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Trabalhadores

Depois de recolher os pratos da enorme mesa de jantar, e enquanto serve os queijos da sobremesa, Lucia atende satisfeita o pedido de sua patroa e conta como veio do Norte com duas meninas nas mãos e um menino no bucho. O primeiro marido morreu furado de peixeira na véspera da viagem, mas ela embarcou assim mesmo. Conheceu o moreno Bahia no sacolejo do pau de arara. Quando apearam no Tatuapé, já estavam casados. Durante seis meses a única coisa que comeram foi o pão que o diabo amassou no frio do inferno paulistano. Mas isso, diz ela, qualquer cristão – se tiver fé – aguenta. O duro foi a humilhação. Pior que cachorro magro na porta de armazém. Bandido levando pescoção da polícia. Três coisas ela não esquece: a cuspida de desprezo do bebum que odiava nordestinos; o velho vesgo e gordo perguntando quanto eles queriam pela menina mais velha; as madames desviando o olhar e resmungando com nojo “ai, essa gente…” Trabalharam em duas chácaras antes de chegar na fazenda dos franceses. O povo de São Paulo é bom, ela diz, segurando um mimolette numa mão e um emental grand cru na outra. Gente ruim tem em todo lugar, filho. Tem que saber lidar. E acreditar.

***
Pedro não gosta do frio porque a terra fica dura que nem pedra, o enxadão não entra nem a metade. A mão também fica dura e os dedos doem. Todos os ossos doem no frio. Antes ele se esquentava com uma jurubeba, um conhaque de alcatrão, uma branquinha. Agora nada. A nova chefe disse que ele não vacilasse porque não tinha mais chance. Em casa, a mulher, envelhecida, também disse que ele não tinha mais chance. A filha disse que ele não tinha mais chance. Entrou num programa de ajuda. Até agora conseguiu fugir do primeiro gole. O enxadão quica na terra dura, a vibração sobe pelo braço e dói. Ele cospe de lado. Cuspe seco e frio. Se tomasse um gole, o cuspe sairia grande e quente. No frio não aparece nem um anjo. Só dá velho, derrubado por gripe ou veia entupida. Ou osso quebrado. No frio o osso fica mais duro e quebra mais fácil. Anjinho é bom porque é cova pequena, não dá trabalho. Difícil trabalhar sem beber. Faz mais de cinco dias que não aparece um anjo. Ou quatro. Cinco dias faz que ele não bebe. Ou seis. Ou quatro. O frio congela até a lembrança. Assim que enterrar mais esse velho, vai dar um pulo no bar da Tonha. Tomar um café bem quente. Só um café. Frio é foda.

***
Angelo é filho de Angélica, a mais linda mulata que já pôs os pés, os peitos e as nádegas num puteiro. Nunca soube o nome do pai. Cresceu em meio a mimos e carinhos, de um lado, e muita malícia e malandragem de outro. Aprendeu a bater e a apanhar em silêncio. Descobriu a importância do silêncio, e o valor do amor. Começou a trabalhar como boy de zona por necessidade, quando Angélica foi presa pela primeira vez com o nariz cheio de farinha. Aos quinze, quando Angélica começou a ser internada em clínicas, passou a garoto de programa. Tentou trabalhar de carteira assinada, quando Angélica morreu de Aids, mas desistiu. Não nasci prá ser escravo, disse prá quem perguntou. Falam que hoje ele é o maior cafetão da zona sul. Falam que tem doze putas novas e seis travecos de primeira. Que gosta de carrão e de tomar chá com torradas no jockey clube. Falam que vai abrir um puteiro só dele. O povo fala demais.

1 responder
  1. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    Cezar querido cronista,
    ao ler sua coloquial prosa sobre a história de vida desses trabalhadores pareceu-me conhecê-los. São trajetórias parecidas a de outros que conheço, mais próximos ou mais distantes do meu cotidiano. E são histórias de sucesso na luta pela vida: de vencedores pelo trabalho frente á perspectiva de inerte existência. Vitória tal como requer e ordena a todos a velha Senhora Burguesa. Meus respeito á eles e a você que não os esquece. Mas, frente á velha Senhora Burguesa, não posso concordar com seu chicotinho nas mãos e a cruel ironia costumeira no trato desses trabalhadores. Cezar, continue escrevendo, além dos gestos e com eles. Um abraço.

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