa. O rock, revirando a cultura nos anos 60 e 70. A balada Grândola, Vila Morena disparando a senha para a Revolução dos Cravos em Portugal. O movimento pelas Diretas Já, embalado por um Coração de Estudante batendo forte no peito de Fafá de Belém. A algazarra dos panelaços e buzinaços. A resistência à ditadura militar de 1964, fortalecida por Caminhando na voz profunda de Vandré. Até mesmo a primeira eleição presidencial do PT, quando a esperança era forte e cantávamos Lulalá mirando as estrelas, dançando e nos beijando em praças, ruas, morros e praias.

O velho Hobs acertou, mais uma vez. Sem festa, nada é bom. Gosto de imaginar que ao chegar ao céu, ele foi recebido pela gargalhada de Hebe Camargo, outra festeira cuja alegria perdemos e por isso tanto nos entristecemos. Vejo Hebe apertando as bochechas do velho professor (feio de doer) e apresentando-o para todos os músicos, poetas, rebeldes e sonhadores celestiais: “não é uma gracinha”? Minha única dúvida é se essa gente está no céu ou em alguma outra dimensão. Se descobrir, é pra lá que eu vou.

Sem medo da utopia

Volto a Cuba (o tema) pela terceira vez, para concluir minhas impressões de viagem. Não é uma tarefa fácil, devido às paixões que Cuba provoca. Mas é interessante notar como o futuro da Ilha está ligado ao seu passado.

Os EUA ajudaram Cuba a livrar-se da Espanha e da hegemonia inglesa. Em troca, sujeitaram-na ao seu próprio domínio. Na primeira Constituição cubana, a famosa emenda Platt dizia: “Art.3: os EUA podem exercer o direito de intervir para a preservação da independência cubana, para a manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual”. Outro artigo determinava que Cuba devia vender ou alugar terras para a instalação de bases navais para “manter a independência” e “proteger o povo cubano”. Assim nasceu a base de Guantánamo em 1904 (cujos cheques de pagamento do aluguel jamais foram cobrados pelos socialistas). Graças à emenda, os EUA invadiram Cuba em 1906, 1912 e 1917.

As coisas seguiam felizes para os EUA e para a elite cubana, até que uns barbudos tomaram o poder. Ignácio de Loyola Brandão, em seu livro “Cuba de Fidel”, descreve as condições  do cubano em 1959: sem trabalho, sem comida, numa insalubridade calamitosa. Mortalidade infantil enorme e analfabetismo em mais de 50% da população. Segundo Loyola, “proliferavam o jogo, a prostituição (mais de 100 mil putas para 5 milhões de habitantes), e o tráfico de drogas. Havia um grande número de marginais, o submundo era a forma mais eficiente de ganhar dinheiro”. Tudo isso governado por uma ditadura apoiada pelos EUA, que controlavam também a riqueza da Ilha (50% das ferrovias e 40% do açúcar, sem falar de hotéis, cassinos, e produtos ilícitos).

Os barbudos acabaram com a farra e implantaram o comunismo sob as barbas do Tio Sam. Nunca foram perdoados pela ousadia. Desde 1960 os EUA tentam retomar seu domínio, por meio do bloqueio econômico, do apoio e financiamento a ataques militares (Playa Girón), a ações terroristas (bombas em hotéis) e a campanhas de propaganda.

Animados com a ruína do socialismo europeu, criaram uma nova lei – a Helms-Burton – que prevê o bloqueio econômico total e internacional da Ilha, impõe sanções a empresas e países que mantenham relações com ela, e legaliza o apoio a opositores do regime. De quebra, estabelece que os EUA tem o direito de definir que tipo de governo, de sociedade e de relações deverá ter o país após a queda da revolução.

O objetivo é claro: vencer Cuba pela fome e pela força, e depois anexá-la (como Porto Rico). A rede espanhola Meliá, e a tabageira Souza Cruz, do Brasil, sentiram a mão pesada dessa lei.

Cuba está na merda desde os anos 90, quando o socialismo europeu ruiu. Existem dispositivos republicanos, mas não há rotatividade do poder. Embora numa escala menor, voltam a surgir desempregados, prostitutas, marginais, corruptos, alguns estupros e brigas de canivete. São mazelas parecidas com as de 50 anos atrás, mas que precisam ser vistas no contexto da guerra com os EUA, e do esgotamento dos modelos socialistas do século XX.

Os cubanos tem pouco oxigênio, e estão numa encruzilhada. De um lado, a águia americana pronta para o bote. De outro, o atoleiro capitalista em crise. Pareceu-me que eles vão tentar uma terceira via. Acho isso utópico. Mas Cuba não tem medo de utopias. Nem dos EUA.