Quinha

Uma mãe

Ela nasceu Maria, depois passou a Mariquinha e por fim, Quinha. Teve quatro filhas e um filho, todos criados com a renda de um pequeno bar-restaurante numa pequena cidade do Interior. A filha mais velha casou com o filho de um fazendeiro, outra virou professora de matemática, outra comunista. A caçula elegeu-se miss e o filho elegeu-se prefeito.

Quinha sentia pena dos necessitados. Mas em vez de esmolas, preferia dar-lhes trabalho, comida e teto. A cozinha do bar tinha um fogão a lenha e dois fogões a gás. No quartinho dos fundos morava a cozinheira magra que nunca sorria, com sua preta viuvez, seus opacos olhos verdes, e um filho com deficiência física e mental, já adulto, fanático por futebol. Num dos quartos internos dormia a empregada, também deficiente mental, rejeitada pelas irmãs depois de um casamento fracassado e um filho colocado em orfanato. Às 10 da manhã a sinfonia na cozinha atingia o climax: rádio ligado, martelo batendo bife, gatos miando debaixo da mesa, assobios de panelas de pressão, cachorros latindo no quintal, galinhas anunciando ovos. Um velho papagaio regia tudo, gritando ordens, refrões musicais e slogans de remédios milagrosos. Às 11 começava a entrar o som dos pratos, dos talheres, dos pedidos gritados, do vozerio das conversas nas mesas. O primeiro freguês era sempre um velho mecânico vizinho, sujo de graxa e calado, que chegava todos os dias à mesma hora e sentava na mesma cadeira da mesma mesa. Não abria a boca, todos conheciam seus desejos e costumes, e veneravam sua fidelidade à casa.

Aos domingos Quinha não abria o restaurante. É meu dia de descanso, dizia, mas era o dia do almoço coletivo. Juntava sete ou oito mesas e despejava macarrão, maionese, frango e doces na família, nos amigos e nos parentes (na casa sempre tinha uma ou duas sobrinhas vindas da roça pra estudar na cidade, além de outros agregados). Nesses dias a música da vitrola e as gargalhadas no salão substituíam a sinfonia do trabalho e dos bichos. Quinha adorava piadas, principalmente as que ela mesma contava. Chacoalhava sua corpulência e ria tanto que chorava e perdia o fôlego e a voz. Só se recobrava com goles generosos de tubaína e uns bons arrotos.

Um dia, uma cigana pobre a quem ela costumeiramente dava pão e café-com-leite apareceu no bar com uma bebê de três meses, falou que precisava ir no posto de saúde e pediu que ela olhasse a criança enquanto isso. A cigana nunca voltou: ficou internada e morreu quatro dias depois, de tuberculose. Os filhos de Quinha já estavam grandes, quiseram tirar a ideia da sua cabeça, mas ela adotou a bebê e criou-a com os mimos e xodós de um caçula temporão.

Às vezes, Quinha sonhava com parentes distantes e passava dias apreensiva: era aviso de coisa ruim. Outras vezes sonhava com pessoas mortas, que lhe transmitiam mensagens e pedidos que ela cumpria ou fazia chegar aos destinatários. Nos últimos tempos, morando com a filha mais velha, pegou a mania de guardar coisas no freezer. Miolo de boi, cajamangas, fígado de galinha, cabeças de peixe, goiabas. A filha reclamava da falta de espaço, mas ela dizia que eram as comidas prediletas de fulano, beltrano ou sicrano, para serem preparadas quando viessem visitá-la. Morreu silenciosamente num dia à tarde, enquanto assistia novela sentada na poltrona da sala – sem ninguém ter sonhado com ela. Deixou filhas, filho, genros, sobrinhos, irmãs, cunhados, netos e bisnetos. E o freezer cheio para todos.

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