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Um céu especial

Ano passado prometi que falaria sobre a última mostra de cinema de São Paulo – mas surgiram outros assuntos, nenhum leitor reclamou, e o tema caiu no esquecimento. Por isso, escrevo agora como um pagador de promessas. Mas tenho também um outro motivo – trágico – para relembrar a 37a. Mostra Internacional de Cinema realizada em Sampa em outubro de 2013.

Foram quase 350 filmes, em quinze dias. Consegui assistir 35 deles, míseros 10%. Corria feito louco de uma sala para outra, de um cinema para outro. Cheguei a entrar em sala errada, acabei gostando do filme e fiquei. Para ganhar tempo, andava muito à pé e levava comida e  bebida na mochila, feito um peregrino. Depois de alguns dias, já conhecia pessoas nas filas e trocava figurinhas sobre os filmes. Dentro das salas o clima também era amigável, coisa que não se vê nos circuitos de shoppings.

Em duas ocasiões, levantei-me depois de 15 minutos e fui embora. Ambas em filmes brasileiros. Um deles era muito ingênuo e amador (“De menor”, de Caru Alves de Souza); o outro tinha um rebuscamento artístico pedante e insuportável (“Exilados do vulcão”, de Paula Gaitán, ex-namorada de Glauber Rocha). Num terceiro, aguentei até o fim só prá ver no que ia dar, e não deu em nada (“O homem das multidões”, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes). Três filmes badalados, mas que não tem nenhuma história genial, nenhuma cena ou enquadramento diferente, nenhuma sequência inesquecível, nenhuma interpretação marcante, nenhuma emoção que se preze.

São obras para amigos e cinéfilos. Porém, amigos não são confiáveis, e o cinéfilo é a pessoa mais doente do mundo, deve até existir um céu especial para eles, dizia Eduardo Coutinho – um cinéfilo assumido. Foi Coutinho, aliás, o responsável pelas maiores emoções que senti naquele outubro. Vi seis filmes dele. No final de alguns, não conseguia levantar-me da cadeira, esgotado pelo choro, pelo riso, pelo êxtase diante da beleza e grandiosidade que ele extraía de seres pequenos, miseráveis e banais. No final da Mostra, ganhei seu autógrafo no livro organizado por Milton Ohata. Ele assinou como “Stephen Rose”, um falsário de dedicatórias meio autobiográfico. Estava se sentindo um farsante, por autografar um livro do qual não era, a rigor, o autor.

Eduardo Coutinho não gostava de arroubos culturais estéreis. Dizia que tem momentos em que você fica “culto”, e que lascam a sua vida. Também detestava homenagens. Felizmente, graças aos seus 80 anos, 2013 foi um ano pródigo em celebrações a ele e à sua obra. Recebeu homenagens na festa literária de Paraty e na mostra de cinema de São Paulo. No exterior, o Museu Nacional Reína Sofia, de Madri, dedicou-lhe um ciclo no mês de julho.

Em dois de fevereiro, ao libertá-lo dos sofrimentos terrenos, num gesto desesperado e grandioso de amor (típico de um personagem coutiniano) seu filho Daniel, o parricida, interrompeu projetos e futuras obras do cineasta. O mundo começa agora a dissecar sua obra, sem saber que um cabra como Coutinho não morre nem morto. Ele continuará a trabalhar, eternamente, em nossas cabeças e corações. E também no céu. No céu especial dos cinéfilos, onde deve estar neste momento, com um cigarro na boca, uma câmera e um banquinho nas mãos, à procura de almas belas e grandiosas.

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