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Explosões

Estou achando este começo de século bem chinfrim, comparado ao anterior. Os primeiros anos do século 20 foram enlouquecedores, um terremoto cósmico que chacoalhou a ciência, a arte, a política, a sociedade, a tecnologia, as crenças e as descrenças.

O surgimento de novas invenções só se compara à explosão de vida no Cambriano – quando, aparentemente do nada, brotou uma multidão de novas formas de vida que povoam o planeta até hoje, apesar dos humanos. Em pouco mais de trinta anos, nasceram e cresceram o cinema, o rádio, o automóvel, o avião, a lâmpada, o telefone, a TV. Trocamos o velho Deus construtor pela brilhante idéia do Big Bang, deixamos de usar as coxas e passamos a fazer as coisas na esteira de produção. Descobrimos que estamos navegando sobre o planeta aboletados em placas tectônicas, e que tudo na vida é relativo – inclusive o tempo e o espaço.

As artes refletiam esse turbilhão de descobertas, esse novo jeito de olhar as coisas, de sentir o mundo, um mundo errático, dissonante, esquisito, onírico, disforme, híbrido, sem paz, com a vida e a morte eternamente em luta. Música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, tudo explodiu. A loucura deixou de ser anormal. O amor deixou de ser puro, e o sexo, impuro. Deixamos de acreditar que Édipo e Electra eram meras ficções da dramaturgia grega, e começamos a ver nossos pais e mães com olhos mais realistas. E concupiscentes.

Países entraram em convulsão, fustigados por revoluções sociais e políticas. Burgueses e trabalhadores assumiram seu papel de novos donos do mundo, e o planeta começou a dividir-se em capitalista e comunista. No começo do século 20, sociedades igualitárias não eram um sonho, mas transformações reais que envolveram bilhões de pessoas.

Até meados do século, esses movimentos se ramificaram, deram novos frutos e depois se acalmaram. Na música, por exemplo, brotaram o jazz, o swing, o rock, a bossa-nova. A ciência descobriu a expansão cósmica, os buracos negros e a matéria escura que preenche o universo. O 14-Bis se transformou na Apollo 11, o átomo pariu um cogumelo atômico, o transistor do rádio virou o chip do tablet. E… parou por aí. O novo começou a ficar velho. Aquilo que não estagnou, ou ruiu ou degenerou. Depois de viajar à Lua, recuamos para umas voltinhas aqui na Terra mesmo. Os países comunistas viraram ditaduras; o estado do bem estar social capitalista, uma crueldade insustentável. O rock e a bossa-nova, nem convém falar.

Neste século 21 parece que as explosões terminaram. Até agora, o único estrondo deveras estarrecedor aconteceu em 11 de setembro de 2001. Prometia um início vibrante, alguns trocadilhistas diriam bombástico, mas do ponto de vista explosivo nada mais aconteceu. Minha tendência pessimista é achar que não vai acontecer mais nada no mundo, que até o Fantástico vai acabar, que a história está morta, como disse um historiador.

Mas depois, penso nos embates entre ocidente e oriente, lembro das jornadas de junho, vejo a ousadia dos movimentos sociais, olho para jovens secundaristas segurando o primeiro megafone, agitando a primeira bandeira, beijando com a língua rebelde a primeira companheira – e percebo que as cargas explosivas estão todas aí. Esperam apenas o momento, a centelha oportuna para serem detonadas.

Amigo é pra essas coisas

Acabou a Copa, acabou a água, acabou o salário, acabaram as férias, acabou-se o que era doce. Acabaram até os assuntos dignos de nota. Percorro os grandes cronistas, e nada. Um deles comenta um novo livro sobre a cidade de Santos. Outro ridiculariza o surgimento de mais um cacoete de linguagem, e um terceiro volta pela enésima vez ao golpe de 64.

Bem que Paulo Mendes Campos nos alertava que tudo – até o amor – acaba. E o que ainda não acabou, um dia acabará. A Terra acabará. O Sol acabará. A Via Láctea inteira acabará, engolida por nossa vizinha Andrômeda. Gasto minutos preciosos da minha vida – que também acabará – olhando os astrônomos discutirem o nome da nova galáxia que irá surgir e, assim como eles, não consigo escolher: Lacdrômeda ou Androláctea?

