Enurese

Vergonhas

Tive um amigo que nunca usava meias furadas. Ele dizia que morreria de vergonha se fosse parar num hospital, inconsciente, e os enfermeiros, ao descalçá-lo, descobrissem os furos. Lembro dele toda vez que estico uma meia e vejo um dedão ou calcanhar à mostra. Por sorte, nunca fui parar inconsciente num hospital, mas já passei constrangimento ao experimentar sapatos em uma loja. Arranquei a vergonha do pé, e para despistar o vendedor, pedi-lhe que trouxesse algo para usar sem meias. Saí da loja calçando um mocassim em vez do sapato social que realmente precisava, mas nem por isso deixei de usar, eventualmente, meias furadas.

Já tive vergonha de vestir calças curtas quando todos vestiam calças compridas, vergonha de ser baixinho, de ser covarde, de nunca ter uma resposta inteligente e na ponta da língua diante de uma ofensa. Tive vergonha de ser loiro num mundo de cabelos pretos. Até os dez anos, ficava envergonhadíssimo quando ia dormir na casa de parentes, porque – invariavelmente – mijava na cama. Os primos se recusavam a dormir comigo, e os tios, sempre carinhosos e engraçados, diziam que cortariam meu pinto se a cama amanhecesse molhada, ou que eu teria que limpar o colchão com a língua e passar o dia sem roupa, enquanto o pijama não secasse.

Achei que as coisas fossem melhorar na adolescência, mas em vez disso, pioraram. Tinha vergonha de trabalhar, enquanto os amigos iam pro clube. Passei a ter medo de não arranjar namorada, de errar o passo na dança, de não saber beijar. Sentia-me um completo fracasso: não sabia cantar nem tocar violão, era ruim no basquete e pior no futebol; um vexame em matemática e um desastre em trabalhos manuais. Os verbos eram minha única salvação, mas nenhuma garota se deixava seduzir pelo particípio passado do verbo crer, ou ficava excitada quando ouvia a conjugação de resfolegar, no presente do indicativo, sussurrada em sua orelha.

E assim, descrente e resfolegante, cheguei à idade adulta. As vergonhas não diminuíram, mas aprendi a conviver com elas. Não enrubesço com tanta facilidade, consigo falar em público, fiz aulas de danças de salão. Tenho uma posição respeitável na família, e os poucos tios e tias que ainda estão vivos não se recordam das camas que molhei na infância. Aprendi que a melhor arma para enfrentar o ridículo é manter uma pose de dignidade, e percebi que a covardia é mais universal do que a coragem.

Continuo tendo medo de ficar sem namorada, e hoje sinto vergonha de ir para o clube, enquanto meus amigos vão trabalhar. De vez em quando, ainda sou assaltado por velhos medos. Sonho que estou caindo de um precipício, ou me vejo pelado no meio de uma festa, tentando disfarçar a vexatória nudez. São vergonhas antigas, trato-as como se fossem companheiras de viagem, uma espécie de amigo fiel a quem se perdoa os muitos defeitos e se louva as poucas virtudes. Amigos verdadeiros talvez sejam a única coisa que realmente valha a pena, no final das contas. Eles são a garantia de que – se a morte me pegar em casa, de surpresa – minhas meias furadas serão trocadas antes que cheguem os enfermeiros. Ou não, porque amigo, amigo de verdade, não perde a chance de uma sacanagem. Mesmo que seja a última.

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