Sol e ovo

Um novo começo

Cronista às vezes precisa antecipar assuntos para não deixar que virem jornal velho na data do próximo texto. É o caso desta última crônica do ano, escrita e publicada antes do Natal e do ano-novo. Do Natal não tenho muito a dizer, exceto relembrar que quando crianças acreditamos em Papai Noel, depois nos tornamos Papai Noel e por fim acabamos parecidos com Papai Noel. Então é Natal, e ponto final.

Mas gostaria de falar algumas coisas sobre este ano que passou. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que 2014 começou no ano passado. Foi em 2013 que começamos a gritar nossa insatisfação e a exigir mudanças. Foi ali, também, que mostramos nossa união em torno do que não queremos, e percebemos sinais da nossa desunião sobre aquilo que queremos. Em 2014, esses sinais viraram evidências, levaram a união pro brejo, e do brejo trouxeram o que há de mais sombrio – e verdadeiro – em nosso jeito de ser.

Não vou chover no molhado, dizer que somos racistas, que adoramos uma corrupçãozinha, que temos preconceito contra pobres, que amamos somente nosso egoísmo, que nos achamos a última bolacha do pacote. Uma bolacha arrogante, inculta e não bela, mas a última do pacote. Prefiro chover num terreno que já recebeu uns bons chuviscos, mas ainda precisa de muita água pra ficar encharcado: nossa natureza violenta e autoritária, construída sob séculos de regimes dominadores, opressores e dizimadores dos mais fracos. Uma cultura que nasceu com as primeiras matanças de índios, cresceu durante o escravismo, atingiu a maturidade na república, e chegou ao auge com o regime militar.

Com o movimento das diretas-já e o fim da ditadura, tivemos a falsa impressão de atingir um nível civilizatório um pouquinho mais elevado – aquele que respeita, pelo menos, a lei e o próximo. Nos últimos 24 anos, exercitamos a democracia, a legalidade e a diversidade de ideias. Treinamos reciclagem de lixo, coleta de cocô do cachorrinho, respeito à faixa de pedestre. Chegamos a eleger presidentes um operário e uma mulher ex-guerrilheira. Violência e autoritarismo? Somente casos isolados, como massacres de presidiários e de menores de rua, alguns mendigos incendiados, um gay esfaqueado aqui, um ativista baleado acolá.

Aí chegamos em 2014, e acabou-se o que nem era tão doce. De repente, o debate vira agressão, amigo vira inimigo, irmão desconhece irmão. A democracia de novo é uma coisa chata, a legalidade é intolerável, não atende nossas vontades. Não há argumentos, somente ataques. Alguns pedem a volta dos militares, outros ameaçam ir para Miami. A violência e o autoritarismo mostram sua cara nas ruas, na TV, nas rádios – e principalmente nas redes sociais. Os mais exaltados vão a manifestações públicas com revólver na cinta.

Alguns acham que voltamos ao começo, mas acho que nunca saímos dele. Este ano nos mostramos do jeito que realmente somos. Sem a maquiagem da cordialidade, de país abençoado por Deus, de seguidores da ordem e do progresso. Talvez a violência e o autoritarismo não sejam uma exclusividade nacional, e sim próprios da natureza humana. Que sejam, então, praticados à luz do dia, e não sob as sombras de negociatas e conciliações impostas pelo mais forte, como sempre aconteceu em nossa história. Seria um excelente novo começo. E 2015 seria, de fato, um ano novo. Talvez até feliz.

1 responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *