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Velhos novatos

Todo mundo sabe que a melhor coisa da aposentadoria é ter tempo prá fazer coisas que não faríamos se ainda fôssemos escravos do mundo do trabalho. Algumas são muito comuns, e quase todo iniciante no ócio começa por elas a sua trilha rumo ao vazio das horas – também chamado de liberdade. Essas atividades revelam muito do que somos, ou tentamos continuar a ser, e nos reservam surpresas agradáveis e desagradáveis, como tudo na vida.

Três horas diárias de caminhada e musculação costuma ser a ação mais frequente dos novos velhos. É fácil identificá-los: exibem alto grau de tecnologia embarcada, usam tênis novos, preferem asfalto quente e duro à terra fresca e macia, gostam de andar no contrafluxo e ignoram as regras básicas de trilhas e pistas. Não gostam de ser ultrapassados, acreditam estar sozinhos no mundo, e exageram na dose de esforço. Em pouco tempo sentem a fúria dos joelhos e a vingança dos calcanhares. Descobrem que não há resultados mágicos, e que proteínas importadas prometem mas não fazem milagres. Mancando, eles percebem que entrar em forma exige disciplina e paciência. Requer mais força de vontade do que física. E dói.

Outra atividade habitual dos novatos é a caça ao passado. Abrem um perfil no Facebook e lançam-se numa busca frenética de antigos amigos e antigas amigas, tentando reviver aventuras, emoções, amores. Alguns chegam a procurar antigas professoras, mas raramente dão sorte, a maioria delas já desencarnou.

Muitos desses reencontros são feitos de forma tateante. Surgem dúvidas de como o outro está, o que faz, o que ainda pensa e sente. E principalmente, se ainda se lembra da relação. Geralmente, após esses titubeios iniciais, o papo engrena e ocorre uma grande troca de recordações, animadas por kkkkkks e elogios mútuos. Outras vezes, principalmente entre ex-amantes, um investiga cuidadosamente a página do outro e decidem ficar no limite de um silencioso e seguro curtir. Em outras, descobre-se que antigos defeitos ficaram ainda maiores, ou que a pessoa mudou tanto que não é possível qualquer reaproximação. Em número menor, existem casos em que o velho jeito de ser continua intacto – se não melhorado – e os velhos laços são reatados com firmeza. O reencontro mais comum é aquele que dá vida real a personagens queridas que povoavam nossa memória, e quase duvidávamos que tivessem realmente existido. É estranho, mas sempre agradável, ver como esses seres do passado renascem no presente, belos, imperfeitos, e ainda gostando da gente.

Em meus começos de aposentado, passei por todas essas fases. Hoje faço coisas impensáveis aos que ainda labutam no frenesi diário. Leio livros que deveria ter lido há muito tempo, como “As Mil e Uma Noites”, “Caninos Brancos”, “Moby Dick”. Dedico horas de negociação para cortar vinte reais na fatura do telefone. Investigo temas como o fim dos buracos-negros. Pesquiso – com assombro e deslumbramento – o significado da web semântica. Faço exercícios sem querer virar super-homem. Olho o passado com mais calma e menos fantasias – sei que o Facebook não é túnel do tempo, nem vidente de esquina: não traz amores de volta. Planejo fazer o caminho de Santiago de Compostela. Na volta, compro um tênis novo. E me arrisco a ser confundido com um velho novato.

2 respostas
  1. cidinha Gratão Faconti
    cidinha Gratão Faconti says:

    Esta está de “lascar”!
    Que retrato perfeito de nós que tivemos a sorte(???)
    de chegar no que chamam de melhor idade.Eu juro que tive melhores.Eu,
    não sabia,mas hoje sei.

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  2. Jary Mércio
    Jary Mércio says:

    Berga, acho que os novos velhos – grupo a que pertencemos, para o bem e para o mal – vivem uma espécie de segunda juventude, com o mesmo espanto e sentimento de inadequação da primeira juventude. Ou seja, a vida não nos ensinou nada.
    Parabéns com um forte abraço!

    Responder

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