travessia

Travessia

Aconteceu novamente. Fui adiando o momento de iniciar a escrita e agora tenho três horas para achar um assunto, desenvolvê-lo, finalizar e enviar para o jornal. Nunca estive num aperto como este, mas vou tentar.

Tenho ganas de pegar uma noticia qualquer e enxertar nela o hino do meu alviverde, mas isso não seria original, e a semana foi fraca em noticias. Poderia falar da falta de assunto, mas também não seria original, embora sincero. Quem sabe, pedir uma crônica emprestada a um amigo? Não ajuda muito, porque depois terei que pagar a dívida. Busco inspiração nos velhos mestres. Encontro um texto do mineiro Paulo Mendes Campos, sobre a mania do brasileiro em procrastinar (o título traz a finíssima ironia do autor: “Brasileiro, homem do amanhã”). Um texto bom pacas, “o brasileiro adia, logo existe”, diz Paulinho, mas isso me soa como uma acusação. Deixo a questão do tema prá lá.

Lá se foi uma hora, buscando inspirações e justificativas. Procrastinando. Ah, como eu gostaria de acabar isso amanhã! Não há violência maior do que não ter um amanhã. Paulo Mendes diz que para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são o nascimento, a reprodução, a procrastinação e a morte (esta, se possível, também adiada. Nenhum poema ou samba fala em morrer hoje, só amanhã). Ocorre-me agora que ainda não juntei os comprovantes para o imposto de renda, tenho meia dúzia de almoços para agendar, a lanterna do carro pifou há semanas, a mesa da sala está pior que a mesa de um rábula, a conta do celular veio errada mais uma vez, o antipulgas das cachorras venceu faz tempo. Consolo-me pensando em atrasos piores, como a estrutura da Copa, a reforma política, a nova lei de imprensa, o declinio da familia Sarney. Mas tudo isso é um consolo, não uma solução.

Falta menos de meia hora. Sinto uma coceira de entrar na internet, checar e-mails, zapear no Facebook. O telefone toca. Deixo tocar, mas isso me desconcentra, justo no momento da finalização. As duas partes principais de uma crônica são o início (que prende o leitor) e o final (que deslumbra). Perdi muito tempo no início, lutando com o dilema de confessar ou não a falta de assunto. Venceu, enfim, meu compromisso com a verdade, e abri logo o jogo. Como dizia o velho Braga: morro, mas não minto!

Mas agora restam dez minutos, e ainda não tenho um fecho deslumbrante. Poderia usar um truque de cronistas – deixar o fim para a próxima semana – mas me pergunto se um final de ouro é mesmo necessário. Já disse o que queria, e me sinto estranhamente leve. Como se tivesse feito uma travessia do amanhã para o hoje. Percebo que o dia está claro. Abro as cortinas e deixo o sol varrer a mesa entulhada de papéis. Algo parecido com renascer, ou ressuscitar, no último minuto. Acho que ainda estou impregnado de páscoa. Volto para o computador. Clico. Mensagem enviada.

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