Munch_Arcoiris

Um sonho

Eu tenho um sonho que um dia o feijão não será feijão e o sonho não será sonho; que um dia os animais voltarão a falar, e desta vez os escutaremos; que o lirismo será servido no café da manhã; que haverá café da manhã; que haverá manhãs; que as lendas se tornarão realidade; que os duendes se tornarão lendas; que contar histórias fará parte do currículo escolar; que todos os professores de matemática saberão ensinar matemática; que o pecado será pecado; que haverá recitais de ópera debaixo dos viadutos, um dia.

Eu tenho um sonho que os homens ficarão grávidos; que as mulheres terão desejo todo dia e toda noite, exceto em finais de campeonato; que serão abolidas as tardes de domingo e algumas manhãs de segunda-feira; que toda rua terá jabuticabeiras e toda praça terá um chafariz, além de bancos com encosto; que os vendilhões serão expulsos do templo; que não existirão templos, nem pastores, nem ovelhas. Sonho que Deus, um dia, não ouvirá mais as nossas preces, porque não haverá mais preces; que Ele poderá, enfim, jogar pelada nos terreiros da Terra; e que a matéria escura se revelará aos povos.

Sonho que o riso será sagrado; que o primeiro beijo será sagrado; o primeiro amor será sagrado e o último também; serão sagrados o canto do sabiá e o lamento do urutau. Sonho que um dia entenderemos os vegetais e os minerais, e eles nos explicarão o sentido da vida; que saberemos falar alemão, italiano e javanês; saberemos todos dançar balé moderno; conseguiremos um dia lavar louça e cantar; e ficar em silêncio diante da lua, dos desertos, das estrelas e das ondas do mar.

Eu tenho um sonho que um dia nenhum cadeirante levará porrada por causa da sua ideologia – e se levar, a justiça será feita. Sonho que nenhum nordestino será chamado de nordestino; que a mulher não será o negro do mundo, nem o negro; que nenhum índio vestirá roupas; que nenhuma criança será violentada; que todo gay um dia será gay gay gay; que aceitaremos o novo e não destruiremos o velho; que o sexo, a morte e o pum serão naturais como a água, a terra, o fogo e o ar.

Eu ainda tenho um sonho. Tenho um sonho que um dia pegaremos nossas vidas nas mãos; que voltaremos a ser legiões nas ruas; que voltaremos a acreditar em sonhos; que enxurradas de alegria inundarão as cidades e os campos e lavarão as manchas da nossa intolerância, do nosso medo, da nossa mesquinhez, da nossa indiferença, da nossa arrogância, da nossa cegueira, da nossa vaidade, da nossa estupidez.

Eu tenho um sonho. E mil pesadelos.

6 respostas
  1. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    É isso mesmo, Antonio Carlos. A crônica é magnifica!

    Tenho um sonho, quando desperto vira pesadelo.
    O sonho: Sentada sob a sombra da árvore vejo o campo verde e a cobrinha grávida sorrindo bobamente; as crianças soltam pipas,
    dos adultos ouço o reboliço dos mergulhos no rio Tiete.
    O pesadelo: a inércia.

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