Talvez a dúvida nunca se acabe. O medo também é inacabável. E os mistérios. Acho que só. Até a vontade de viver acaba. O único consolo é saber que quando algo acaba, algo ocupa seu lugar. É o chamado ciclo sem fim, daquela música do filme “O rei leão”. Tudo se transforma. A mocinha bonita se transformará na idosa respeitável, este inverno se transformará em primavera, aquela flor se transformará numa fruta, e da sua semente brotará uma árvore.

Essas mudanças são fáceis de ver, de imaginar, de aceitar. Mas há coisas que não sabemos em quê vão se transformar. Por exemplo, que espécie de bicho virá depois do homo sapiens? Vamos evoluir no rumo da civilização ou da barbárie? A vida tecnológica dominará a vida natural?

Tudo isso lhe parece muito papo cabeça? Pode ser que seja, mas as respostas a essas questões dependem de coisas bem simples, como o nosso jeito de consumir, de interagir, de fazer as coisinhas do dia-a-dia. Um amigo meu diz que precisamos ser menos vorazes, porque não vai ter mundo prá todo mundo. Tem gente querendo voltar à vida tribal, alegando ser esse o único tipo de comunidade onde as relações humanas deram certo: não havia desemprego, nem crianças abandonadas, nem velhos morrendo à míngua.

Nas seitas norte-americanas amish toda nova tecnologia é rejeitada, até que se mostre não prejudicial às relações familiares e sociais. O automóvel é um perigo porque leva as pessoas para longe. O telefone é ruim porque elimina o contato direto nas conversas. A televisão destrói as visitas sociais, as rodas de convívio. Precavidos, os amish só adotam inovações depois de estabelecerem regras que limitem seus danos à saúde social.

Recentemente a biologia e a medicina descobriram que os seres mais resilientes – capazes de suportar melhor as pauladas da vida – são aqueles com mais relações no meio ambiente. Ou seja, a casa pode cair, e um dia cairá. A festa pode acabar, e um dia acabará. Quem tem amigos vai sobreviver, e saberá recomeçar o ciclo sem fim. Que não sabemos para quê existe, mas está aí. E nunca se acaba. Como canções. E epidemias.

Páscoa da socialização

Gastei um bom tempo procurando coisas boas prá dizer neste domingo de Páscoa, algo que fizesse renascer nas pessoas alguns fiapos de esperança, aproveitando o embalo do renascimento de Cristo. Está difícil a vida do otimista. A leitura dos jornalões e revistinhas não deixa dúvidas: o mundo está acabando no Brasil. Mas esgueirando-me no muro do bom senso, fugi da saraivada de coisas ruins e encontrei três ovos de chocolate escondidos. Deguste-os comigo.

O primeiro ovo, como no princípio, é um verbo: compartilhar. Nunca compartilhamos tanto, com tantos. Compartilhamos o que estamos pensando, o que estamos lendo, o que estamos fazendo, nossas finanças, nossas doenças, nosso tudo. Compartilhar virou uma febre, uma pandemia. O número de fotos pessoais postadas nas redes sociais é astronômico. Mas também – e principalmente – estamos compartilhando idéias, ferramentas, criações, além de trabalho.

Compartilhando, chegamos ao segundo ovo, a cooperação coletiva, um nível superior de engajamento comunitário. É o mesmo impulso do mutirão prá fazer um puxadinho, só que numa escala planetária. O software Linux Fedora, por exemplo, é uma colaboração de 60 mil anos/homem de trabalho. Estima-se que atualmente cerca de 500 mil pessoas ao redor do mundo estejam trabalhando em mais de 400 mil projetos de código aberto diferentes, como a Wikipedia. É quase o dobro do quadro da General Motors, mas sem nenhum chefe. São colaboradores que moram em países distantes, falam línguas diferentes e nunca se encontrarão para um churrasquinho com cerveja na laje, ao terminarem o projeto. Hoje estamos construindo colaborativamente enciclopédias, agências de notícias, videotecas e softwares em grupos intercontinentais. Nada impede que usemos o mesmo método para construir pontes, universidades, plataformas espaciais.

