Carroça Brasil

UMA CARROÇA CHAMADA BRASIL – foto: SelvaSP

Em 1992, última vez em que vi jovens nas ruas, não saí de casa. Não tinha votado em Collor (o queridinho da mídia) e não me sentia responsável pela bandalheira do seu governo. Quem pariu Mateus que o embale, pensava e ainda penso eu. Hoje acho que Collor trouxe grandes avanços para o País, como o cheque nominal e o próprio impeachment – que igualou nossa nascente democracia à dos EUA.

Mas a grande revolução industrial foi quando ele chamou nossos carros de carroças. Aí fedeu bonito. De repente, descobrimos que pagávamos caro para ter veículos superados, modelos refugados, de má qualidade. A indústria e a imprensa automobilística nos vendiam um mundo de ilusão. Era chiquérrimo ir ao Salão do Automóvel e babar em cima daquelas latas velhas que reluziam como Ferraris e custavam como Ferraris.

A insatisfação de Collor foi vaga e difusa. Ele não falou do monza do executivo nem do fusca do proletário. Não falou em potência, segurança, conforto ou beleza. Nem em automóveis, utilitários, ônibus ou caminhões. Também não propôs soluções, como quebrar o oligopólio e abrir o mercado. Resumiu tudo num só conceito: carroça. Mas todo mundo entendeu. E tudo mudou. Hoje temos uma frota diversificada, que atende a classe A e a classe D. Ainda está cara, mas pelo menos não é carroça.

Se você acha que as atuais manifestações de rua tem uma pauta difusa, pense numa única palavra: carroça. Agora, olhe para o Brasil: educação, saúde e transporte público? Carroças. A política e os políticos? Carroças. A justiça, a polícia, a igualdade social, os direitos humanos e das minorias? Carroças. Nossa imprensa? Carroça. Nossa elite dominante? Carroção de boi. Infraestrutura, telecomunicações, etc.? Tudo carroça.

Quando vejo a Espanha jogar, sinto que até nosso futebol virou carroça. Talvez por isso ninguém comemorou em SP os gols do Brasil contra o México. Novamente, cartolas e mídia fingem que está tudo bem, que somos os melhores, blá, blá, blá. Para mim, os protestos gritam uma única insatisfação: não somos trouxas, não queremos viver num pais-carroça. Não queremos mais ser representados e conduzidas por políticos-carroça, elites-carroça, instituições-carroça, mídia-carroça e seus portavozes-carroça, autoritários e disfarçados de boa-gente. Chega de mentira, hipocrisia, cinismo. Chega de truculência, intolerância, preconceito. Chega de corrupção, privilégios, injustiças, impunidades. Chega de continuarem nos iludindo, enquanto roubam nossas vidas, nossa dignidade, nossos sonhos. Chega de nem ser, nem ter sido, nem poder ser – como dizia um escritor irlandês.

Tudo começou como resposta ao descaso, deboche e violência com que foram tratados nossos jovens e a tarifa zero. Essa batalha inicial está ganha, e o movimento cresce a cada dia, já inserido na história. Ninguém consegue prever seu desfecho. Todas as lideranças e autoridades estão catatônicas. Entretanto, não sejamos ingênuos: passado o estupor inicial, os carroceiros saberão reagir e reconduzir a carroça – mesmo chacoalhada – aos seus velhos trilhos. Mas estão assustados. Agora eles sabem que nós sabemos que o Brasil é uma carroça. Uma carroça que está nua. E que aprendemos a chacoalhar.

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