O ovo número três está no final da trilha da cooperação: o coletivismo. Já existem sites colaborativos que permitem o uso de suas criações de forma comunitária, quase comunista. Posso fazer da sua foto a minha foto, posso alterar seu vídeo como quiser e usá-lo como bem entender. Para os jovens de hoje, o sentido de propriedade intelectual ou artística faz cada vez menos sentido. A grande curtida é alguém pegar minha criação e acrescentar algo nela. Na cabeça da molecada, o coletivo é muito melhor. Intuitivamente eles sabem que no coletivismo tanto o indivíduo quanto o grupo saem ganhando. Como sabem as abelhas e as formigas. E sabiam os homens, nas tribos e comunidades antigas.

Estudiosos avaliam que nos próximos 20 anos as forças socializantes da tecnologia – compartilhamento, cooperação, coletivizacão – serão o evento mais marcante em nossa cultura e comportamento. A natureza nos fez animais sociais. De grupo em grupo, de tribo em tribo, de cidade em cidade, de país em país, chegamos até aqui. Agora, estamos no limiar de uma tribo planetária. Talvez seja esta uma grande, nova e verdadeira páscoa, em qualquer dos seus três significados: a época da fecundação e germinação, a passagem para a terra prometida, o renascimento do homem e do seu espírito.

Errar humano era

Para mim, uma das coisas marcantes em “Fahrenheit 451” é quando, na parte final, as pessoas memorizam livros inteiros, guardando na cabeça o que estavam proibidas de ter em papel. Eu via nisso mais do que uma vitória contra a opressão. Era a garantia de que a memória poderia salvar-nos da barbárie, preservando a cultura e a arte num local (sempre quis escrever esta palavra) inexpugnável: nossas mentes. Ah, que conforto imaginar que para alimentar o espírito e a inteligência não precisaríamos de papel, nem de livros, nem de palavras impressas. Não precisaríamos de nada além de nós mesmos, suprema autonomia e liberdade. A única tecnologia necessária seria aquela que a natureza nos deu gratuitamente em forma de neurônios e sinapses.

Por isso fiquei estarrecido ao ler em “Para onde nos leva a tecnologia” (editora Bookman, 380 pgs.) de Kevin Kelly, que estamos transferindo nossa memória para a rede digital. O advogado não precisa mais saber em que artigo enquadrar um crime. O médico não precisa memorizar receitas, ou as causas de dores nas costas. Ninguém tem que saber inglês para descobrir que “Lolita, light of my life” é um belo exemplo de aliteração, e também a frase que abre o inesquecível livro de Nabokov. Minha mulher não precisa mais lembrar onde deixou os óculos. Basta que todo mundo tenha à mão um celular conectado à web.

E que os óculos tenham um chip, não é? – acrescentará você. Pois eles terão muito mais que um chip, ligadíssimo leitor. Na verdade, serão mais do que óculos – essa velharia inventada no século 1 (obrigado, Google). Já existem óculos que filmam e fotografam plugados na internet. Futuramente, seguindo as tendências dos softwares de tecnologias vestíveis, poderão ter localizadores espaciais, visão de raios X, infravermelho e sequenciadores de DNA que emitirão alertas sobre eventuais danos causados aos seus genes pela luz, poluição ou leitura de textos como este.

Essas profecias high-tech nunca me preocuparam. Sempre achei que não estaria vivo quando inventassem bonés captadores de pensamentos alheios. Mas a taxa de expansão tecnológica está acelerando velozmente: a eletricidade levou 75 anos para chegar a 90% dos americanos; o celular apenas 20. Logo haverá robôs humanóides trabalhando como economistas, psicólogos e geriatras; dando concertos musicais; filosofando e escrevendo poesia. É possível que no meu funeral, a missa seja rezada por um androide ecumênico.

Como cinquentão, sinto um prazer egoísta ao pensar que a memória não será tão valorizada, nem sinal de juventude e inteligência. Mas sinto calafrios ao imaginar os efeitos a longo prazo, onde engenhocas diabolicamente inteligentes poderão dominar sem esforço uma legião de humanos com cérebros atrofiados, incapazes de uma idéia brilhante com mais de dez volts. Sem falar nos erros e idiotices que as supermentes tecnológicas fatalmente irão cometer. Aliás, já estão cometendo. Ontem levei uma bronca federal por ter esquecido o aniversário de uma grande amiga. Falha do Facebook que não me lembrou, expliquei a ela. Safei-me fácil e suspirei aliviado: não é que ser um desmemoriado tem lá suas vantagens?